Conto – Cegueira

Publicado: 14 de setembro de 2012 em Contos

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Galera, esse é mais um conto que escrevi. Espero que gostem. Lembre-se de comentar e deixar suas opiniões depois de lerem.

Cegueira

 

I

 

Seus belos cabelos negros caíam-lhe pelos ombros. Combinavam com seus olhos, que eram da mesma cor e deixavam qualquer rapaz que os olhasse diretamente desconcertado, tamanha era sua beleza. Sempre que saía para passear pela vila ou para ir à feira (nunca desacompanhada de seu guarda-costas, mandado pelo pai) atraía olhares de mulheres e de homens, olhares invejosos e cobiçosos.

Mariana vivia numa grande casa com seu pai, um rico empresário e proprietário de mais da metade dos estabelecimentos da vila. Sua mãe morrera fazia menos dez anos e desde então a garota se tornara, apesar de ser bela e simpática, solitária, tendo apenas seu guarda-costas e os empregados da casa como companhia. E não gostava muito disso. Seu pai nunca fora muito atencioso, sempre se importara mais com os negócios do que com a família, mesmo quando a mãe de Mariana ainda estava viva. E, com a morte dela, seu grau de atenção diminuíra praticamente para o zero.

Mas, em um único aspecto, o senhor Jorge era muito atencioso com relação à sua filha: casamento. A moça já passava de seus dezessete anos (completaria dezoito em poucos meses) e procurava por um marido. Embora não faltassem candidatos e ela recebesse diversos cartões com poesias apaixonadas acompanhados de buquês de flores, ela nunca se interessara por nenhum dos rapazes da vila e começava a pensar que ficaria solteira para o resto da vida.

— O rapaz certo há de aparecer — dizia o senhor Jorge. Ele desaprovava todos os pretendentes da moça, alegando que só a deixaria se casar com um rapaz rico e de boa família, que pudesse continuar com seus negócios depois que partisse dessa vida.

Certo dia, o pai de Mariana entrou no quarto da moça, que lia um exemplar de Romeu e Julieta, de Shakespeare, e sentou-se ao pé da cama. Mariana pousou o livro na mesa-de-cabeceira e olhou inexpressiva para o senhor Jorge, esperando.

— Vista a sua melhor roupa — disse-lha ele. — Um grande, e rico, amigo meu está a caminho com seus dois filhos. Quero que os conheça. Um deles pode ser o seu marido, e quem continuará meu legado.

Mariana apenas concordou com a cabeça e o pai saiu do quarto, deixando-a sozinha.

II

Mariana adentrou a sala, usando um belo vestido branco que impressionou a todos os presentes no recinto. Em pé, ao lado de seu pai e segurando cada um uma taça com vinho, estavam três homens. Um deles já era ancião e os outros dois tinham aproximadamente a idade dela.

— Rapazes, esta é minha filha Mariana — anunciou o senhor Jorge, sorridente.

A moça deu sorriso cortês e um pouco tímido enquanto dobrava os joelhos, segurando os lados do vestido com as mãos, num gesto de cumprimento.

O pai dela convidou a todos para jantar e, enquanto comiam, o assunto principal foi sobre os negócios de senhor Jorge. Mariana terminou a refeição e levantou-se, pedindo licença ao sair. Dirigiu-se para o jardim e não viu quando os dois anciãos mandaram que os irmãos seguissem a moça para tentar conquistar o coração dela.

Mariana estava sentada num banco, segurando uma rosa na mão, quando sentiu alguém sentar-se ao seu lado. Era um dos irmãos, o que ela achara mais charmoso, com seus cabelos negros e um rosto gentil. Ele também trazia uma rosa na mão.

— Daria uma flor a ti — disse-lha. — Mas vejo que já tem uma.

A moça sorriu e disse:

— É sempre bom ganhar mais uma — e estendeu a mão, onde o rapaz depositou a flor.

— Bom, nesse caso, faço questão de dar-te uma rosa também — disse uma terceira voz, a do outro rapaz, que entrava no jardim nesse momento. Ele sentou-se do outro lado de Mariana e também lha entregou uma rosa, que aceitou sorrindo agradecida. — Já conhecestes meu irmão, Alberto, creio eu. Sou Joaquim.

Mariana continuou conversando com os dois rapazes sobre assuntos que não precisam ser expressos aqui, mas vale ressaltar que ela adorou os dois. Achou-os elegantes e muito educados. Os dois, quando ouviram falar da moça, não haviam se interessado muito, mas após conhecê-la e conversarem com ela, amaram-na pela sua beleza estonteante e por sua alma, tão bela quanto seu corpo físico.

III

Os irmãos Alberto e Joaquim passaram a ser visitantes frequentes na casa do senhor Jorge. A cada dia que passava, Mariana gostava mais dos irmãos e isso a deixava inquieta. Sabia que os dois seriam ótimos maridos, mas ela teria que escolher apenas um e esse era o problema. Ela amava os dois igualmente.

Se esse amor a estava deixando indecisa, parecia estar causando outro sentimento entre os dois irmãos. Alberto e Joaquim faziam de tudo para impressionar a moça e essa competição passara do nível saudável para um nível um pouco alarmante.

Uma noite, enquanto se preparava para dormir, Mariana ouviu alguém a chamando baixinho do lado de fora se seu quarto. Esgueirou-se até a janela e afastou as cortinas para encontrar Alberto lá embaixo, na calçada, com as mãos em concha ao lado da boca.

— O que fazes aqui à uma hora dessas, Alberto? — indagou a moça, suprindo um sorriso.

— Psiu! Fale mais baixo — disse ele. — Vim buscar-te, minha amada.

— Como é? — Mariana não conseguia esconder a empolgação em sua voz.

— Vamos fugir. Juntos. Só nós dois. Iremos para qualquer lugar que quiseres.

— Mas não podemos fazer isso — disse a moça, pensando em seu pai e em todo o resto. — Não posso deixar meu pai. E ele precisa de alguém para cuidar de seus negócios no futuro.

— Mas eu amo-te e tu me amas — replicou Alberto. — Nada pode ser mais importante que o amor. E eu tenho dinheiro que posso levar conosco, assim nunca passaremos necessidades.

Mariana ficou olhando para o rapaz, sem dizer nada por algum tempo. A expressão no rosto dele passou de empolgação para receio.

— Ou tu não me amas? — perguntou.

— Claro que amo — disse a moça. — Mas do mesmo modo que amo a ti, amo a teu irmão. Amo os dois igualmente.

— Mas é a mim com quem deves ficar! — exclamou Alberto. — Não ele!

— Alberto, entenda. Eu preciso de um tempo para pensar e me decidir com quem quero realmente me casar. Prometo que logo saberei.

O rapaz olhou para os próprios pés por alguns instantes, como que tentando se acalmar. Apertou os punhos, respirou fundo e olhou novamente para cima. A expressão que exibia agora era mais calma, ou pelo menos parecia ser.

— Podes descer aqui um instante? — pediu ele. — Tenho algo para te dar.

Mariana sorriu, feliz com a compreensão do rapaz. Saiu de seu quarto e passou pelo seu guarda-costas na sala, dizendo que só ia falar com Alberto, que a esperava do lado de fora. O homenzarrão não fez objeção, pois já conhecia o jovem rapaz, apenas disse-lha que voltasse logo. A moça assentiu e saiu para a calçada embaixo da janela de seu quarto.

— Aqui estou — disse, olhando Alberto.

— Sinto muito por isso — disse ele, e um brilho de adrenalina trespassou seus olhos escuros. — Mas é assim que deve ser.

Ele a segurou pelo punho e a puxou para perto de si, começando a andar e fazendo-a seguir-lhe. A moça tentou resistir, mas ele a puxou com mais força.

— Alberto, o que estás fazendo?

— Por favor, não grite.

Ela não o fez. Deixou que o rapaz a levasse por mais alguns passos. Ele não era um rapaz de má índole, então não faria alguma maldade com ela. Era apenas um homem apaixonado.

— Estamos indo para sua casa? — perguntou ela, reconhecendo o caminho que faziam. Nunca estivera na casa dele, mas soube pela descrição que o pai lha fizera.

Alberto não respondeu. Logo, adentraram o casarão onde viviam os dois irmãos e seu velho pai.

IV

Joaquim acordou no meio da noite, sentindo-se sedento. Levantou-se e foi até a cozinha para tomar um copo de água. Enquanto bebia o líquido, vislumbrou um envelope sobre a mesa, com apenas duas palavras escritas:

 

Para Joaquim.

Reconheceu a caligrafia de Alberto e abriu o envelope, desdobrando o papel em seu interior e lendo a carta do irmão:

Meu irmão,

            Estou certo de que meu amor por Mariana é maior que o teu. Logo encontrarás alguém que seja a pessoa certa para ti. Mariana é minha. Estou indo embora com ela essa noite. Cuide bem de nosso pai e diga-lhe que sinto muito, mas o amo. Assim como amo a ti.

 

                                               Alberto.

 

Mal terminou de ler, sentindo-se traído, quando ouviu a porta de entrada abrir e fechar. Vozes vieram da sala, seguida de passos que tentavam ser sorrateiros. Reconheceu a voz do irmão e da bela Mariana. Alberto não tinha o direito de trair-lhe e ficar com a moça que amava. Ouviu que os passos se dirigiam para o escritório de Alberto, mas antes de segui-los teve uma ideia.

V

            — Alberto, por favor… — implorava Mariana. — Não sabes o que estás fazendo. Estás agindo sem pensar.

— Quieta, minha querida. Não queres acordar aos outros.

Alberto puxou a moça por um corredor escuro no andar superior da casa. Entraram por uma porta no fim do corredor e Mariana viu-se em um escritório. Alberto a soltou por um momento, seguro de que ela não ia fugir agora e abriu uma gaveta atrás de sua mesa de trabalho. Procurava por dinheiro. Era ali que guardava suas economias e devia ter o suficiente para que pudessem fugir. Pegou o dinheiro e guardou-o no bolso de seu paletó. Ia fechar a gaveta quando viu um objeto reluzir à luz da lua que entrava pela janela atrás de si e decidiu levá-lo consigo. Pegou-o e colocou-o na parte de trás de sua calça.

— Para que isso? — quis saber Mariana, um pouco assustada.

— É sempre bom estarmos prevenidos.

— Acho que não precisarás disso, irmão — disse uma voz vinda da porta atrás de Mariana, que sobressaltou-se colocando a mão sobre o peito, acalmando seu coração acelerado.

Joaquim estava no umbral da porta, segurando um revólver que apontava diretamente para seu irmão. Estava quase oculto pelas sombras do cômodo e aquilo lhe dava um ar assustador.

— Joaquim, saia do caminho — pediu Alberto.

— Ela não é tua! — gritou o outro rapaz. — Não tens o direito de levá-la!

— Tua também não é!

Joaquim mantinha sua arma apontada diretamente para o peito do irmão, Mariana estava postada entre os dois irmãos, olhando assustada de um para o outro, sem conseguir falar.

— Saia do caminho — repetiu Alberto com a mão nas costas, buscando o objeto que guardara há pouco tempo. Antes que ele pudesse levantá-lo dali, um tiro estrondoso explodiu no local e Mariana jogou-se ao chão, gritando assustada, ao mesmo tempo em que a bala atingia o peito de Alberto e o jogava contra a janela atrás de si. Mariana levantou o olhar e viu Joaquim com seu revólver estendido soltando fumaça da boca do cano. Olhou para Alberto e o viu arrastando-se no chão com o peito ensanguentado, buscando seu próprio revólver que caíra.

Joaquim abaixou o olhar para a moça em lágrimas e não viu seu irmão mexendo-se. Ia dizer alguma coisa quando mais um estrondo ecoou pelo local e uma bala explodiu em sua cabeça, fazendo o sangue jorrar na moça. O corpo caiu em frente a ela, que gritou e jogou-se para trás.

— Mari… — sussurrava Alberto, com a voz fraca, ainda segurando seu revólver. — Eu… te…

Nunca conseguiu proferir a última palavra. O resquício de vida em seu corpo se esvaiu e Mariana se viu só na sala com dois cadáveres. Os cadáveres dos homens que ela amava. Os dois segurando armas que tiraram a vida um do outro.

Desesperada e com o rosto sujo do sangue de Joaquim, ela arrastou-se pelo chão e pegou a arma dele. Apertou o cano ainda quente contra sua mandíbula e puxou o gatinho. A explosão do tiro foi o que acordou o pai dos irmãos, que enlouqueceu quando viu os filhos mortos e teve que ser internado em um hospício. Já o senhor Jorge não aguentou a notícia e morreu do coração.

E esse foi o fim de sua família e do seu tão aclamado legado.

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comentários
  1. nilza disse:

    Vinicius, eu disse que eu leria o que escrevesse com bastante critério… sinceramente?
    Achei muito interessante sua história, apesar de ter um final meio que previsivel… 2 irmãos uma unica paixão… triangulo perigoso. Mas gostei sim. Porém li o outro que escreveu… e esse, leia meu comentario dentro dele….. “Leia meus comentarios se não eu não traduzo mais”… rs….

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