The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 4 traduzido)

Publicado: 9 de janeiro de 2010 em The 4400

Para quem estava ansioso, aí vai o capítulo 4 do livro! =D

Só não esqueçam de comentar!

E, aproveitando, gostaria de convidá-los para conhecer um pouco do livro que eu escrevi. Naveguem pelo blog que vocês vão achar os cápítulos iniciais e mais alguns trechos. ^^

Comentem lá também!

E aguardem, porque eu breve sai mais um capítulo de The 4400.

QUATRO

 

Richard Tyler não conseguia dormir.

            Deitado na cama, o prisioneiro encarava o teto de sua cela vazia. Luzes fluorescentes entravam pelas barras de aço verticais do corredor vazio do lado de fora. Um homem negro esguio com trinta e poucos anos, ele não usava nada além de um macacão de prisão laranja há meses. Sua cabeça raspada descansava em um travesseiro amassado. Seu cavanhaque estava impecavelmente aparado. Embora o toque de recolher tivesse sido dado há horas, ele ainda permanecia acordado, ouvindo aos sons noturnos daquele bloco de celas. Soluços e roncos abafados vinham das celas próximas; parecia que a cada dia que passava mais e mais positivos eram trazidos para a prisão de alta segurança. Havia rumores de que Collier e o Centro 4400 vinham lutando arduamente para a libertação de Richard e de seus companheiros “prisioneiros políticos”, mas sem muito sucesso. Richard nem mesmo vira um advogado desde que fora apreendido em Seattle meses atrás. Pelo que parecia, ele ia apodrecer naquela cela pelo resto da vida.

            É isso o que eu ganho por brigar com governo dos Estados Unidos, pensou ele. Mesmo que não me deram muita escolha.

            Não pela primeira vez, ele imaginou como teria sido sua vida se ele não tivesse sido abduzido pelo futuro em 1951. Quando partiu para a Coréia, certamente não imaginara terminar atrás das grades no século 21. Boa parte dele desejava que aqueles intrometidos viajantes do tempo o tivessem deixado em paz. Mas se ele não tivesse sido levado de sua época, nunca teria conhecido Lily.

            Seu olhar virou-se para algo pendurado na parede. A foto colorida retratava uma linda mulher loira segurando uma criança sorridente em seu colo. A pele escura da garota parecia com a do pai. A mãe e a filha sorriam alegremente.

            Lily. Isabelle.

            A garganta de Richard se encolheu quando ele se lembrou de quando tirou aquela foto na cabine, antes de Lily morrer e tudo se tornar um inferno. Havia sido um dia bonito de verão nas montanhas. Céu azul. Pássaros cantando nas árvores. A fotografia era seu bem mais precioso e mais querido. A sagrada foto era uma lembrança de que uma vez ele não fora apenas mais um habitante, mas sim um pai e um marido amado. Por um breve período, eles haviam sido felizes.

            A luz turva tornava difícil ver os rostos de suas amadas. Sentindo uma necessidade súbita de ver sua família mais de perto, ele levantou a mão e estendeu-a na direção da foto. Sua mente instintivamente alcançou-a…

            Nada aconteceu. A fotografia continuou pendurada na parede a vários passos de distância. Nem mesmo tremera.

            Ah, sim. Ele sorriu tristemente. Engraçado o quão rápido você pode se habituar a mover as coisas com a mente. E o quanto você sentia a eficiência disso quando não mais podia fazê-lo. Doses diárias do inibidor haviam diminuído sua telecinese. Onde antes ele podia arremessar pesados objetos só pensando, agora ele não podia levantar uma pluma, a não ser que o fizesse do jeito antigo… usando seus próprios dedos.

            Suspirando cansado, ele levantou-se da cama e começou a andar pela cela. O piso de cimento estava frio sob seus pés descalços. Aparentemente, o administrador não queria investir em aquecimento. A julgar pela qualidade recente das refeições, houvera um corte de custos na cozinha também. Ele nem queria imaginar o tipo de carne que havia no ensopado da noite anterior.

            Estava na metade do caminho para a parede quando passos pesados ecoaram pelo corredor. Eles pararam bem em frente a sua cela.

            — Você aí! — desafiou uma voz áspera. — O que está fazendo acordado, Tyler? Não sabe que já passou da hora de dormir?

            Richard grunhiu para si mesmo quando reconheceu a voz. Virando-se para a porta, ele viu um par de guardas uniformizados parado do outro lado das barras. E não os seus guardas favoritos. Que sorte a minha, ele pensou. Grogan e Keech.

            Ele não tinha nada contra a maioria dos guardas ali. Só estavam fazendo seus trabalhos. Mas Grogan e seu comparsa eram diferentes. Eles se moviam sadicamente tocando o terror e dificultando para os presos. Ditadores insignificantes com ódio dos 4400. Eram a última coisa que Richard precisava essa noite.

            — Só estou esticando as pernas. — Ele voltou para sua cama. Esperançosamente isso seria suficiente para espantar os guardas.

            Não era.

            — É mesmo? — disse Grogan, com sarcasmo. Ele tinha um pescoço grosso como o de um boi e uma barriga de cerveja grande e flácida. Um bigode cobria seu lábio superior. Um corte escovinha mal cobria sua cabeça. Uma pistola Colt estava pendurada em um lado da cintura. Um cassetete do outro. Ele observou Richard suspeitosamente. — Como vou saber que você não estava aprontando, Tyler? Planejando uma fuga tarde da noite?

            Queria, Richard pensou.

            — Não vou a lugar nenhum.

            — É claro que não vai! — Ele riu da própria piada, então olhou para o seu parceiro. — Acredita na ousadia desse cara? Pensa que pode nos enganar.

            Com um rosto pálido, magro e semelhante ao de um roedor, Keech era como Laurel e Grogan como Hardy, de o gordo e o magro,só que nenhum dos dois era engraçado.

            — Muita ousadia — ele concordou, amargamente.

            — Ei! — Grogan fingiu se alarmar. — Sentiu isso?

            — Senti o quê? — perguntou Keech.

            — Essa pressão. — Grogan tirou um cartão magnético de seu bolso da camisa. Ele rodou entre seus dedos carnudos quando fingia não conseguir segurá-lo. — Ele está atraindo o cartão com a mente. Está tentando nos puxar para mais perto.

            Que engraçado, Richard pensou, sem achar graça na palhaçada do guarda. Claro que ele não estava fazendo nada do tipo.

            — Ah, sim — concordou Keech, entrando no jogo. — Agora eu sinto.

            Ele caiu na direção na porta, como que empurrado por uma força invisível. Um sorriso malicioso torceu seus lábios.

            — Filho da puta arrogante.

            Grogan tirou o cassetete do cinto.

            — Acho que temos de ensiná-lo uma lição. — Sorrindo, ele passou o cartão por um escâner ao lado da porta. A fechadura eletrônica soltou um clique e a porta deslizou para o lado. Grogan entrou na sala, brandindo o cassetete, batendo-o contra a palma de sua mão. — Não podemos deixar essas aberrações pensarem que podem usar seus truques contra pessoas decentes.

            — É isso mesmo — disse Keech. Ele acompanhou Grogan até a cela.

            Sentado na ponta de sua cama, Richard ficou tenso enquanto os guardas se aproximavam. Sua memória voltou até aquela época na Coréia, antes de ele ser abduzido, quando vários de seus colegas da Força Aérea o surraram por ousar namorar uma mulher branca… A avó de Lily, na verdade. Essa cena parecia tão familiar.

            Ele levantou as mãos.

            — Olha, não quero nenhuma confusão.

            — Quem se importa com o que você quer, sua aberração terrorista? — Grogan bateu ainda mais forte. — Desde que o seu tipinho voltou sabe-se lá de onde, ninguém no país esteve em segurança. Acha que esquecemos o 50/50? Nove mil americanos estão mortos por culpa de pessoas como você e Jordan Collier!

            Richard considerou avisar que ele nada tinha a ver com o desastre, que ele estivera trancafiado naquela mesma cela quando o surto devastou Seattle, mas percebeu que seria uma perda de tempo. Grogan não estava interessado em ouvir a razão.

            Richard segurou-se. Valeria a pena revidar? Ele estava em menor número e desarmado.

            Grogan olhou para a foto de sua família a parede.

            — Que coisa mais bonita. — Ele arrancou a foto do seu lugar e segurou no alto para que Keech pudesse ver. — Dá uma olhada na Sra. 4400 aqui. Tenho que admitir, Tyler. Você pode ser um radical inútil, mas tem bom gosto para filés. — Ele olhou para a foto de Lily. — Não me importaria em ter um pedaço desse.

            — Nós dois. — Keech lambeu os lábios. — Aposto que ela também gostaria. Nós dois — ele repetiu, caso alguém não tivesse escutado a insinuação óbvia. — Ao mesmo tempo.

            Richard olhou para os homens. Só de ver a foto de Lily nas mãos sujas de Grogan faziam seu sangue ferver.

            — Largue isso.

            — Ou o quê? — Grogan o desafiou. — Vai contar ao Jordan Collier?

            Ele rasgou a preciosa fotografia em duas e jogou os pedaços ao chão.

            — É uma pena que ela está a sete palmos abaixo da terra.

            Caipira idiota! A raiva o tomou e ele pulou na direção de Grogan. Deu apenas dois passos antes de Keech o acertar com o cassetete ao lado da cabeça. Richard caiu ao chão, sua cabeça zunindo. Sua visão ficou borrada momentaneamente. Sentiu o gosto de sangue em sua boca.

            — Você viu isso! — exclamou Grogan. — O maluco pulou em mim.

            Ele chutou Richard violentamente nas costelas.

            — Gosta disso, aberração idiota? Sinta o gostinho de legítima defesa!

            Tossindo com dor, Richard tentou se postar de pé, mas Grogan o socou no rosto forte o suficiente para quebrar um dente. O sangue jorrou de seus lábios. Keech o golpeou nas costas, nocauteando-o de barriga para baixo no chão. A sala girou em volta dele.

            — Ei! — uma voz irritada gritou do outro lado do corredor. Levantando a cabeça, Richard viu outro prisioneiro parado atrás das portas de uma das celas opostas. Um hispânico musculoso com a cabeça raspada segurava as barras de sua jaula. — Deixem-no em paz! Ele não merece isso!

            O preso protestante era novo naquele bloco, fora preso um pouco mais cedo naquele mesmo dia. Qual era o nome dele mesmo? Sanchez?

            — Vá cuidar da sua vida! — rosnou Keech, mas a atenção parecia fazê-lo sentir-se inconfortável. Saindo da cela, ele deu uma olhada pelo corredor. Agitou-se com seu cassetete. — Certo, chega de brincadeiras. — Ele disse a Grogan. — Vamos terminar logo com isso.

            Grogan agiu como se seu amigo tivesse perdido o juízo.

            — Está brincando? Só estou me aquecendo!

            — Não subestime nossa sorte. — Keech olhou em volta furtivamente. Secou a palma suada nas calças. — Acabe com ele logo, certo?

            As palavras sinistras do guarda penetraram o crânio zonzo e dolorido de Richard. O terror se misturou com a dor. Não era só uma surra, ele percebeu. Eles querem me matar!

            E não havia nada que ele pudesse fazer para impedi-los…

            — Tudo bem, tudo bem — disse Grogan, de má vontade. — Não perca o controle. — Ele virou-se para Richard, visivelmente infeliz por sua diversão ter sido cortada. — Hora de dizer adeus, Tyler.

            Ele pisou nos pedaços da fotografia no chão e tirou a pistola do coldre.

            — Dê um beijo na loirona por mim quando a encontrar no inferno.

            Ele ergueu a arma.

            Richard imaginava se Lily estaria mesmo esperando por ele do Outro Lado. Já cruzamos o tempo para nos encontrarmos…

            — Já chega! — gritou Sanchez de sua cela. Ele chacoalhou os pulsos na direção dos guardas. — Esses cabróns pediram por isso!

            Ele deu um soco na própria mandíbula… muito forte. Seu comportamento bizarro distraiu os guardas brevemente de sua missão assassina.

            — Mas que diabos? — murmurou Grogan. — Ficou loco, Sanchez?

            Ignorando a pergunta do guarda, Sanchez enfiou os dedos na boca e tirou um molar solto de sua gengiva. Ele jogou o dente sangrento pelas barras de sua cela. Caiu ruidosamente no chão do corredor antes de ele se quebrar com um som peculiar que mais parecia porcelana do que esmalte se quebrando.

            Não é um dente de verdade, percebeu Richard. É um implante.

            O dente se quebrou em dois para revelar uma pequena bola de energia, mais ou menos do tamanho de uma ervilha, que inchou com um brilho sobrenatural. Havia algo de estranho no brilho emanando da bola, que parecia com as luzes num negativo de fotografia, jogando sombras ao invés de luz nos rostos pasmos dos guardas. Eles olhavam boquiabertos aquela pequena esfera cintilante de luz. Richard piscou confuso.

            Não entendo, pensou ele. O que está acontecendo?

            Então a luz se abriu como uma flor florescendo em movimentos rápidos. A textura era tão real que parecia se dobrar e se contorcer diante dos olhos de Richard. Um flash que cegava iluminou o corredor, forçando-o a desviar o olhar. Ele fechou as pálpebras contra o clarão repentino. Grogan praguejou obscenidades.

            — Puta que pariu! — exclamou Keech.

            O clarão sumiu num instante. Mas quando Richard abriu os olhos novamente, ficou surpreso ao ver quatro estranhos parados no corredor no lugar onde o orbe estivera há apenas alguns segundos. Todos os quatro—dois homens, uma mulher e um garoto—estavam vestidos de preto, como gatunos ou espiões. Máscaras de esqui ocultavam seus rostos. Um dos homens respirava com dificuldade, como se tivesse acabado de correr uma maratona. A mulher esticava as pernas, como se tivesse ficado confinada num lugar apertado por muito tempo.

            — Graças a Deus! — disse ela. — Não estava mais aguentando.

            — O quê? — perguntou o homem cansado. — Muito confortável para você?

            — Calados! — gritou Grogan. Deixando o choque de lado, os guardas apontaram as armas para os invasores. Não sei quem são vocês, ou de onde vêm, mas não movam um músculo!

            O segundo homem, um perceptível afro americano, olhou para as armas.

            — Cuidado com isso. — Ele não pareceu preocupado com as pistolas apontadas para ele. — Estão brincando com fogo.

            — O qu…? — guinchou Grogan. A arma de metal se tornou vermelha em sua mão. A carne chiou. Berrando, os guardas soltaram os revólveres. As armas derretidas caíram ao chão. Grogan apertou sua mão queimada e Keech chupou seus próprios dedos. Os dois choramingavam pateticamente.

            O negro virou-se para a mulher.

            — Sua vez.

            Ela forçou seu pescoço a virar-se ruidosamente. A princípio, Richard pensou que ela estava se aquecendo, mas então os guardas viraram seus próprios pescoços em resposta. Sues rostos se contorceram em choque. Eles caíram moles ao piso. Grogan caiu a apenas alguns centímetros de Richard. Somente sua respiração irregular assegurou Richard de que o guarda inconsciente ainda estava vivo.

            Sanchez acenou em satisfação. Ele cuspiu sangue no chão da cela. Olhou para o garoto, que parecia ter mais de doze anos.

            — Billy?

            — Estou nessa — disse o garoto. Ele usava óculos por cima da máscara de esqui. Andou um pouco e procurou no corpo de Keech até que achou o cartão magnético. — Bingo!

            Correndo até a cela de Sanchez para libertá-lo, ele teve que ficar se estivar um pouco para alcançar o escâner.

            — Aposto que está ansioso para sair daqui!

            — Não faz ideia. — O prisioneiro saiu da cela. Deu um tapinha amigável nas costas do garoto. — E espero que nunca faça.

            Enquanto isso, a mulher deslizou para a cela de Richard. Passando pelo corpo estatelado de Grogan, ela ajudou Richard a se levantar.

            — Está bem, Sr. Tyler?

            — Eu… Eu acho que sim. — Seu cérebro confuso, que quase morrera há alguns momentos atrás, lutava para entender o que estava acontecendo. — Quem são vocês?

            — Seus anjos da guarda — respondeu a mulher. — Desculpe-nos por chegarmos em cima da hora. Ficamos sabendo há pouco tempo que corria perigo.

            Ela tirou um pequeno estojo de sua roupa. O objeto se abriu para revelar uma seringa com um líquido verde-amarelado.

            Promicina.

            Ela desencapou a ponta da seringa e esguichou um pequeno jato do líquido.

            — Espere um segundo — disse Richard. — O que vocês…?

            Antes que ele pudesse terminar, a mulher impulsionou a seringa contra seu braço. A dor aguda tirou a tontura de Richard. Ele agarrou o braço ferido quando ela retirou a injeção.

            — Para que isso? Eu já sou um p-positivo!

            — Só um empurrãozinho — explicou ela, jogando o recipiente vazio para o lado. — Para ajudar a tirar o efeito do inibidor.

            Isso era possível? Talvez, penou ele, lembrando-se de como uma dose parecida acordara Shawn Farrel de um coma ano passado. Era só imaginação dele ou já podia sentir um formigamento no fundo de seu cérebro, como um membro adormecido começando a ser usado depois de muito tempo inativo? Seus olhos ofuscados captaram as metades da foto rasgada ao chão, e ele tentou levantá-las com a mente. Mais uma vez, nada aconteceu, mas a sensação de formigamento crescia cada vez mais. Curvando-se, ele pegou os pedaços com os dedos.

            Ainda estava tentando descobrir de onde haviam vindo seus salvadores.

            — Como…? O que foi isso com o dente?

            Sanchez gesticulou na direção de um dos homens.

            — O Adams aqui consegue dobrar o espaço de maneiras engenhosas, o suficiente para colocar quatro pessoas em algo pequeno demais para aguentá-las. Como uma cabine dentária, talvez. — Ele massageou a mandíbula machucada. — Pense nisso como um dente troiano.

            Isso era possível? Richard estava ficando confuso ao se recompor com a ideia de que toda a equipe de resgate estivera se escondendo dentro do dente de Sanchez. Então, novamente, quando se pensa nisso, quantas coisas estranhas ele já não testemunhara nos últimos anos? Como Isabelle se transformando de um bebê em uma mulher adulta da noite para o dia. Ou Jordan Collier voltando dos mortos.

            — Lembre-me de não fazer isso novamente — queixou-se a mulher. — Nunca mais vou reclamar do meu apartamento apertado.

            — Chega de conversa — disse Sanchez, assumindo a liderança. Ele puxou Richard para fora da cela. — Precisamos tirá-lo daqui rápido.

            Agora o bloco todo estava um alvoroço. O som de sirene invadiu os ouvidos de Richard. Todas as luzes se acenderam. Acordados pelo distúrbio, todos os outros prisioneiros correram para as portas das celas, pedindo para serem libertados também. Eles se apertavam contra as barras, desesperados para chamar atenção dos invasores.

            — Por favor! — chamou Orson Bailey. O empresário de meia-idade fora um dos primeiros 4400 a ser detido contra sua vontade. — Me levem com vocês!

            Os choros inquietantes tocaram o coração de Richard.

            — E eles?

            Sanchez balançou a cabeça.

            — Outra hora. Estamos aqui hoje apenas por você. Não está a salvo aqui… obviamente.

            Richard não podia debater isso. Sua cabeça e costelas latejantes mostravam a verdade nas palavras de Sanchez. Tentando ignorar as tristes súplicas de seus companheiros de prisão, ele se postou atrás da equipe de resgate enquanto eles andavam pelo corredor. A adrenalina estimulava suas pernas, apesar da surra recente. Uma pesada porta de aço, com uma inquebrável janela de vidro embutida, bloqueava o caminho. Sanchez tentou o cartão magnético de Keech, mas não deu certo.

            — Que droga! — exclamou ele. — O alarme nos trancou.

            Olhou para Adams, que parecia ter se recuperado de seu cansaço.

            — Pode fazer isso, cara?

            — Posso tentar — voluntariou-se o outro lutador da liberdade. Ele deu um passo à frente e encostou as mãos contra a porta de aço. Um grunhido escapou de seus lábios enquanto ele concentrava sua habilidade na barreira firme, que no mesmo momento tomou aquele mesmo efeito de negativo de fotografia. O aço sólido pareceu virar-se do avesso, soltando-se das dobradiças, enquanto a porta se compactava numa bolinha de gude luminosa, deixando o caminho diante deles livre. Adams pegou a bolinha. Ele respirava com dificuldade. — Abre-te, Sésamo.

            Porém ainda não haviam saído. Um esquadrão inteiro de guardas veio na direção deles, carregando rifles automáticos.

            — Parados! — ordenou um policial uniformizado. — Para o chão com as mãos na cabeça!

            — Não atirem! — gritou Billy, por cima do alarme. Ele se postou diante da equipe. — Sou apenas uma criança!

            Os guardas hesitaram, relutantes em atirar em uma criança, o que foi todo o tempo que Billy precisou. Sua mandíbula se abriu e um som agudo escapou de sua boca. Os guardas recuaram, segurando seus ouvidos. Os rifles começaram a atirar. Os tiros abafavam seus gritos, mas Richard podia ver como o grito inumano os estava afetando. Eles cambalearam em agonia. Mesmo postado atrás de Billy, com as ondas sonoras indo para o lado contrário, Richard sentiu o que os guardas estavam enfrentando; os ecos se impulsionavam contra seus tímpanos. Colocou as mãos para tampar os ouvidos.

            Os outros membros da equipe se juntaram ao ataque.  Os guardas que conseguiam levantar suas armas para atirar de repente ficaram quentes como carvões em brasa. A mulher estalou o pescoço novamente e uma massa de guardas caiu ao chão, como marionetes cujos barbantes fossem cortados. Adams arremessou a bolinha brilhante nos guardas cambaleantes. Outro clarão de luz de cegar os olhos precedeu-se ao súbito reaparecimento da massiva porta de aço enquanto ela caía ao chão entre os fugitivos e os perseguidores. A porta arrancada formava uma barricada improvisada no corredor estreito.

            Essas pessoas são boas, percebeu Richard, impressionado pelas suas técnicas de trabalho em equipe. Os guardas não souberam o que os atingiu.

            Para o alívio de seus ouvidos, o grito supersônico de Billy cessou. O garoto virou-se para seus colegas de equipe. Seu orgulho e excitamento eram visíveis através da máscara de esqui.

            — Viram isso? O que eu fiz com eles.

            — Muito bem, Billy. — Sanchez o encorajou. O líder do grupo ainda não havia mostrado a sua habilidade; sem dúvida havia sido dosado com o inibidor, também. Ele apontou para um corredor à direita. — Andando agora, todo mundo!

            Eles correram pela prisão, passando a lavanderia e as academias. Sanchez parecia mesmo saber aonde estava indo, o que fez Richard acreditar que toda a sua tentativa de fuga fora planejada detalhadamente. Mas mesmo com os notáveis dons de seus aliados, ele não sabia como sairiam da prisão. Alarmes os seguiram pelos corredores. Luzes de emergência se acendiam. Agora, percebeu Richard, todos os guardas do turno haviam se mobilizado, com reforços já a caminho. Se eles não saíssem logo, ele voltaria para sua cela em pouco tempo.

            Se eu não levar um tiro antes…

            Para a surpresa dele, eles não seguiram para os portões de entrada, mas para a parte de trás da prisão. Ainda grogue por causa da surra, ele perdeu a noção de onde estavam até que Adams fez outra porta trancada desaparecer. Uma brisa fria de inverno atingiu seu rosto enquanto eles saíam no enorme pátio de exercício da prisão. Altos muros de concreto, com arame farpado em seus topos, cercavam o espaço aberto. Torres de vigília observavam a cena do alto. O chão irregular o fez desejar ter colocado os sapatos antes de sair de sua cela. O que estamos fazendo aqui? Ele conhecia cada centímetro do pátio de cor. Não havia saída a não ser para cima.

            Holofotes iluminaram os fugitivos. Richard levantou as mãos para cobrir seus olhos.

            — E agora? — perguntou ele a Sanchez.

            — Espere.

            A mulher fez seu truque do pescoço novamente e as sentinelas nos muros desmaiaram. Exausta, ela se se encostou ao muro mais perto. O resto da equipe de resgate parecia cansado também. Billy gritou para as torres de vigília, mas seu grito soou mais rouco do que antes. Richard imaginava qual era seu limite.

            — Olhem! — gritou Sanchez. — Bem na hora!

            Um lustroso helicóptero negro descia do céu. Richard estava surpreso de como eram silenciosos a hélice e o motor da aeronave, e pela total ausência de faróis. Ele escondera helicópteros na Coréia, mas esse tipo de tecnologia sigilosa o surpreendia, mesmo sendo do século 21. Se não estivesse vendo, ele não saberia que a aeronave se aproximava.

            Quem são essas pessoas? Imaginou ele, novamente. E no que eu estou me metendo exatamente?

            As hélices girando levantavam poeira e provocavam uma ventania enquanto o helicóptero pousava no meio do pátio. Uma porta automática abriu-se, revelando o compartimento dos passageiros, que parecia grande o suficiente para transportar toda a equipe e Richard. Ele entendia agora porque libertar os outros prisioneiros não era uma opção. Eles precisariam de uma frota de helicópteros para resgatar todos os presos.

            — Nosso voo está partindo! — gritou Sanchez. — Subam!

            Ele empurrou Richard à sua frente.

            — Estamos ficando sem…

            Um tiro o impediu de terminar a frase. Seus olhos se arregalaram e ele caiu ao chão. Sangue jorrou no rosto e no peito de Richard quando ele viu o atirador parado na porta atrás de onde Sanchez estivera há pouco. O guarda levantou o rifle na direção de Richard.

            Agindo por instinto, ele levantou o braço como se conduzisse uma orquestra. Uma onda de telecinese atingiu o homem armado, jogando-o ao chão e quebrando-lhe um osso com o impacto. Richard viu mais guardas entrando no pátio vindo de dentro da prisão. Ele os derrubou com mais uma onda de energia psíquica. De uma só vez, sentiu-se como se fosse ele mesmo novamente.

            Mas e Sanchez? O sangue formava uma poça ao redor da cabeça do líder da equipe enquanto ele permanecia deitado imóvel no chão. Richard moveu-se para olhá-lo, mas a mulher o puxou.

            — É tarde demais — disse ela apertando se braço, urgentemente. Olhos violetas piscaram marejados de lágrimas. — Ele se foi…

            Ela tinha razão, droga. Por mais que odiasse deixar Sanchez para trás, ele deixou a mulher arrastá-lo na direção do helicóptero. Poeira e cascalho voavam em seus olhos enquanto ele subia no compartimento de passageiros e colocava o cinto e o resto do time entrava depois dele. A porta da aeronave se fechou.

            — Todos prontos? — O piloto olhou para trás por cima dos ombros. Ele franziu a testa. — Cadê o Sanchez?

            Richard se sobressaltou ao ver que os olhos do homem eram encobertos com cataratas brancas como leite. As pupilas eram firmes e não se moviam. Espere um pouco, pensou ele. O piloto é cego?

            — Perdemos o Sanchez! — gritou a mulher. — Decole… Agora!

            Tiros e passos apressados do lado de fora dera mais ênfase ao pedido dela. Sem argumentar, o piloto virou-se para o painel de controle. O motor soltou um zumbido gentil. O assento de Richard foi impulsionado para trás quando a aeronave levantou-se, sem produzir som algum, do pátio da prisão. Ela sobrevoou por cima do muro. Ele se inclinou ansioso enquanto, não muito longe dele, o homem com a habilidade termocinética tentava confortar o pequeno Billy, que parecia estar sofrendo pela morte de Sanchez. Lágrimas pingavam por trás dos óculos do garoto enquanto ele soluçava alto. Uma noite cheia de nuvens os recebia, oferecendo a promessa de liberdade.

            Não acredito, pensou Richard. Nós vamos conseguir.

            Balas ricocheteavam os lados do helicóptero. Olhando pela janela, ele viu labaredas chamejando pelas janelas mais altas da prisão. O ronco do motor parou abruptamente. O helicóptero mergulhou alarmantemente.

            — Perdemos potência! — gritou o piloto. — Vamos cair!

            Não, pensou Richard. Visualizando o motor em sua mente, ele o imaginou rodando rápido o suficiente para funcionar. Instantaneamente, a aeronave nivelou-se e ganhou altitude. O piloto e os membros vivos da equipe exclamaram aliviados. A mulher tirou sua máscara de esqui, revelando o rosto de uma gótica. Kohl pintava seus olhos negros. Seus cabelos escuros e ondulados tinham uma mecha azul. Ela sinalizou para ele com o polegar erguido.

            O Ra-ta-tá das armas de fogo automáticas diminuíam enquanto o helicóptero elevava-se acima das torres de vigília e sumia entre as nuvens. Encostando-se no seu assento, Richard fechou os olhos e concentrou-se em manter a aeronave negra no ar.

            Esperava que não fosse um voo longo.

Anúncios
comentários
  1. Joao disse:

    Continue com o seu excelente trabalho!

  2. alan disse:

    esperando ansiosamente pelo cap.5 xDDD

  3. guilherme disse:

    nossa que d+

    ja na espera do capitulo 5!

    adorei a participação de Orson Bailey

  4. guilherme disse:

    Q habilidade loca do cara do espaço tempo!

  5. giulia disse:

    Apesar de não gostar muito do richard adorei o capitulo espero pelo proximo capitulo poste logo por favor

    bjs”!

  6. Felipe disse:

    Continue assim, obrigado pelo trabalho!

  7. Vitor disse:

    Muito bem traduzido.

    PS1: Não me aguentei e estou lendo em inglês…
    PS2: as coisas ficam ainda mais interessantes

  8. Dhiego Barbosa Silva Bento disse:

    Irmão, vc é o mais novo 4400 da terra…hehehe! Obrigado mesmo pelos posts…eu terminei de assistir a quarta temporada ontem, e quando fui procurar informaçoes sobre a 5ª tive uma decepção enorme….nem fazia idéia de que havia livros para continuar a trama….muito obrigado mesmo….eu fico louco com coisas subentendidas na minha cabeça…e uma serie de qualidade assim naum poderia terminar sem um “final”. Obrigado mesmo…..vou indicar teu site pra muuuita gente!

  9. Vitor disse:

    Vinicius,

    Tem pretenção de fazer o mesmo com o ‘4400: Promises Broken’, dando tudo certo com esse?

    PS: Já estou partindo para esse segundo…

  10. brenooficial disse:

    Sim, pretendo colocar o segundo também, quando terminar esse. Apesar de ainda não ter começado a ler o Promise Broken, pretendo colocá-lo, sim =D

  11. Vitor disse:

    Me chateia que os livros, embora os autores tenham combinado uns pontos, são contraditórios entre eles (em vários outros pontos) …

    Esse primeiro é muito bom, mas o segundo realmente decepciona (pelo menos em bom trecho inicial)… bem, isso trocaremos comentários lá a frente. Sigo acompanhando as traduções desse.

    • brenooficial disse:

      Eu comecei a ler o segundo livro hoje e li até o capítulo [spoiler….] em que a Maia foge para Collier Foundation… Até aí não achei muita contradição… Mas vamos ver mais para frente. =D

      • Vitor disse:

        [spoiler…] Além das contradições (mais nas posturas Kyle/Collier, e jeito de outras – sem contar o “ressucitação” do Sanchez) fica muito em conflitos e descrições bobas que no desenrolar. De qualquer forma, está interessante… vamos ver onde vai dar.

  12. Dhiego Barbosa Silva Bento disse:

    Breno, alguma previsão apra o capitulo 5? estou no aguardo….

    • brenooficial disse:

      Sim, o capítulo 5 sai provavelmente no sábado. Só uma coisa, meu nome é Vinicius… Breno é o nome do livro que eu escrevi, e uso esse blog para divulgá-lo…rsrs.. =D
      Visite o blog no sábado para conferir o novo capítulo!

  13. Guilherme disse:

    UHUULLLLLL!!!!!!!!

    li na comunidade do orkut q o capitulo 5 sai esse find!

    no aguarde!

  14. [S.E.P]Diego M.C disse:

    Òtimo trabalho, fico feliz, após todo drama do cancelamento em 2007, agora vamos ter uma continuação

  15. Henrique disse:

    Parabéns mais uma vez!!!

  16. Hack disse:

    A história realmente está ficando excitante!

  17. Jonas disse:

    Muito bom! Muito bom!

    Estou lendo 2 capítulos por dia e parece ser um ótimo livro junto com uma boa tradução!

    Continue assim!

  18. kristiang disse:

    os efeitos especiais da dobra do tempo iam ficar muito doido na telinha… pena ter que me contentar com minha imaginação, rsrsrs

  19. Gabriel disse:

    Bom D+ adorei, cada dia melhor

  20. Dark Time disse:

    Richard is back!!!
    Ao inicio estava a achar o capitulo mais fraco que os anteriores, principalmente quando a personagem de Sanchez tira do falso dente uma equipa treinada para salvar Richard. Achei na altura o poder um pouco ridiculo, mas ao longo do capitulo, a acção foi-se desenrrolando de um modo interessante e até emocionante, com algumas personagens já brevemente representadas na série, e até achei o poder de encolher cool na cena da porta. O homem do poder termo-cinético era afro? não me lembro…
    Muito bom, pena o sanchez ter morrido e não termos visto seu poder

  21. mariana disse:

    ainda bem que eles conseguiram fugir. Eu gosto do Richard.

  22. alex disse:

    se não fosse por este blog estaria sem dormir imaginando como continuava a série, que loco, continue com o trabalho que esta excelente

  23. Alessandra Lopes disse:

    A continuação esta muito boa…foi bom ter encontrado seu trabalho…parabéns!!! 😉

  24. Myrna disse:

    Fico só imaginando isso na tv..

  25. Débora disse:

    Cara, que incrível… comecei a assistir a série a pouco tempo e acho incrível, só que fiquei pensando se eu conseguiria encontrar traduzido. E vc fez isso o/ Valeu mesmoooo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s