The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 6 traduzido)

Publicado: 23 de janeiro de 2010 em The 4400

Antes de colocar esse novo capítulo, queria deixar um agradecimento à Helena, que está me ajudando com a tradução de algumas partes do livro, inclusive esse capítulo. =D

Comentem mais, pessoal. Quem ler, deixa um comentário e, já que estão aqui, por que não conhecer um pouco do livro que eu escrevi? Leiam o prólogo, se quiserem…

https://brenooficial.wordpress.com/2009/07/07/prologo-breno-o-anel/

SEIS

 

 — Vocês têm certeza de que era o corpo errado?

            Bernard Grayson, da Funerária Grayson & Son, ficou chocado com a notícia de que o corpo de um estranho fora encontrado no caixão de Danny Farrell. Seu rosto delgado era composto por linhas finas e angulosas. A linha do cabelo em forma de “V” marcava o alto de sua testa. Um austero costume preto denotava bem sua profissão. Ele se achava sentado em uma grande escrivaninha em madeira de lei, enquanto Diana e Tom o confrontavam com a descoberta que haviam feito no cemitério. Prateleiras de livros se alinhavam em uma das paredes, ao passo que uma outra estava cheia de fotos de Grayson com diversos políticos e celebridades. As paredes azuis clara eram agradavelmente suaves. O som de um órgão tocava baixinho no aparelho de som. A Grayson & Son fora responsável pelos funerais de Danny e da mãe dele.

            — Positivo — confirmou Tom. — Os registros dentários identificaram o corpo como sendo de Delbert Ludden, um sem-teto que foi morto durante as manifestações no ano passado, mais ou menos na mesma época em que meu sobrinho morreu. — Ele e Diana haviam deixado seus uniformes da NTAC no carro para evitar chamar atenção. — Não havia nenhuma evidência de que o corpo de Danny tenha ocupado aquele caixão.

            Diana inclinou-se para frente em sua cadeira.

— Mas o caixão era idêntico ao que Shawn Farrell adquiriu de sua empresa há dois meses.

            —Meu Deus. — Grayson enxugou a testa suada com um lenço. Ele olhou de relance para a porta do escritório, para se certificar de que estava fechada. — Não tenho como dizer o quão humilhante é isto. Eu só posso lhes garantir que nunca aconteceu algo parecido antes. A Grayson & Son goza de uma reputação impecável, desde que meu pai fundou o negócio, há trinta anos. — Ele parecia envergonhado perante Tom. — Você e sua família merecem minhas sinceras desculpas pelo que possa ter dado errado.

            Diana continuou a pressionar.

— Você tem alguma ideia do que possa ter acontecido?

            — Eu gostaria de ter — disse Grayson. — Vocês têm que entender, foi uma época muito caótica. A epidemia ceifou mais de nove mil vidas em uma questão de dias. A indústria funerária da cidade foi pressionada até o limite. Nós fomos atropelados pela fatalidade. — Ele puxou pela memória. — Eu só posso concluir que, na confusão daqueles dias sombrios, algum tipo de falha aconteceu. — Ele afrouxou o colarinho. — Mais uma vez, eu sinto muito por esses acontecimentos angustiantes.

            Tom queria respostas, não desculpas.

— Então onde está o corpo do meu sobrinho agora?

            — Para ser honesto, eu não faço a menor ideia. — Grayson abriu os arquivos mais relevantes de seu laptop. Ele verificou rapidamente a tela. —Todos os nossos registros parecem estar em ordem. Seu sobrinho deveria estar enterrado ao lado da mãe.

            Diana fez a pergunta lógica.

— Bem, onde é que o corpo de Ludden deveria estar?”

            — Deixe-me ver. — Grayson digitou o nome do mendigo no computador. — De acordo com nossos registros, os restos mortais do Sr. Ludden foram cremados. As cinzas resultantes foram recolhidas pelo município para serem espalhadas pelo planejado parque memorial. É possível que ainda estejam armazenadas em algum lugar.

            Tom não engoliu a explicação do papa-defunto. Ele se lembrava claramente de ter visto o corpo de Danny dentro do caixão, no velório. Ou o que aparentava ser o corpo de Danny. Tentou imaginar como poderiam ter sido enganados. Metamorfose? Ilusão coletiva? Projeção astral? Na Terra Prometida, as possibilidades eram infinitas.

            — Belo escritório — comentou Diana. Levantando-se de sua cadeira, ela se dirigiu até a parede, onde uma foto de Grayson ao lado de Jordan Collier ocupava lugar de destaque. Ela sacudiu a cabeça diante do retrato. — Você é fã dele?

            Grayson se encolheu em sua cadeira.

— Eu acho que o Sr. Collier é um grande homem — Uma expressão ressabiada encorajou os agentes a confrontá-lo. — Você já leu o livro dele? “De 4400 para mais”?

            — Eu tenho uma cópia autografada — disse Tom, secamente. Ele não se surpreendeu com a admiração do homem por Collier. Uma pesquisa prévia já havia revelado inúmeras ligações entre o agente funerário e o Movimento de Collier. Grayson & Son parecia ser a funerária preferida dos seguidores de Collier e suas famílias. Eles haviam inclusive realizado o funeral de Isabelle Tyler. Detendo a preferência, Grayson poderia estar apenas tirando vantagem de um novo e lucrativo fenômeno demográfico, mas a conexão com Collier era suspeita. Talvez o desaparecimento do corpo de Danny não tivesse sido apenas um acidente.

            — Acho que teremos que inspecionar as dependências da empresa — declarou Diana.

            A cortesia solícita de Grayson evaporou.

— Por quê? — ele indagou, na defensiva. — Porque eu apoio Jordan Collier e seus esforços para fazer do mundo um lugar melhor? Isto não é crime, ao menos não em Seattle.

            — Não — ela concordou — mas a apropriação indébita de restos mortais é. Nós não queremos prestar queixa, mas você estaria melhor se cooperasse conosco. — Ela olhou de relance para Tom. — Especialmente se você não quiser que meu parceiro abra um processo civil também.

Grayson empalideceu com a possibilidade, mas manteve pé firme.

 — Acho que eu valorizo demais a privacidade de meus clientes para me comprometer nesse sentido. — Ele se levantou de sua cadeira e gesticulou na direção da porta. — Estejam à vontade para inspecionar as áreas públicas, as salas de velório, capelas e tudo o mais, mas as salas de preparação e o crematório são áreas restritas. É uma questão de princípios.

            — É assim? — disse Tom, duvidando. O fato do agente funerário desafiá-los teimosamente, mesmo com a ameaça de inquérito e falência em potencial, sugeria que ele definitivamente tinha algo a esconder. Tom tirou um documento dobrado do bolso de sua jaqueta. — O caso é que nosso mandado vence os seus princípios. — Ele entregou a Grayson a ordem judicial, discretamente obtida com um dos poucos juízes de Seattle que não estavam comprometidos com Collier. — Veja só.

            — O quê? — Aturdido, Grayson folheou o documento, antes de jogá-lo na mesa. Sua expressão facial era pura raiva. “Isto é um despropósito! — Ele pegou o telefone. — Eu preciso falar com meu advogado.

            Ou talvez Jordan Collier?

            — Vá em frente — disse Tom, levantando-se da cadeira para se juntar a Diana. Ele imaginava se o recalcitrante agente funerário esperava que Collier o protegesse de qualquer investigação. — Enquanto isso, nós iremos dando uma olhada por aí, começando por aquelas áreas restritas que você mencionou.

            — Não! Não podem — protestou Grayson. Esquecendo-se do telefone, ele correu de trás de sua mesa para deter os dois. — Eu não entendo. O que vocês esperam encontrar? Eu prometo, o corpo do Sr. Farrell não está aqui. Por que estaria, após todas essas semanas?

            — Me diga você — replicou Tom. As objeções veementes do homem apenas aumentavam sua determinação de vasculhar a funerária de cima a baixo. Ele não esperava realmente encontrar o corpo de Danny nas dependências desta, mas talvez pudessem obter alguma pista que revelasse o que fora feito dele. E o que Jordan Collier tinha a ver com aquilo, se é que tinha.

            — Dizer o quê? — O papa-defunto, consternado, parecia a ponto de arrancar o pouco que lhe restava de seus cabelos. Ele retorcia suas mãos suadas. O suor brotava de sua testa. — Eu não tenho nada a esconder!

            Tom abriu a porta.

— Então você não tem nada com o que se preocupar. Mas precisamos ver por nós mesmos.

            — E vamos precisar daquele laptop — acrescentou Diana. Sem pedir permissão, ela confiscou o computador da mesa de Grayson. — Bem como seus registros acerca de Danny Farrell, Delbert Ludden, e o resto dos casos do cinquenta/cinquenta.

            Grayson fitou tristemente seu laptop perdido.

— Mas nós registramos centenas de vítimas. Centenas!

            — Então é melhor você começar a se mexer — disse Tom.

            Ele e Diana saíram do escritório, com Grayson ansioso atrás deles. Enquanto isso havia um funeral em andamento em uma das salas de velório adjacentes. Olhos curiosos se voltaram na direção dos agentes. Tom sentiu uma pontinha de culpa por causar aquela perturbação, mas eles não poderiam jamais ir embora e voltar mais tarde; isso daria a Grayson uma chance de se desfazer de alguma evidência que poderia incriminá-lo. Eles apenas teriam que tentar se discretos. Mais uma razão para começar pelo andar de baixo, decidiu ele.

            Evitando as áreas públicas, eles se dirigiram para os fundos da casa. Um belo aviso de ACESSO RESTRITO AOS FUNCIONÁRIOS enfeitava a entrada de uma escadaria que descia para o porão. Uma porta trancada os recebeu ao final dos degraus.

            Tom virou-se para Grayson, que estava parado exatamente atrás dele na escada.

— As chaves.

            — Esqueça — o homem resmungou. Ele estendeu os braços, como se os oferecesse para serem algemados. — Prenda-me se você quiser, mas eu conheço meus direitos. Você não vai se safar dessa.

            Aquilo era uma ameaça? Mais uma vez, Tom imaginou que Grayson estivesse esperando que Collier ou seus assessores pudessem intervir em seu favor. Isso poderia acontecer, ele admitiu, se o agente funerário tivesse a chance de contatar seu glorioso líder. E é por isso que precisamos passar por esta porta agora.

            Desafiando-o, ele pegou as algemas.

—Vigie ele — pediu a Diana, enquanto algemava os pulsos do homem atrás das costas. O papa-defunto de meia-idade parecia estar desarmado e em desvantagem, mas quem saberia quais habilidades estranhas ele poderia possuir? Bernard Grayson não estava listado entre os 4400, mas isto não significava muito. Graças ao cinquenta/cinquenta, havia inúmeros p-positivos não registrados em Seattle naqueles dias. Pelo que sabiam, ele poderia esguichar veneno de seus olhos ou incendiá-los com um simples pensamento.

            Entretanto, ele limitou-se a olhar com raiva para Tom, enquanto este o revistava para achar as chaves. Um barulhinho metálico encorajador entregou o esconderijo das mesmas. Tom exigiu as chaves e destrancou a porta.

— Está bem, vamos descobrir o que você está tão determinado em esconder de nós. Por uma questão de princípios, é claro.

            Tom nunca havia estado nos bastidores de uma casa funerária antes, mas ele imaginava que não poderia ser diferente do necrotério do QG. Uma olhada rápida pareceu confirmar suas expectativas. Divisórias separavam o porão em três ou quatro câmaras interligadas. Redomas refrigeradas mantinham os clientes do necrotério gelados. O cadáver de um ancião estava sobre uma mesa metálica de embalsamento. Um pano modesto, cobrindo-lhe a virilha, ajudava a preservar sua dignidade. Uma máquina de embalsamar, cheia de um líquido rosa translúcido, rugia ao fundo. Ralos metálicos tinham sido instalados no chão de ladrilhos. Trocáteres, instrumentos de sutura, cânulas e outras ferramentas estavam espalhadas por várias bandejas e balcões. Estantes de vidro continham uma grande variedade de preparados químicos. Uma pia de porcelana branca jazia na parede mais distante. Lâmpadas suspensas brilhavam intensamente. Ventiladores barulhentos e exaustos se esforçavam para limpar o ar, que cheirava levemente a formaldeído e putrefação. Portais se abriam para as câmaras adjacentes. Espreitando através de uma porta à direita, Tom vislumbrou uma grande fornalha de aço, com controles de ajuste de temperatura. Uma esteira rolante esperava para conduzir corpos para dentro do crematório. O sistema de ar condicionado mantinha o porão vários graus mais frio do que os escritórios lá em cima.

            Tudo parecia em ordem, apesar de meio bagunçado, então por que Grayson fizera tanto auê?

            — Tom — disse Diana, ansiosa. — Venha aqui.

            Ela entrara por um portal no que, à primeira vista, parecia ser uma segunda sala de preparação. Ele se apressou através da câmara para se juntar a ela. — O que foi?

            — Veja este equipamento — ela disse, apontando para um grupo de aparelhos que pareciam caros. — Centrífugas, tubos de ensaio, placas de Petri, microscópios de elétrons, incubadoras de cultura, até um moderno analisador de DNA. Eu sei que não sou uma expert, mas estou bem certa de que isto não é equipamento padrão do ramo de funerais. — Ela contornou a sala para confrontar Grayson, que já se encontrava ao pé da escada. “Qual é a explicação, Sr. Grayson? Está querendo entrar no ramo da guerra dos germes ou algo parecido?

            O agente funerário algemado lançou um olhar furioso para os dois agentes.

— Eu não vou dizer nada. Isto aqui é propriedade particular.

            — Talvez — disse Tom — mas isto me parece mais do que um passatempo. — Ele avaliou o laboratório oculto. Era mesmo um aparelho de tomografia ali no canto? Ele não era um cientista, como Diana, mas até ele podia dizer que todo aquele equipamento médico de alta tecnologia não tinha nada a ver com a preparação de corpos para enterros. — Precisamos fotografar todas estas instalações, talvez até trazer Marco aqui para ver tudo isto.

            Marco Pacella era o gênio residente da NTAC, e chefe da “Sala de Teorias” da Divisão Noroeste. Se ele não conseguisse descobrir o que Grayson pretendia com todo aquele equipamento, ninguém mais o faria.

            — Ou, se nós pudermos confiar nele, Kevin Burkhoff — sugeriu Diana. Uma etiqueta de “agentes biológicos nocivos” estava afixada em um armário de metal. Olhando dentro do container, ela encontrou promicina suficiente para decretar uma sentença de vida ou morte para qualquer lugar além de Seattle. O brilho esverdeado do neurotransmissor ilegal se espalhou pelo laboratório. — OK, isto definitivamente não é fluido de embalsamento — Ela sacudiu a cabeça, desnorteada. — Mas o que isto tem a ver com o seu sobrinho?

            — É o que eu quero descobrir — disse Tom, com raiva. Entrando na câmara frigorífica, seu olhar se ateve às estantes refrigeradas que continham a clientela inerte. Etiquetas escritas a mão, afixadas na borda das cúpulas, identificavam a maioria dos ocupantes pelo nome. Um grupo de gavetas, entretanto, estava identificado apenas por números. Num impulso, Tom segurou a alça da gaveta do meio e a puxou com força. Um sopro de ar gelado enevoou brevemente a atmosfera refrigerada. Um par de pés descalços aparecia de dentro da figura coberta que estava deitada dentro da cavidade aberta. Uma etiqueta afixada num dos dedos continha apenas um número de código: # 11.

            — Espere! — entregou Grayson. — Deixe isso aí.

            Só porque você quer, pensou Tom. Ignorando os protestos do papa-defunto, ele puxou para fora a bandeja que continha o corpo. Um fino lençol verde ocultava a identidade do cadáver, mas o tamanho e o formato do corpo lhe causaram um sentimento ruim. Preparando-se para um choque, ele puxou o lençol.

            O rosto de Danny estava pálido e sem vida.

            — Seu ladrão de corpos idiota! — Girando o corpo, Tom agarrou Grayson pelo colarinho e o jogou contra a parede. — O que você quer com meu sobrinho?

            Grayson deu um sorriso amarelo para o agente irritado. Seus olhos brilhavam de fervor. — O Grande Passo para Adiante ainda não está completo. Danny Farrell ainda tem um papel a cumprir neste grande plano, apesar de sua morte infortunada.

            — Que merda você quer dizer com isto? — Tom tentou tirar uma resposta do seu prisioneiro, sacudindo-o. — Fale, seu demônio desgraçado!

            — Calma, Tom! — Diana o aconselhou. — Eu sei que você está aborrecido, mas não faça nada de que possa se arrepender.

            Falarei com Bernard aqui, ele pensou. Ele é quem cometeu um grande erro aqui, mexendo com minha família. Tom não estava certo de que Diana estava usando a tática de “policial bonzinho/policial malvado”1 ou se ela realmente estava com medo de que ele perdesse o controle, mas de toda maneira ele não iria desistir enquanto o papa-defunto imprensado na parede não vomitasse a explicação para o que estava acontecendo ali. Está começando a parecer que Dennis estava na pista certa.

            Mas antes que Grayson pudesse abrir o jogo, Tom percebeu indícios de movimentação pelo canto de seus olhos. Para sua surpresa, um jovem de jaleco pulou de detrás da porta ao pé da escada. Tom se repreendeu mentalmente por não verificar completamente o porão antes de começar a revista; ele deixara sua ligação pessoal com o caso prejudicar sua disciplina.

— Diana, cuidado!

            O aviso veio tarde demais. O empregado anônimo pegou uma bandeja de aço de um dos balcões e arremessou contra a cabeça de Diana. A arma improvisada a atingiu com um impacto estridente. Diana desmaiou de cara no chão de ladrilhos. Ela gemeu, cheia de dor.

            — Diana! — Ele não conseguia saber se ela estava inconsciente ou não. Soltando Grayson, correu para confrontar o agressor dela. Sacou a arma no coldre lateral. — Mãos ao alto! Não mova um músculo!

            O adolescente magricela deu uma risadinha ao ver a arma de Tom, revelando uma boca repleta de ganchos metálicos. A acne marcara sua face rude. Mechas loiras e engorduradas balançavam diante de seus olhos. Calças jeans azuis contrastavam com seu jaleco branco e manchado. Ignorando a ordem de Tom, ele correu para a mesa de embalsamento e pegou um trocáter ameaçador de um kit de instrumentos na ponta da mesa. A agulha de metal reluzente cintilou sob as luzes do teto. Ele o brandiu na frente de Tom como uma espada.

*N. do T: “Good cop/bad cop” – estratégia de abordagem do criminoso, efetuada em dupla por policiais, na qual o primeiro o interroga de maneira agressiva e incisiva, preparando o terreno para que o segundo, utilizando uma aproximação mais tranquila, pareça simpático e tenha melhores chances de obter uma confissão, por exemplo.

            — Largue isto — rosnou Tom. Elevou sua arma até a cabeça do garoto. — Agora.

            — Vá em frente — provocou ‘Ganchos’. — Puxe o gatilho. — Ele olhou para Grayson, atrás de Tom. “Bernie, saia daqui. Eu tomo conta desses storm troopers**!

            O papa-defunto correu de volta para a escada.

— E quanto a você? — perguntou ao parceiro de crime.

            — Você é mais importante — insistiu Ganchos. — O futuro precisa de você. Vai!

            Diana gemeu fracamente no chão. Apesar de armado, Tom sentiu que a situação rapidamente saía de seu controle.

— Nenhum de vocês vai a lugar algum. Agora abaixe essa arma. — Ele engatilhou a Glock semiautomática. — É o meu último aviso.

            — Ah, é? — O adolescente brandia o trocáter. — Que tal este aviso: deixe Bernie ir ou sua parceira vai ficar espetada como churrasco!

            Ele aproximou-se ameaçadoramente de Diana. Tom puxou o gatilho.

            Nada aconteceu.

            — Qual o problema, garotão? — Ganchos deu tapinhas na cabeça dele com a mão livre. — Por acaso eu contei que posso neutralizar reações químicas apenas com a força de vontade? Muito útil no laboratório, e mais ainda em um tiroteio. Sua munição está estragada.

            Droga, pensou Tom. Ele ouviu Grayson correndo escadaria acima lá atrás. Em alguns minutos o criminoso diretor de funerária estaria longe, mas persegui-lo não era uma opção. Não havia como deixar Diana sozinha com aquele cara. O violento adolescente com certeza tinha planos.

            Tom nem tentou disparar sua arma novamente. Ao invés disso, arremessou o inútil pedaço de metal contra a cabeça de Ganchos. O adolescente abaixou-se para evitar o projétil e Tom aproveitou a oportunidade para atingi-lo com a cabeça. Ele jogou o oponente de costas na mesa de embalsamento, que se chocou contra o inofensivo cadáver atrás dele. Seus dedos agarraram o punho de Ganchos para manter a ponta afiada do trocáter longe dele. Os anos de treinamento no F.B.I. triunfaram quando ele torceu o punho de Ganchos selvagemmente.

*N. do T: Storm troopers – personagens da saga Star Wars, de George Lucas.

O instrumento cirúrgico afiado voou da mão do garoto e quicou pelo chão até o outro lado da mesa.

            — Desista! — resmungou Tom, com os dentes cerrados. Mesmo que tivessem perdido Grayson, talvez ainda pudessem conseguir respostas daquele cretino. Ele se sentiu um idiota por não ter checado os outros empregados; eles deveriam ter imaginado que Grayson não estava trabalhando sozinho. — Você vem com a gente!

            — É o que você pensa! — Ganchos cuspiu no rosto de Tom, cegando-o momentaneamente, depois golpeou a testa do agente com sua cabeça. Estrelas explodiram dentro do crânio de Tom e ele cambaleou para trás. Ganchos escapuliu de suas garras e rolou por cima da mesa de embalsamento, jogando o corpo do ancião no chão. A carne sem vida atingiu os ladrilhos como um saco de batatas. Um parafuso de plástico no abdômen do cadáver se abriu. Fluido de embalsamento jorrou da ferida aberta.

            Tom limpou o cuspe de seus olhos e saltou por sobre a mesa, atrás de seu oponente. Ganchos mergulhou para pegar o trocáter, mas o agente jogou-se sobre ele primeiro. Eles tombaram através de uma porta aberta para dentro da câmara de cremação. O laboratorista lutou de forma cruel, mordendo com força a orelha de Tom, enquanto eles se debatiam no chão, mas o experiente agente da NTAC logo levou vantagem. Um golpe nos rins fez Ganchos gritar, soltando a orelha de Tom, e ele jogou-se em cima do adolescente, imobilizando-o no chão. Ele levantou seu punho para desferir o golpe final.

            — Espere — grunhiu Ganchos. Ele jogou as mãos para cima, rendendo-se. — Me dê um segundo!

            — Para o quê? — exigiu Tom. Ele não tinha tempo a perder com aquele marginal. Eu preciso ver como está Diana.

            — Para me concentrar, seu idiota!

            O garoto fez uma careta e apertou os olhos fechados. Sua testa ferida se franziu em pensamentos… E uma repentina onda de fraqueza tomou conta de Tom. De uma só vez, seu punho parecia pesado como uma bola de boliche. Seus membros pareciam de borracha.

            Oh, droga, pensou Tom. O que ele está fazendo comigo?

            Ele tentou continuar o soco, mas o golpe aterrissou completamente sem força. Os nós de seus dedos rasparam, inofensivos, o queixo do rapaz. A cabeça de Tom balançou, molenga, sobre seus ombros. Ele sentiu-se tonto, confuso.

Ganchos afastou Tom com rudeza e se colocou de pé. Tom permanecia ajoelhado e instável no chão. Tudo o que podia fazer era continuar assim. Ele nunca havia se sentido tão exausto em toda a sua vida.

— O que… O que está acontecendo comigo?

            — Está tendo uma pequena crise energética? — Ganchos zombou dele. — Isso sou eu diminuindo seu metabolismo. As reações catabólicas que dão força aos seus músculos estão se reduzindo a um rastejar. Como a pior hiperglicemia do mundo. — Ele riu do agente aflito. — Tira um pouco a concentração, mas realmente elimina o vento das suas velas. Vamos relembrar a biologia do Ensino Médio.

            Tom tentou reagir rápido, mas seu cérebro se recusou a cooperar. Ele mal podia concatenar duas ideias ao mesmo tempo. Apoiou os dois braços no chão para evitar escorregar no chão de ladrilhos. Seus olhos turvos observaram Ganchos acender o crematório. O propano se incendiou dentro do destilador à prova de fogo. O embalsamador ferido abriu a porta superior para revelar o inferno laranja brilhante lá dentro. Tijolos refratários alinhavam-se no interior do forno. O calor das chamas atingiu Tom como um sopro de fornalha. Ganchos ligou a maca motorizada. Uma esteira rolante esperava para despejar uma carga na boca do forno.

            — Não — arfou Tom. Apesar do calor, um arrepio desceu sua espinha quando ele adivinhou o que o adolescente tinha em mente. — Você não pode…

            — Desculpe, cara, mas você pediu isto. — Ele veio por trás de Tom e o agarrou por debaixo dos braços. O agente, esgotado, estava fraco demais para reagir. Grunhindo de esforço, Ganchos colocou Tom de pé e começou a arrastá-lo para a esteira rolante. — Você poderia muito bem ter escapado sozinho.

            Os joelhos de Tom se arrastaram no chão. As chamas crepitavam mais alto do que o ronco contínuo do motor. O calor do forno aumentava a cada passo.

— Espere — ofegou ele. — Você não tem que fazer isto. Deixe-nos aqui.

            — Sem chance — disse Ganchos. — Vocês já viram demais. Eu preciso realocar todo este equipamento antes que algum outro idiota do governo venha procurar vocês. — Ele girou Tom até colocá-lo de frente para a esteira. O inferno flamejante chamuscou o rosto de Tom. A ponta da esteira encostou em sua cintura. Ele travou os joelhos com o que lhe sobrava de energia.

            — Por favor — Tom suplicou. — Não… Isto é loucura…

            — Você e seus colegas estão loucos se pensam que podem impedir o futuro. — Ganchos continuou falando, talvez para se distrair do que estava para fazer. — Normalmente, eu colocaria você em uma caixa de papelão primeiro, e me certificaria de remover todos os seus objetos pessoais, mas acho que isto tem que ser feito rápido. — Ele tentou empurrar Tom para a esteira rolante, enquanto tagarelava sem parar. As mãos dele pressionaram as costas de Tom. — Que pena que você não verá o Paraíso na Terra, companheiro. Mas pense nisto como uma prévia do Inferno…

            Ele segurou, sem forças, as laterais da esteira. Sentiu seus pés perdendo contato com o chão. Acabou-se, ele temeu. Talvez eu devesse ter tomado aquela maldita injeção, afinal de contas...

            Entretanto, no mesmo instante em que ele pensou que estava tudo acabado, Ganchos gritou de dor. Largando Tom, ele cambaleou para trás, praguejando de forma obscena. O trocáter que estava jogado no chão havia sido enfiado em seu ombro por Diana, que estava em pé atrás do pretenso assassino de Tom, com uma expressão decidida no rosto. Preocupado em evitar a própria cremação, Tom nem a ouvira entrar no crematório.

            Aparentemente, nem Ganchos.

            O sangue escorria pelas costas do laboratorista. Sua concentração falhou, e Tom sentiu a energia voltando. Alívio e adrenalina inundavam suas veias. Seu cérebro confuso voltou a funcionar. Ele pulou para longe da esteira e do forno.

— Diana — ele arfou —, essa foi por pouco.

            — Nem me fale. — Ela mantinha o olhar fixo em Ganchos, que estava acuado pelos dois agentes. O garoto se balançava todo, as pernas tremiam. — Você está bem, Tom?

            — Acho que sim. — Ele estava feliz por ver sua parceira de volta à ação. — Obrigado por me salvar. E você?

            Ela massageou sua cabeça contundida.

— Nada que um Tylenol não cure. — Ela puxou o celular do bolso e chamou reforços. — Está certo. Traga Garrity aqui – ambos, o mais rápido que puder, e alguém da equipe de Marco, também. — Ela guardou o telefone e acenou com a cabeça para Tom. — A ajuda está a caminho.

            — Você ouviu, né, seu bosta? — Tom sacudia os punhos, enquanto bloqueava a saída. Ele sentiu que ainda poderia devorar um filé enquanto isso, mas seu vigor estava definitivamente voltando, à medida que seu corpo trabalhava além da conta para recarregar as baterias. — Se eu fosse você, começaria a falar agora mesmo.

            Ganchos engoliu em seco. Seu rosto cheio de acne se contorcia de dor, enquanto ele se esforçava para tirar o trocáter de seu ombro. Um jorro rubro esguichou da ferida aberta. Ele olhou de um lado para o outro entre os agentes, como se avaliando as chances que teria contra os dois. O sangue pingava da ponta da arma. Seu braço se sacudia como uma antena de carro numa rodovia. O hematoma em sua testa era uma feia mancha roxa.

            — Nem pense nisso. — Tom o advertiu. —Olhe para si mesmo. Você está perdendo sangue rápido. Não há meio de você passar por nós.

            O garoto lambeu os lábios nervosamente. Seu braço tremulante começou a se abaixar.

            — Você acabou de tentar incinerar um agente federal — Diana lembrou a ele. — Nem mesmo Jordan Collier pode salvá-lo desta.

            Os olhos selvagens e avermelhados lembraram a Tom um animal acuado.

— Eu jamais trairei o Movimento — jurou o adolescente. — Vocês não vão conseguir me fazer falar.

            — Isto é o que você pensa — disse Tom, sombriamente.

            — Não, não… — O olhar do garoto lançou-se na direção do crematório. Ele respirou fundo. Um misterioso ar de tranquilidade tomou conta dele. — Eu não vou lhes dar a chance de me dobrar.

            Tom entendeu tarde demais o que o embalsamador acuado tinha em mente.

— Não! — ele gritou, se projetando para frente, mas Ganchos já havia se atirado de bruços na esteira. Esta jogou o jovem suicida direto na boca aberta do crematório. Uma explosão de calor se derramou do forno quando as chamas engoliram o corpo flagelado do adolescente. Carne e roupas escureceram e queimaram. A pele chiou e estalou. Seus gritos de morte foram misericordiosamente breves.

            — Oh, meu Deus! — exclamou Diana. Ela tapou a boca com a mão, horrorizada. — Que tipo de fanatismo inspira um sacrifício como este?

            — Pergunte a Jordan Collier — respondeu Tom, amargamente. Querendo abafar o cheiro de carne humana queimando, ele bateu a porta do forno, para que eles não vissem ou sentissem mais nada. A cremação autoinflingida do adolescente o sacudira até o âmago. Kyle seria capaz de fazer o mesmo para proteger seu adorado Movimento? Tom não queria nem pensar naquilo.

            Virando as costas para o crematório, eles caminharam, entorpecidos, de volta para a sala de preparação. A visão do corpo de Danny na maca atingiu Tom como um soco no estômago. Ele passou por cima do cadáver rasgado no chão. O ar fresco rescendia a produtos químicos e sangue. A morte parecia se aproximar de todos os lados.

            Diana caminhou para as redomas.

— Bem, ao menos encontramos Danny.

            — Mais conhecido como Número Onze — disse Tom, de modo severo.

            Diana lançou um olhar enigmático para os outros compartimentos.

— Imagino quem serão os outros espécimes. — Curiosa, ela abriu a redoma diretamente acima da de Danny e puxou a gaveta. Outro corpo coberto por um lençol saudou seus olhos. — Vamos ver quem temos aqui.

            Ela retirou o lençol, então pulou para trás, surpresa. Tom soltou um grito entrecortado.

            O segundo corpo também era de Danny Farrell.

 

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comentários
  1. alan disse:

    tá ficando cada vez mais interessante… =DDD

  2. giulia disse:

    Nossa to ficando de boca aberta!

    impresionante!

  3. guilherme disse:

    Nossa cada vez mais surpreendente espero que so melhore!

    to sentindo falta do Kyle e o pesoal da NTAC!

  4. brenooficial disse:

    [spoiler]O próximo capítulo tem o Kyle =D
    E o pessoal da NTAC aparece mais para frente e ganha mais destaque no Promises Broken, que, na minha opinião, começou meio fraco, mas deu uma virada no final.

  5. giulia disse:

    Muito bom cada vez mais misterioso!

    q bom q kyle vai aparecer!

    sempre desconfiei dakela abilidade dele!

    será q é mesmo uma habilidade!

  6. Jonas disse:

    Muito bom! Esta ficando cade vez mais interessante…

    O pessoal esta gostando muito!

  7. kristiang disse:

    isso ta quase virando um arquivo-x… estariam tentando clonar o corpo de Danny Farell para reproduzir o virus da promicina???

  8. Allan Fedato disse:

    Valeu . Muito bom seu trabalho !!!!

  9. Gabriel disse:

    D+, cada dia que leio me interesso mais.

  10. mariana disse:

    E agora, vai aparecer um monte de dannys ?

  11. Muito bom, obrigado por este presente a todos nós que acompanhamos a serie 4400.

  12. Luiz disse:

    Muito interessante

  13. Drika disse:

    Que reviravolta!Estou ansiosa pelos próximos capítulos

  14. Cris disse:

    Nossa emocionante

  15. Puxa!! Que bom q não estou lendo sozinha somente neste ano de 2013!!! Essa série eh mto inteligente, atrai mta a atenção!!!

  16. Lisandro disse:

    Onde está o capítulo 1?

  17. Mariana disse:

    Muito bom o livro e a tradução! Faz o mesmo que a série: não deixa a gente parar, sempre quero ver/ler mais, muito bom
    E uma coisinha: no final no capítulo 5, não tem link pro capítulo 6. Tive que jogar no google pra conseguir esse link 😉

  18. Mnks disse:

    Muito bom, cada vez mais interessante, excelente tradução!

  19. fico imaginando o sucesso que seria se nao tivessem cancelado.Mto bm o livro

  20. sueli disse:

    Envolvente…

  21. Audra Liz disse:

    Nossa muito emocionante….. Obrigado por traduzir para nós!

  22. Ilona Radics disse:

    Obrigada pela tradução, estava procurando o livro em inglês na net e achei seu link . Estava acompanhado a série no Netflix, e terminei a 4 temporada ontem, me deixando o gostinho de quero mais 🙂

  23. Myrna disse:

    Meu Deus, que emocionante…

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