The 4400 – Promises Broken (Capítulo 30 traduzido)

Publicado: 13 de março de 2011 em The 4400

Capítulo 30 de Promises Broken, traduzido por Helena Padim

TRINTA

 

 

11:55 A.M.

 

O ar do lado de fora do Centro 4400 fedia a suor, fumaça e sangue, e era preenchido por gritos de dor.

Shawn Farrell estava mais do que cansado, mas os feridos continuavam a aparecer em levas. Vinham de todas as partes da cidade: dos pontos onde soldados haviam relaxado suas defesas, do que restava do desmoronamento do Edifício Collier em Beltown, das tumultuadas ruas de Beacon Hill.

— Por favor, ajude-nos — diziam. Alguns pediam abrigo, a maioria implorava seu toque de cura, e uns poucos ofereciam dinheiro.

Heather Tobey, abençoada seja, havia imposto algum senso de ordem ao povo amontoado. Mesmo quando Shawn titubeara perante a assustadora demanda por sua ajuda, ela havia colocado a equipe do Centro para trabalhar na triagem dos feridos. Aqueles com as feridas mais graves foram trazidos primeiro para Shawn. Os outros foram organizados de acordo com suas necessidades.

Os rostos sangrentos e cobertos de fuligem se sucediam. As mãos de Shawn estavam pegajosas com o sangue marrom-avermelhado e quase seco dos outros. Cada um que ele recuperava exigia demais de si próprio, mas não conseguia virar as costas para ninguém. Então continuou adiante.

Lágrimas escorriam de seus olhos, à medida que ele se desesperava com todas a maneiras que as pessoas haviam encontrado para ferir umas às outras. Ele lamentou a mulher que fora esfaqueada por um estranho, o jovem surrado por uma gangue de adolescentes p-negativos simplesmente por ter o poder de transformar areia em esculturas com sua habilidade proveniente da promicina, o homem atingido por uma bala de atirador de elite na frente de seu filho de apenas quatro anos de idade.

Um horror após o outro chegava às suas mãos.

Suas forças se esvaíam, mas ele não podia parar.

Uma família de quatro pessoas, seus corpos e rostos vermelhos e pretos de queimaduras, porque um renegado do cinquenta/cinquenta havia ateado fogo à sua casa em um descontrolado ato de vingança, uniu as mãos enquanto Shawn pousava as suas nas testas das crianças. Ele sentiu as chamas que haviam tentado devorá-los, a agonia dos pais, tropeçando através de uma barreira de fogo, enquanto tentavam proteger os filhos debaixo de seus roupões de banho, o medo e o sofrimento das crianças.

Shawn cambaleou para trás, e a família o encarou, seus rostos curados e seus corpos inteiros, os trajes enegrecidos como única evidência de seu encontro com a tragédia. Eles derramaram lágrimas de agradecimento e estenderam os braços para abraçá-lo, mas ele já estava sendo arrastado em direção à outra vítima necessitada de socorro.

Consertou ossos quebrados, regenerou olhos arruinados, recolocou dedos decepados, reparou rupturas orgânicas e apagou cicatrizes de fogo.

Quando parou para respirar, deu uma olhada na multidão e viu que o número de necessitados havia simplesmente se multiplicado. Não havia descanso em vista, nenhum sinal de pausa em seus trabalhos. Tudo o que ele queria fazer era se render à fadiga e dormir por um dia inteiro, uma semana, um ano. A pressão pulsava em suas têmporas e atrás de seus olhos. Doía tanto que ele sentiu o estômago revirado, teve tonteiras e ficou muito quente, como se estivesse com febre.

Continuar era exigir demais. Sentia-se esgotado, debilitado, absolutamente exausto na definição mais literal da palavra.

Ele agachou-se, as mãos apoiadas nos joelhos, e obrigou-se a respirar devagar, num esforço para clarear a mente.

Em questão de momentos Heather estava a seu lado, um braço repousando gentilmente sobre seus ombros, o outro apoiando seu peito.

— Você tem que parar um pouco — disse ela com voz suave, mas carregada de preocupação. — Isto está exigindo demais de você.

— Estou bem — mentiu Shawn. — Só preciso de um instante, só isso.

Aparentemente duvidando de sua atuação, Heather franziu a testa para ele, e então acenou para um dos funcionários do Centro que estava por perto.

— Traga-me água, algumas bebidas energéticas e uma barra de cereais — disse ela ao homem. Então acrescentou, com urgência: — Rápido!

Enquanto o jovem disparava para dentro do Centro, para buscar bebidas e alimentos, Heather permaneceu ao lado de Shawn e o manteve de pé, mesmo quando tudo o que ele queria era deitar-se e apagar.

Ele imaginava se alguém notaria o jeito como ela o mimava e deduziria que eles fossem, de fato, amantes.

Equilibrando o peso, ele deixou sua cabeça pender para trás até que pudesse ver o céu azul. O sol estava quase a pino, e o atingia com um calor real. Ele tomou consciência do suor que cobria sua testa e ensopava sua camiseta branca manchada de sangue e sujeira.

Respirar bem profundamente não revigorou nem aliviou Shawn, mas causou-lhe uma dor aguda e profunda entre as costelas superiores do lado esquerdo. Ele recuou e se encolheu.

Heather surpreendeu-se e gritou.

— Shawn!

Ele engoliu a dor e a forçou a retroceder.

— Estou bem — respondeu a ela. — Isto pode parecer estranho, mas acho que não era minha a dor que estava sentindo.

O rosto dela contorceu-se em confusão.

— Você sentiu a dor de alguém? Tem certeza?

— Sim — confirmou Shawn, abanando a cabeça. — Foi como quando eu imponho as mãos — Ele se virou lentamente, procurando dentre os rostos na multidão. — Alguém perto de mim está com dores no peito, dores muito fortes.

Sentado no chão, ao lado do caminho que levava ao Centro, estava um homem de meia-idade, semiconsciente, apertando o peito; ele era calvo e atarracado, e ao seu lado havia uma mulher mais ou menos da mesma idade e bastante assustada, que Shawn supôs ser a esposa dele. Os olhos do homem tinham o ar distante e opaco, característico daqueles cuja vida está esvaindo-se. Por trás do olhar vidrado havia um silencioso apelo por socorro.

Shawn fixou o olhar nos olhos do homem e o manteve assim.

Abrindo seus sentidos e sua mente, Shawn sentiu as dores entorpecentes e as batidas irregulares do coração fraco do homem. Ele levantou uma mão coberta de sangue seco na direção do homem e fechou os olhos. Em sua imaginação, viu o músculo cardíaco danificado, artérias endurecidas e obstruídas, e coágulos potencialmente fatais, prontos para se espalhar na corrente sanguínea do moribundo.

Uma a uma, Shawn dissipou cada dor. A cada esforço, a dor em seu próprio peito ficava mais profunda, até parecer que um torno tivesse atravessado suas costelas, espremendo-as até sufocar.

Então tudo se acabou, e ele arfou, repentinamente livre da dor. Caiu de costas nos braços de Heather. O funcionário que ela mandara para dentro do prédio havia retornado, e estendia para ela uma garrafa aberta de Gatorade sabor laranja, com um canudo dentro. Ela a segurou diante da boca de Shawn.

— Beba — insistiu.

Ele sugou o canudo, a princípio lentamente. Cada gole da bebida doce e levemente salgada renovava uma pequena fração de sua força esgotada. Antes de se dar conta, havia esvaziado a garrafa. Ele piscou, recuperando o ânimo, e disse para o funcionário:

— Eu quero aquela barra de cereais agora.

Shawn levou menos de trinta segundos para devorar a barrinha de granola coberta de chocolate. Quando estava engolindo a água da garrafa que o rapaz havia trazido, reparou, através da mata ao seu redor, que mais pessoas estavam vindo pelo caminho sinuoso e ladeado de árvores do Centro 4400.

Quantos serão desta vez?, ele pensou. Vinte e cinco? Cinquenta? Mais cem almas necessitadas de um curandeiro?

A multidão que se aproximava crescia em número, e Shawn reparou que a maior parte deles não tinha qualquer sinal de ferimentos sérios. Quando eles faziam a última curva do caminho, a pessoa à frente da procissão tornou-se visível.

Era Jordan Collier.

Shawn largou sua garrafa vazia e caminhou para frente, longe dos doentes e feridos, para encontrar o pessoal de Jordan. Heather e vários funcionários do Centro saíram da multidão para se posicionar bem atrás de Shawn.

Mais ou menos quatro anos antes, Jordan havia convertido o Centro, até então usado como museu de arte, em um refúgio seguro para os 4400. Ali havia sido seu primeiro quartel-general como o líder de fato do Movimento dos Promicina-Positivos, seu santuário particular. Também era onde Jordan fora aparentemente assassinado por um atirador de elite, um evento que havia posto a responsabilidade de dirigir o Centro sobre os ombros jovens e, na época, completamente despreparados de Shawn.

Os meses que se seguiram haviam trazido muitas experiências amargas para Shawn, mas o teste mais cruel veio após o quase milagroso retorno de Jordan do túmulo. Shawn se opôs ao plano de Jordan de distribuir promicina publicamente porque, enquanto este aceitava que metade das pessoas que tomassem a droga morressem agonizando, aquele não concordava com isto. Os dois se separaram sob um clima que ultrapassava um pouco a hostilidade mútua.

Apesar do fato de que Shawn havia ajudado Jordan a se livrar da possessão de um dos Marcados e intermediado as negociações entre ele e os agentes da NTAC, os dois homens permaneceram separados pelo tipo de amargura que só pode existir entre aqueles que um dia foram amigos.

Jordan parou em frente a Shawn, e a multidão que o seguia parou gradativamente, criando um efeito em ondas que se espalhou pela massa sinuosa de corpos. Jordan e sua trupe de centenas – a qual Shawn observou que incluía Gary Navarro, Maia Skouris e seu próprio primo, Kyle – estavam cobertos de poeira cinza escura.

— Olá, Shawn — cumprimentou Jordan.

Tomando o cuidado de manter sua mente consciente vazia, para o caso de Gary estar espreitando telepaticamente, Shawn comprimiu o queixo e respondeu com velada desconfiança:

— Jordan.

— Vejo que você está ocupado — observou Jordan, indicando com a cabeça a massa de suplicantes em frente à entrada do Centro. — E nós mesmos estamos ligeiramente pressionados pelo tempo, então eu irei direto ao ponto: estamos aqui para pedir abrigo.

— Abrigo? — Shawn espremeu os olhos. — Você está brincando?

— Não, Shawn, não estou — gesticulando em direção às pessoas atrás dele, continuou. — Eu sei que nem todos do meu povo são 4400. Alguns tomaram promicina por opção; outros foram expostos durante a epidemia. Mas os soldados que estão chegando para nos matar não querem saber como cada um de nós teve contato com a promicina. Para eles, somos apenas alvos.

Jordan lançou um olhar nostálgico à fachada branca e curvilínea do Centro.

— Quando eu inaugurei este lugar, era para os retornados originais, porque foi a quem eu pensei que iria servir — ele fez uma pausa, e então olhou nos olhos de Shawn. — Quando nós nos separamos, eu achava que o meu propósito era disseminar a promicina. Eu acreditava que convencer todos a tomá-la iria resolver os problemas do mundo, e que o ônus, mesmo trágico, compensaria os ganhos.

Seu rosto se entristeceu de remorso.

— Mas eu estava errado. E você estava certo, Shawn. Não se pode salvar a humanidade condenando metade dela à morte. Não é um futuro pelo qual valha a pena lutar.

Todos ao redor deles estavam quietos, em um silêncio de tensa expectativa. A história da animosidade entre Shawn e Jordan era bastante conhecida, e parecia que todos sentiam que o futuro do Movimento, e da Terra Prometida, dependia da resposta de Shawn.

Ele estendeu sua mão para Jordan, que a aceitou.

Enquanto eles apertavam as mãos, Shawn declarou, para todos ouvirem:

— Vamos colocar todo mundo para dentro.

 

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comentários
  1. Beatriz Machado disse:

    Fazia tempo q o Shawn não aparecia, adoro ele, tem um dom belíssimo e um carater mais lindo ainda!

  2. Marcelo inacio disse:

    Soh passando pra dar incetivo, ainda to no capitulo 16! XD

  3. Alexandre disse:

    legal… Jordan e Shawn juntos.

    fica mais interessante… agora espero por Tom e Diana

  4. Aline disse:

    tava dando falta do shawn.
    collier só agora viu que tava errado ou só tava fazendo cena pra conseguir ajuda?

    enfim, aguardemos.

    até a próxima.

  5. Roger disse:

    espero sinceramente q o Collier esteja fazendo cena, pq retroceder diante do primeiro ataque em uma guerra eh pifio

  6. Muca velasco disse:

    N acredito q Jordan esteja sendo sincero.

  7. Kelly disse:

    Finalmentee o Shawn reapareceu!!

  8. Lipe disse:

    Curando a distância….pooooo

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