The 4400 – Welcome to Promise City (capítulo 12 traduzido)

Publicado: 7 de março de 2010 em The 4400

Pessoal, desculpem a demora para postar o capítulo dessa semana. É que tive que resolver umas coisas ontem durante o dia e a noite eu não estava em casa. Mas, aí vai o capítulo dessa semana. Continuem comentando para que a tradução continue!

Enjoy!

DOZE

 

            April tinha conseguido finalmente chegar ao escritório de Jordan Collier.

            Cuidado com o que você deseja.

            Ela havia se empoleirado ansiosamente na borda de uma cadeira Queen Anne de espaldar alto, no meio do impressionante escritório executivo. Os dois Oficiais da Paz da prefeitura permaneciam um de cada lado dela. Nenhum havia dado qualquer pista do que a aguardava, embora sua imaginação temerosa tivesse engendrado uma série de cenários apavorantes, incluindo seu desaparecimento definitivo. Ela havia escutado rumores não-confirmados sobre o que acontecera com os 4400 que contrariassem Collier.

            A sala era desconfortavelmente quente, se comparada à praça ao ar livre. Seu chapéu, sobretudo e óculos espelhados estavam pendurados em um cabideiro perto da porta, mas ela ainda se sentia vestida demais para um ambiente fechado. Ela suava dentro de sua blusa felpuda de pelo de cabra com gola rulê e calças justas de couro. Sua boca estava seca como a Proibição. Ela não conseguiria aguentar o suspense por mais muito tempo.

            — Compartimento emérito desbotado? — ela desembuchou.

            Traduzindo rudemente: o que vocês querem comigo?

            Os guardas apenas sorriram como resposta.

            Sua desesperadora inabilidade para falar claramente apenas tornava seu confinamento involuntário mais doloroso. Um soluço frustrado escapou de sua garganta. Ela roia as unhas nervosamente. Um relógio de parede revelava que ela já tinha sido capturada havia duas horas. Ela não estava certa de quanto tempo mais ira conseguir aguentar aquilo.

            Vamos terminar logo com isso, não vamos?

            Finalmente, logo quando ela achava que estava à beira de um ataque de fúria, a porta do escritório se abriu e Jordan Collier entrou na sala. Ele caminhou em sua direção enquanto os guardas fechavam a porta. Uma tranca se fechou com um clique.

            April engoliu em seco.

            — Olá, Srta. Skouris. — Collier a cumprimentou. O discurso tornara sua voz ainda mais rouca do que de costume. Ele tomou um gole de água de uma garrafa plástica, cujo rótulo a identificava como procedente do delta do ex-poluído Rio Duwamish. Limpar aquelas águas tóxicas tinha sido um dos primeiros triunfos do Movimento, e uma demonstração de tudo o que Collier pretendia para a Terra Prometida. — Minhas desculpas por deixá-la esperando. Eu sei que você se esforçou para me encontrar… Ignorando meus avisos para não fazê-lo.

            Seu tom era inflexível e imperdoável. April sentiu-se como se tivesse sido chamada ao gabinete do diretor do colégio, uma experiência que lhe era mais do que familiar, dos tempos de escola. Ela instantaneamente soube o que ele tinha em mente para ela.

            — Suco de fax de Pé-Grande!

            Apavorada, ela tentou se atirar da cadeira, mas os guardas a seguraram pelos ombros e a colocaram sentada de volta. Outra onda nauseante de tonteira deixou sua cabeça girando. Ela gemeu e fechou os olhos até a sensação passar. Claramente ela não ia a lugar nenhum. Ela lamentou, frustrada:

            — Harém fetal…

            Collier deixou a garrafa em uma mesa próxima. Ele a encarou como um juiz a uma tribuna.

            — Dói saber que você resolveu desobedecer minha advertência, e não apenas porque eu sinceramente lamento ver desperdiçada qualquer habilidade proveniente da promicina. Eu tenho grande respeito por sua irmã e o parceiro dela.

            Você, Deus e todo o mundo, ela pensou, amargamente. Aparentemente, até o grande Jordan Collier não conseguia resistir a dizer a ela o quanto Diana era maravilhosa. Os olhos de April quase saltaram das órbitas. Ela socou os braços da cadeira, num desapontamento angustiado. Não é justo! Eu finalmente era alguém, também!

            — A verdade está de fato em algo de infinito valor – repreendeu Collier —, mas não quando pode ser explorado por aqueles que tentam impedir o destino de maneira a preservar um futuro desprovido de esperança ou justiça. Eu já vi o que este mundo virá a ser se nosso Movimento falhar. Oceanos de ossos sem vida. Fogueiras eternas brilhando no horizonte. O fedor de carne podre e doenças. Um céu escurecido por fumaça e chuva ácida. Os gritos intermináveis dos agonizantes e dos amaldiçoados.

            As linhas marcantes de sua face ficaram mais profundas. Seus olhos tornaram-se frios e sérios. Ele sacudiu a cabeça, lamentando. Adiantando-se, ele pousou suas palmas nas bochechas dela. Suas mãos frias eram surpreendentemente ásperas e calosas.

            — Eu não posso permitir que você interfira no que deve ser feito.

            Não! April pensou, freneticamente. Não faça isto! Ela contorceu-se impotente em sua cadeira, contida pelos enormes Oficiais da Paz. Eu mudei de ideia! Não vou te incomodar mais. Você não me verá nunca mais, eu prometo!

            — Teflon crocante e sublime!

            Mas era tarde demais para palavras, sem sentido ou não. A fronte de Collier se enrugava em concentração. Uma sensação vibrante, como eletricidade estática, desencadeou-se onde ele a tocava. O tremor se espalhou de suas bochechas para dentro da testa. Um zumbido, como um enxame de abelhas furiosas, preencheu o interior de seu crânio. As abelhas começaram a picar seu cérebro.

            Ela se debatia convulsivamente na cadeira. Os guardas esforçavam-se para contê-la, e tiveram que usar ambas as mãos para mantê-la parada. Suas mandíbulas batiam involuntariamente. Seus olhos se reviravam nas órbitas. Bolhas de espuma branca saíam pelo canto de sua boca. Seu coração batia uma milha por minuto. Veias pulsavam em suas têmporas. O zumbido feroz roncava como um furacão. Jordan segurou sua cabeça entre as mãos espalmadas dele. April sentiu como se sua própria alma fosse explodir em mil pedacinhos.

            Então, de uma vez só, terminou.

            Jordan soltou o rosto dela. A dor agonizante cessara. O zumbido sumira. Ele se afastou da cadeira, seu rosto cansado e aborrecido. Os braços lhe caíram para os lados. Ele acenou com a cabeça para o guarda da direita.

            — Está feito. Não há mais necessidade da afasia.

            — Entendido.

            O guarda soltou April, em mais de um sentido. Ela sentiu algo se mexendo na parte de trás de sua cabeça. Sua língua se desenrolara.

            — O que você fez comigo? — ela gemeu.

            Jordan respondeu sem coerção.

            — Livrei de um dom do qual você provou não ser merecedora – ele afastou-se dela e tomou outro gole de água. — Deixem-na ir. — Ordenou aos guardas, sem nem ao menos olhar para ela. Era como se ainda estivesse sob sua vista. — Ela não é mais ameaça para ninguém… A não ser, talvez, para si mesma.

            A verdade nunca fora tão dura de se ouvir. Ela entrou em desespero ao se dar conta de que sua nova boa vida como valioso trunfo do governo estava acabada. Collier estava certo; ela não era mais útil para ninguém, agora. Ralph e Eric teriam que achar outra pessoa para escoltar, mas aquilo era apenas o começo. Como ela iria encarar Diana depois disso?

            Eu estraguei tudo de novo. Que legal.

            — Seu bastardo presunçoso! — ela guinchou para Collier. – Você não tinha esse direito!

            Ele virou-se para ela uma vez mais.

            — Não é bem assim. Eu tenho todo o direito, e mais. Dei a promicina ao mundo. Portanto, é minha responsabilidade verificar se seu uso não está sendo abusivo por parte de pessoas ingratas e egocêntricas como você. — Com a garrafa de água na mão, ele dirigiu-se para a porta. — Agora, se você não se importa, esta foi uma longa noite. Boa sorte com o resto de sua vida, srta. Skouris. Espero que esta experiência tenha lhe ensinado uma valorosa lição.

            — Não vire as costas para mim! — April gritou, furiosa. — Onde está o corpo de Danny Farrell?

            Ele parou à porta. Um sorriso irônico insinuava alguma piada interna.

            — Como eu disse para sua estimada irmã: não faço a menor ideia.

            E ela não podia ter certeza sobre ele estar dizendo ou não a verdade.

 

*************

— Lar, doce lar — disse Cassie. — Finalmente.

            O novo apartamento de Kyle, no vigésimo terceiro andar do prédio da Fundação Collier, era definitivamente melhor do que o abrigo anti-bomba abandonado do qual haviam se apossado assim que o Movimento retornara para Seattle, pouco antes do Grande Passo Adiante. Um sofá de couro preto e um outro sofá menor combinando encontravam-se de frente para um centro de entretenimento de última geração, montado com peças avulsas por Dalton Gibbs, o mecânico mais brilhante da Terra Prometida. Um carpete branco felpudo forrava o chão. Um grande volume de capa de couro, contendo o original das profecias da “Luz Branca”, ocupava um lugar de honra na mesinha de centro. Uma foto de família, tirada durante tempos mais felizes, antes de seus pais se divorciarem, repousava em uma prateleira. Um retrato de Isabelle Tyler encontrava-se ao lado dela. Uma foto emoldurada do Monte Rainier, onde os 4400 retornaram para o presente, decorava uma das paredes. Um vaso com uma samambaia, escolhida por Cassie, adicionava um toque feminino.

            As acomodações elegantes, no entanto, não contribuíam muito para melhorar o clima, depois daquela cena feia na casa de seu pai. Após acender as luzes com um tapa no interruptor, ele atirou com raiva sua jaqueta sobre o sofá menor. Não conseguia esquecer o modo como seu pai e Shawn tinham tentado provocar um sentimento de culpa nele durante o jantar.

            — Droga, droga, droga — ele descarregou, em voz alta. — As coisas estavam indo tão bem entre nós antes. Por que eles tinham que estragar tudo daquele jeito?

            — Eu tentei te avisar — Cassie o lembrou. Tirando um xale de lã dos ombros, ela se jogou no sofá e chutou os sapatos para longe. Cruzou as pernas nuas na frente do corpo. — Não é uma boa ideia se juntar a estas pessoas, não enquanto elas não enxergarem a luz.

            — Sim, talvez – ele se juntou a ela no sofá. — Mas ele é meu pai, Cassie. E Shawn é mais do que um primo. Nós éramos melhores amigos.

            — Eu sei — seu tom se suavizou enquanto se aconchegava perto dele. Ela repousou a cabeça dele em seu ombro. — O futuro tem exigido muito de você.

            Nem me fale, ele pensou. Embora ele estivesse destinado a ser um dos 4400 originais, uma tentativa frustrada de abduzi-lo o deixara em coma por três anos. Então, depois que Shawn finalmente o reavivou, uma das pessoas do futuro possuiu seu corpo e o forçou a atirar em Jordan Collier. Ele passara quase um ano na Penitenciária Estadual de Evergreen até que Jordan finalmente conseguiu libertá-lo da custódia. Some-se a isto uma quarentena imediatamente após ele ter sido possuído e quase cinco anos de sua vida foram embora pelo ralo, enquanto facções rivais do futuro tratavam-no como um peão em um tipo de jogo de xadrez através do tempo. Só depois de tomar a injeção é que começou a finalmente se sentir no controle de seu próprio destino.

            Talvez.

            — É uma coisa depois da outra — queixou-se. — Eu não sei se posso aguentar muito mais.

            — No final, vai ter valido a pena — prometeu Cassie. Seus dedos macios se enroscaram nos cabelos dele. — Tudo por que você passou, todos os seus testes e sacrifícios, foi tudo para servir a um propósito maior. Trazer o Paraíso para a Terra e acabar com o sofrimento da humanidade para sempre.

            Kyle queria acreditar naquilo. Ele tinha que acreditar naquilo.

            — Você acha mesmo?

            — Confie em mim — um sorriso enigmático surgiu em seus lábios. — Alguma vez eu te induzi ao erro?

            Acho que não, ele pensou. Levantando sua cabeça do ombro dela, ele contemplou a enigmática mulher ao seu lado. Não era a primeira vez que Kyle se perguntava de onde seu inconsciente a havia evocado. Por que “Cassie Dunleavy”? De onde viera aquele nome? Alguma memória de infância que tinha se alojado no fundo de sua mente até que a promicina a ressuscitou? Talvez um personagem de algum livro de estórias ou uma garota que ele conhecera no jardim de infância? De acordo com a psicologia Jungiana, que ele estudara brevemente na universidade, antes de deixá-la para seguir o Movimento, todos têm um lado feminino chamado anima. Seria Cassie uma manifestação psíquica de seu anima, ou alguma coisa do tipo?

            Olhe para mim, ele pensou. Eu nem sei como minha habilidade funciona. Como isto é patético!

            — Eu não sei — ele olhava irritado para o chão. — Talvez meu pai e Shawn tenham razão. Quem quer outro cinquenta/cinquenta? — confuso, ele passou os dedos por entre os cabelos. Sentia-se como se estivesse no fim da linha. — Eu me sinto tão confuso, às vezes.

            — Coitadinho — Cassie graciosamente levantou-se do sofá. Ela esticou o braço e levantou o queixo dele. Olhos verdes extraordinários o fitaram com ternura. — Você tem passado uns maus bocados, não é? Mas eu sei exatamente do que você precisa — ela abriu o fecho das costas de seu vestido e a túnica violeta, da última moda, escorregou para o chão. Para surpresa dele, não havia nada por baixo. O pingente de turquesa brilhava intensamente sobre sua pele macia e rosada. — Foi um longo dia. Vamos para a cama.

            Seus olhos devoraram as formas desnudas dela, e ele sentiu seu corpo respondendo, exatamente como sempre o fizera. Parte dele sentia que havia algo errado, talvez até insalubre, neste novo aspecto do relacionamento deles, mas ele não conseguia resistir. Ele havia se sentido muito só depois que Isabelle morreu, e Cassie estava lá para confortá-lo, noite após noite.

            Ela não é real, ele lembrava a si mesmo. Ela é o meu lado feminino.

            Mas ele podia vê-la, sentir seu cheiro e tocá-la, mesmo que ninguém mais pudesse.

            — Venha para mim, amor — ela sussurrou, com voz rouca. — Deixe que Cassie faça tudo melhorar.

            — Eu já perdi tanto — ele se lamentou.

            — Mas você ainda tem a mim, Kyle. Para sempre.

            Pegando a mão dela, ele a deixou guiá-lo para o quarto.

 

***********************

            — Você está tornando tudo mais complicado para si próprio — disse Dennis Ryland.

            Richard era prisioneiro mais uma vez, mas sua nova moradia fazia a antiga cela na Virgina parecer uma suíte presidencial de um hotel de luxo. Uma pálida pintura verde havia falhado em isolar as frias paredes de pedra. Ao invés de um beliche, havia apenas um banco duro de concreto, sem travesseiros ou lençóis. Tinha de se estar totalmente exausto para se conseguir dormir naquilo. Não que Ryland e seus cúmplices tenham dado algum momento de paz a Richard desde que ele acordara ali, fosse lá onde fosse aquilo. Acorrentado a uma cadeira no meio da cela, seus pulsos algemados para trás, Richard não fazia ideia de onde estava preso. Um macacão laranja havia substituído seu uniforme militar. Seus pés descalços repousavam sobre o cimento frio. A umidade o gelava até os ossos. Ele se perguntava se algum dia iria se sentir aquecido novamente.

            — Eu não vou te contar nada — ele disse, já cansado. Ryland o vinha interrogando por horas a fio, sem interrupção. Ele estava faminto, sedento e exausto. Sua roupa de prisioneiro estava ensopada de suor. Seu estômago roncava. Sua boca parecia seca como areia. Seu braço enfaixado doía onde o cachorro o havia mordido; ele havia tomado antibióticos e uma antitetânica, mas nenhum analgésico. Ele poderia matar alguém para conseguir um gole de água.

            — Que lástima — disse Ryland. Seu traje elegante fazia-o parecer um executivo, não um torturador. Ele tomou um gole comprido de uma garrafa de água mineral importada. – Sua filha cooperava mais, pelo menos por um tempo — Ryland conseguiu por algum tempo fazer Isabelle conspirar contra os 4400, alguns anos antes. — Nós tivemos uma boa relação de trabalho, antes de ela se rebelar.

            Richard olhou para ele, furioso. Como aquele bastardo caçador de bruxas se atrevia a difamar sua filha?

            — Vá pro inferno. — Se sua telecinese ainda funcionasse, ele teria arrancado a garrafa de água das unhas feitas de Ryland. Mas ele estava sob o efeito do inibidor novamente. — Por que eu deveria falar logo com você?

            Ele havia conhecido Ryland alguns anos antes, quando colocou todos os 4400 em quarentena. Na época, ele parecia apenas mais um burocrata paranóico do governo. Então Ryland tentou envenenar todos os 4400 com uma versão anterior do inibidor, planejou e montou um ataque a um esconderijo de 4400 que estava sob a responsabilidade de Richard. E corrompeu Isabelle. Dizer que havia uma animosidade entre eles era pouco.

            — Para impedir Jordan Collier de matar milhões de pessoas — a voz de Ryland era enganadoramente calma e razoável. — Tudo o que queremos é que você confesse que Collier está desenvolvendo uma versão aérea de promicina.

            Richard suspirou.

            — Eu não sei nada sobre isso — ele disse, pelo que parecia ser a centésima vez. — Eu nem sei se isso é verdade.

            — Que diferença isso faz? – Ryland perguntou, cínico. — Nós só precisamos que você confirme para a câmera. — Câmeras de segurança, montadas para gravar o interrogatório, estavam atualmente desligadas.  — É a justificativa de que precisamos para lançar um ataque preventivo à Terra Prometida.

            — Esquece — Richard encarava desafiadoramente o outro homem. — Eu não vou lhes dar falsas desculpas para uma invasão.

            — Quem disse que são falsas? Collier? — Ryland sacudiu sua cabeça diante da ingenuidade de Richard. — Você ainda não aprendeu que não deve acreditar em uma só palavra do que aquele homem diz? — ele ajoelhou-se diante do prisioneiro sentado, para que ficassem cara a cara. — Lembra-se daquela surra na Virginia, aqueles guardas que iam arrancar a sua cabeça?

            Richard dificilmente se esqueceria daquilo, mas não disse nada.

            — Collier armou aquilo — declarou Ryland. — Era tudo um truque para assegurar sua lealdade, através de um plano para salvar sua vida.

            A acusação pegou Richard de surpresa.

            — Você está mentindo — ele disse, incerto. A dúvida havia drenado a convicção de suas palavras. — Não é verdade.

            — Foi muito conveniente o modo como o esquadrão de aberrações de Collier apareceu bem na hora de tirar você do fogo, não acha? — Ryland riu da coincidência. – Você nunca pensou sobre isso?

            — Maia Skouris — insistiu Richard. — Ela avisou Collier sobre o que iria acontecer…

            — Foi o que ele te disse? — Ryland deu de ombros. — Talvez tenha sido. Ou talvez aquela pirralha repugnante não tenha visto a estória toda — ele se levantou e olhou tristemente para baixo. Seu rosto astuto projetava uma evidentemente falsa máscara de simpatia. — Você não deve nada a Collier, Richard. Por que aguentar esse sofrimento para protegê-lo?

            Richard se recusava a ser manipulado.

            — Isto não é por Collier. É para não te dar um pretexto para declarar guerra contra uma cidade americana — ele olhou por detrás de Ryland e seus lacaios para o sólido portão de aço que bloqueava sua visão do resto da prisão. Não havia nem barras para se olhar através. — Onde estão as pessoas que foram apanhadas comigo? O que vocês fizeram com eles?

            Ele não havia visto Evee ou Yul desde que acordara no cativeiro.

            — Eles estão desfrutando de recepções semelhantes, nas mãos de meus subordinados — Ryland deu um sorriso forçado para Richard. — Você deveria se sentir privilegiado por ter minha atenção pessoal.

            Richard duvidava de que algum dos seus comparsas fosse ceder. Se duvidasse, ambos eram mais devotados a Collier e sua causa do que ele próprio era. Eles eram seguidores fiéis. — O que me faz tão especial?

            — Não se subestime — respondeu Ryland. — Você é muito mais importante do que seus cúmplices. Um veterano condecorado, ex-vice-diretor do Centro 4400, e pai da infame Isabelle Tyler… Seu testemunho tem grande peso. Posso praticamente ver as manchetes agora.

            Richard também podia. Ele cuspiria em Ryland, se sua boca não estivesse tão seca. — Que pena que não haverá confissão.

            — Eu não estaria tão certo disso — Ryland virou-se para um de seus aliados, uma adolescente anoréxica de cabelos brancos espetados, pele pálida, e uma expressão suave e neutra. Olhos azuis gélidos observavam Richard com frieza clínica. Uma pesada jaqueta parecia desconfortavelmente quente, mesmo para a cela úmida. Luvas volumosas escondiam suas mãos. Sua respiração se condensava no ar. Ryland se afastou para deixar a garota passar. — Astrid, eu acho que você precisa aplicar um pouco mais de persuasão.

            O medo contorceu o rosto de Richard. Ele já havia estado várias vezes, anteriormente, sob os poderes da menina. Ryland escarnecia em antecipação. Apesar de sua profunda antipatia pelos 4400, o ex-figurão da NTAC não descartava o uso de técnicas aprimoradas para levar adiante sua cruzada. Richard forçou inutilmente seus grilhões.

            — Não, de novo não…

            Astrid parecia surda aos apelos dele. Ela se inclinou para encarar Richard de perto. Respirou fundo, enchendo seus pulmões com o ar abafado da cela. Richard se preparou para um martírio bastante familiar, que sobreveio a ele com velocidade impiedosa.

            Ela soprou no rosto de Richard, seu hálito como um vento ártico. A friagem correu por todo o corpo de Richard, revestindo suas roupas e sua pele com uma fina e gélida camada branca. Ele tremia descontroladamente, na iminência de uma hipotermia. Seus dentes batiam como castanholas, não importando o quanto ele se esforçasse para travar suas mandíbulas. Seus lábios se tornaram azuis. Seu hálito se condensava no ar. Uma queimadura de gelo ameaçava a ponta de seu nariz.

            Ele não havia sentido tanto frio desde a última vez em que ela o torturara.

            Ryland levantou a mão.

            — Já chega.

            Astrid sugou a amarga tormenta para dentro de seus pulmões. Ela se afastou da cadeira em silêncio. O gelo se retraiu instantaneamente, evaporando pelo ar. Em segundos, Richard não estava mais congelando, mas continuava tremendo. Arrepios cobriam sua pele. Cada sessão com Astrid o deixava mais gelado do que a anterior. Era impossível se aquecer de novo.

            Ryland não lhe deu tempo para se recuperar.

            — Agora, então — ele disse rispidamente, abandonando qualquer fingimento de simpatia. — Me conte como Jordan Collier pretende transformar a promicina em arma.

 

*********************

            Maia acordou tremendo. Aconchegando-se entre os lençóis, ela se abraçou para se aquecer. O sonho horroroso colara-se a ela como uma fina camada de gelo.

            Ela pegou seu celular.

            Jordan precisava saber disso, sem demora!

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comentários
  1. Guilherme disse:

    Muito bom!

    resolveu as histórias pendentes!

    adorei! April, Kyle, Richard e no finalzinho ainda Maia!

    adorei várias histórias em um capitulo só!

  2. Jonas disse:

    Ótimo!

    Pena que a April perdeu seus poderes… Ela é minha personagem favorita
    Demorou um pouco pra mim ler mas to lendo agora o capítulo desta semana.

    CONTINUEM COM O BELO TRABALHO!

  3. Arielton disse:

    Aah!! Sensacional, estou louco para o próximo capitulo quero saber o que a Maia viu \o/

    E como sempre o Richard, sempre levando a pior –‘

  4. Fels disse:

    WOW…. tá cada vez mais cabulosa a história… só acho q o autor poderia abusar dos efeitos especiais no livro, já que não há custo para a imaginação hehe…NÃO PARE A TRADUÇÂO!!!!!!!!!!!

  5. giulia disse:

    Muito bom adoro o Kyle mas essa cassie!

    o capitulo foi perfeito continue a tradução to muiot empolgada!

  6. Vania disse:

    Legal gostei da continução dos capitulos anteriores….

    Mas ainda aco que tem algo de errado com essa Cassie…

    Estou com Saudade de Shaw

  7. Guilherme disse:

    Dpois q Isabelle morreu parei de confiar na Cassie!

    qro os personagens reunidos!

  8. giulia disse:

    Qro mto mais!

    to loka pelo fim!

    dve ser surpreendente!

    Traduza o segundo livro tbem por favor!

  9. Guilherme disse:

    Amanhã tem capítulo inédito?

    a história ta muito boa!

  10. Jonas (To com outra net) disse:

    *Esperando capítulo hoje*
    Estamos ansiosos Breno pelo novo capítulo!
    Vê se não demora (brincadera)

  11. Jun disse:

    Nooo, a April perdeu a habilidade! =O E agora, o que será dela?

    Hahahaha, imagina alguém entrando no quarto do apto do Kyle e ver ele fazendo com o ar! Coitado, cúmulo da solidão!

    E o Richard.. Inquebrável! Não vai adiantar torturar ele não! Hehe

    Maia tá de segredinho… =D

    Obrigado pela tradução!!

  12. Edyr Oliveira disse:

    Acho que essa é centésima vez que digo: Não gosto dessa Cassie! A April não pode tomar promicine de novo? Esse Ryland quer acabar com os The 4400, mas sabe muito bem usar dos poderes dos positivos… Queria que a Isabelle voltasse 😛 Espero, com toda a força, que alguém dê um bom jeito nesse safado do Jordan! ^^

  13. Vinicius Guardia disse:

    Belo trabalho!

  14. Drika disse:

    Deveria ter um jeito de Maia ter visões mais completas….Adorando o livro!

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