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Olá, galera!

Nesse post vim aqui para falar sobre o meu livro, que será lançado em julho pena Editora Selo Jovem. Na verdade, já falei um pouco dele aqui e aqui. Contrariando o que eu disse no primeiro post, o livro não é de nenhum amigo haha. Na verdade, eu o escrevi com um pseudônimo – A. Wood – porque achei que chamaria mais atenção e se encaixaria melhor com a história, que se passa no Canadá.

Não vou me alongar muito nesse post, então vamos ao que interessa: algumas informações do livro.

Sinopse

“Essas criaturas malditas existem. São tão reais quanto qualquer pessoa. Elas existem, estão entre nós, e eu odeio todas elas. Quero vê-las mortas, torturadas, dizimadas. Estou aqui apenas para isso agora. Aniquilá-las uma por uma.”

Peter Graham é um caçador de vampiros, mas não foi sempre assim.Antes era um rapaz homossexual que enfrentava as dificuldades de uma sociedade dividida entre a aceitação, o respeito e a repugnância à sua condição. Tinha amigos, amores, preocupações e medos como qualquer jovem, mas tudo isso ficou no passado. O novo Peter é frio e destemido a conseguir seu objetivo: aniquilar o maior número de vampiros possível. No entanto, tudo sofre uma reviravolta quando se vê obrigado a realizar uma missão à Família de vampiros que procura há muito tempo: caçar e matar um lobisomem. O que Peter não esperava era se apaixonar por ele e descobrir um segredo antigo que pode ajudá-lo em sua busca…

Essa aqui é a capa dele. Ficou demais, não acham?

graham

Convido todos a conhecerem mais sobre o livro (que sairá no comecinho de julho, mas já está em pré-venda para quem quiser garantir seu exemplar) nos links abaixo.

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Compre aqui com FRETE GRÁTIS para TODO o Brasil!

 

Fiquem de olho no blog e não esqueçam de curtir a página no facebook, pois em breve teremos promoções e sorteios muito legais por lá!

 

Até a próxima! 😀

Dica!

Publicado: 11 de janeiro de 2014 em Breno, Contos, Grey Griffins, Séries de TV, The 4400, Traduções

Beleza, galera?

A maioria das pessoas que passam por esse blog estão aqui por causa das traduções de The 4400, mas hoje resolvi fazer esse post para divulgar uma nova história que provavelmente alguns dos visitantes vão gostar!

Quem se interessa por literatura fantásticas/sobrenatural, é uma boa ideia conferir. Que tal darem uma olhada na página do facebook desse livro e curtirem? É só clicar na imagem abaixo. 🙂

 

Post atualizado com o book trailer do livro:

 

 

Graham

vampiro E aí, galera? Aqui estou eu novamente, mas dessa vez não é para falar das minhas histórias nem das minhas traduções, que podem ser encontradas aqui no blog. Estou aqui hoje para ajudar um amigo a promover o livro dele, que está em processo de edição.

Todos sabem que vampiros e lobisomens são um clichê atualmente, mas cá entre nós, praticamente tudo que lemos hoje em dia é um clichê, mas se o autor souber o que fazer com ele, acaba por criar uma grande história que pode agradar a muitas pessoas, não é mesmo? (Pessoalmente, uma história de vampiros que ficou muito boa foi True Blood).

Mas voltando ao meu amigo – que prefere ser chamado no mundo literário por A. Wood. Ele escreveu uma história com vampiros e lobisomens que tem tudo para dar certo. Apesar de o tema ser muito explorado por outros autores, no livro dele é abordado de um modo diferente e muito interessante. Se vocês quiserem conhecer mais sobre isso, acessem e curtam a página dele. Eu recomendo.

 

https://www.facebook.com/pages/Peter-Graham/320746394727974

Conto – Cegueira

Publicado: 14 de setembro de 2012 em Contos

Imagem

Galera, esse é mais um conto que escrevi. Espero que gostem. Lembre-se de comentar e deixar suas opiniões depois de lerem.

Cegueira

 

I

 

Seus belos cabelos negros caíam-lhe pelos ombros. Combinavam com seus olhos, que eram da mesma cor e deixavam qualquer rapaz que os olhasse diretamente desconcertado, tamanha era sua beleza. Sempre que saía para passear pela vila ou para ir à feira (nunca desacompanhada de seu guarda-costas, mandado pelo pai) atraía olhares de mulheres e de homens, olhares invejosos e cobiçosos.

Mariana vivia numa grande casa com seu pai, um rico empresário e proprietário de mais da metade dos estabelecimentos da vila. Sua mãe morrera fazia menos dez anos e desde então a garota se tornara, apesar de ser bela e simpática, solitária, tendo apenas seu guarda-costas e os empregados da casa como companhia. E não gostava muito disso. Seu pai nunca fora muito atencioso, sempre se importara mais com os negócios do que com a família, mesmo quando a mãe de Mariana ainda estava viva. E, com a morte dela, seu grau de atenção diminuíra praticamente para o zero.

Mas, em um único aspecto, o senhor Jorge era muito atencioso com relação à sua filha: casamento. A moça já passava de seus dezessete anos (completaria dezoito em poucos meses) e procurava por um marido. Embora não faltassem candidatos e ela recebesse diversos cartões com poesias apaixonadas acompanhados de buquês de flores, ela nunca se interessara por nenhum dos rapazes da vila e começava a pensar que ficaria solteira para o resto da vida.

— O rapaz certo há de aparecer — dizia o senhor Jorge. Ele desaprovava todos os pretendentes da moça, alegando que só a deixaria se casar com um rapaz rico e de boa família, que pudesse continuar com seus negócios depois que partisse dessa vida.

Certo dia, o pai de Mariana entrou no quarto da moça, que lia um exemplar de Romeu e Julieta, de Shakespeare, e sentou-se ao pé da cama. Mariana pousou o livro na mesa-de-cabeceira e olhou inexpressiva para o senhor Jorge, esperando.

— Vista a sua melhor roupa — disse-lha ele. — Um grande, e rico, amigo meu está a caminho com seus dois filhos. Quero que os conheça. Um deles pode ser o seu marido, e quem continuará meu legado.

Mariana apenas concordou com a cabeça e o pai saiu do quarto, deixando-a sozinha.

II

Mariana adentrou a sala, usando um belo vestido branco que impressionou a todos os presentes no recinto. Em pé, ao lado de seu pai e segurando cada um uma taça com vinho, estavam três homens. Um deles já era ancião e os outros dois tinham aproximadamente a idade dela.

— Rapazes, esta é minha filha Mariana — anunciou o senhor Jorge, sorridente.

A moça deu sorriso cortês e um pouco tímido enquanto dobrava os joelhos, segurando os lados do vestido com as mãos, num gesto de cumprimento.

O pai dela convidou a todos para jantar e, enquanto comiam, o assunto principal foi sobre os negócios de senhor Jorge. Mariana terminou a refeição e levantou-se, pedindo licença ao sair. Dirigiu-se para o jardim e não viu quando os dois anciãos mandaram que os irmãos seguissem a moça para tentar conquistar o coração dela.

Mariana estava sentada num banco, segurando uma rosa na mão, quando sentiu alguém sentar-se ao seu lado. Era um dos irmãos, o que ela achara mais charmoso, com seus cabelos negros e um rosto gentil. Ele também trazia uma rosa na mão.

— Daria uma flor a ti — disse-lha. — Mas vejo que já tem uma.

A moça sorriu e disse:

— É sempre bom ganhar mais uma — e estendeu a mão, onde o rapaz depositou a flor.

— Bom, nesse caso, faço questão de dar-te uma rosa também — disse uma terceira voz, a do outro rapaz, que entrava no jardim nesse momento. Ele sentou-se do outro lado de Mariana e também lha entregou uma rosa, que aceitou sorrindo agradecida. — Já conhecestes meu irmão, Alberto, creio eu. Sou Joaquim.

Mariana continuou conversando com os dois rapazes sobre assuntos que não precisam ser expressos aqui, mas vale ressaltar que ela adorou os dois. Achou-os elegantes e muito educados. Os dois, quando ouviram falar da moça, não haviam se interessado muito, mas após conhecê-la e conversarem com ela, amaram-na pela sua beleza estonteante e por sua alma, tão bela quanto seu corpo físico.

III

Os irmãos Alberto e Joaquim passaram a ser visitantes frequentes na casa do senhor Jorge. A cada dia que passava, Mariana gostava mais dos irmãos e isso a deixava inquieta. Sabia que os dois seriam ótimos maridos, mas ela teria que escolher apenas um e esse era o problema. Ela amava os dois igualmente.

Se esse amor a estava deixando indecisa, parecia estar causando outro sentimento entre os dois irmãos. Alberto e Joaquim faziam de tudo para impressionar a moça e essa competição passara do nível saudável para um nível um pouco alarmante.

Uma noite, enquanto se preparava para dormir, Mariana ouviu alguém a chamando baixinho do lado de fora se seu quarto. Esgueirou-se até a janela e afastou as cortinas para encontrar Alberto lá embaixo, na calçada, com as mãos em concha ao lado da boca.

— O que fazes aqui à uma hora dessas, Alberto? — indagou a moça, suprindo um sorriso.

— Psiu! Fale mais baixo — disse ele. — Vim buscar-te, minha amada.

— Como é? — Mariana não conseguia esconder a empolgação em sua voz.

— Vamos fugir. Juntos. Só nós dois. Iremos para qualquer lugar que quiseres.

— Mas não podemos fazer isso — disse a moça, pensando em seu pai e em todo o resto. — Não posso deixar meu pai. E ele precisa de alguém para cuidar de seus negócios no futuro.

— Mas eu amo-te e tu me amas — replicou Alberto. — Nada pode ser mais importante que o amor. E eu tenho dinheiro que posso levar conosco, assim nunca passaremos necessidades.

Mariana ficou olhando para o rapaz, sem dizer nada por algum tempo. A expressão no rosto dele passou de empolgação para receio.

— Ou tu não me amas? — perguntou.

— Claro que amo — disse a moça. — Mas do mesmo modo que amo a ti, amo a teu irmão. Amo os dois igualmente.

— Mas é a mim com quem deves ficar! — exclamou Alberto. — Não ele!

— Alberto, entenda. Eu preciso de um tempo para pensar e me decidir com quem quero realmente me casar. Prometo que logo saberei.

O rapaz olhou para os próprios pés por alguns instantes, como que tentando se acalmar. Apertou os punhos, respirou fundo e olhou novamente para cima. A expressão que exibia agora era mais calma, ou pelo menos parecia ser.

— Podes descer aqui um instante? — pediu ele. — Tenho algo para te dar.

Mariana sorriu, feliz com a compreensão do rapaz. Saiu de seu quarto e passou pelo seu guarda-costas na sala, dizendo que só ia falar com Alberto, que a esperava do lado de fora. O homenzarrão não fez objeção, pois já conhecia o jovem rapaz, apenas disse-lha que voltasse logo. A moça assentiu e saiu para a calçada embaixo da janela de seu quarto.

— Aqui estou — disse, olhando Alberto.

— Sinto muito por isso — disse ele, e um brilho de adrenalina trespassou seus olhos escuros. — Mas é assim que deve ser.

Ele a segurou pelo punho e a puxou para perto de si, começando a andar e fazendo-a seguir-lhe. A moça tentou resistir, mas ele a puxou com mais força.

— Alberto, o que estás fazendo?

— Por favor, não grite.

Ela não o fez. Deixou que o rapaz a levasse por mais alguns passos. Ele não era um rapaz de má índole, então não faria alguma maldade com ela. Era apenas um homem apaixonado.

— Estamos indo para sua casa? — perguntou ela, reconhecendo o caminho que faziam. Nunca estivera na casa dele, mas soube pela descrição que o pai lha fizera.

Alberto não respondeu. Logo, adentraram o casarão onde viviam os dois irmãos e seu velho pai.

IV

Joaquim acordou no meio da noite, sentindo-se sedento. Levantou-se e foi até a cozinha para tomar um copo de água. Enquanto bebia o líquido, vislumbrou um envelope sobre a mesa, com apenas duas palavras escritas:

 

Para Joaquim.

Reconheceu a caligrafia de Alberto e abriu o envelope, desdobrando o papel em seu interior e lendo a carta do irmão:

Meu irmão,

            Estou certo de que meu amor por Mariana é maior que o teu. Logo encontrarás alguém que seja a pessoa certa para ti. Mariana é minha. Estou indo embora com ela essa noite. Cuide bem de nosso pai e diga-lhe que sinto muito, mas o amo. Assim como amo a ti.

 

                                               Alberto.

 

Mal terminou de ler, sentindo-se traído, quando ouviu a porta de entrada abrir e fechar. Vozes vieram da sala, seguida de passos que tentavam ser sorrateiros. Reconheceu a voz do irmão e da bela Mariana. Alberto não tinha o direito de trair-lhe e ficar com a moça que amava. Ouviu que os passos se dirigiam para o escritório de Alberto, mas antes de segui-los teve uma ideia.

V

            — Alberto, por favor… — implorava Mariana. — Não sabes o que estás fazendo. Estás agindo sem pensar.

— Quieta, minha querida. Não queres acordar aos outros.

Alberto puxou a moça por um corredor escuro no andar superior da casa. Entraram por uma porta no fim do corredor e Mariana viu-se em um escritório. Alberto a soltou por um momento, seguro de que ela não ia fugir agora e abriu uma gaveta atrás de sua mesa de trabalho. Procurava por dinheiro. Era ali que guardava suas economias e devia ter o suficiente para que pudessem fugir. Pegou o dinheiro e guardou-o no bolso de seu paletó. Ia fechar a gaveta quando viu um objeto reluzir à luz da lua que entrava pela janela atrás de si e decidiu levá-lo consigo. Pegou-o e colocou-o na parte de trás de sua calça.

— Para que isso? — quis saber Mariana, um pouco assustada.

— É sempre bom estarmos prevenidos.

— Acho que não precisarás disso, irmão — disse uma voz vinda da porta atrás de Mariana, que sobressaltou-se colocando a mão sobre o peito, acalmando seu coração acelerado.

Joaquim estava no umbral da porta, segurando um revólver que apontava diretamente para seu irmão. Estava quase oculto pelas sombras do cômodo e aquilo lhe dava um ar assustador.

— Joaquim, saia do caminho — pediu Alberto.

— Ela não é tua! — gritou o outro rapaz. — Não tens o direito de levá-la!

— Tua também não é!

Joaquim mantinha sua arma apontada diretamente para o peito do irmão, Mariana estava postada entre os dois irmãos, olhando assustada de um para o outro, sem conseguir falar.

— Saia do caminho — repetiu Alberto com a mão nas costas, buscando o objeto que guardara há pouco tempo. Antes que ele pudesse levantá-lo dali, um tiro estrondoso explodiu no local e Mariana jogou-se ao chão, gritando assustada, ao mesmo tempo em que a bala atingia o peito de Alberto e o jogava contra a janela atrás de si. Mariana levantou o olhar e viu Joaquim com seu revólver estendido soltando fumaça da boca do cano. Olhou para Alberto e o viu arrastando-se no chão com o peito ensanguentado, buscando seu próprio revólver que caíra.

Joaquim abaixou o olhar para a moça em lágrimas e não viu seu irmão mexendo-se. Ia dizer alguma coisa quando mais um estrondo ecoou pelo local e uma bala explodiu em sua cabeça, fazendo o sangue jorrar na moça. O corpo caiu em frente a ela, que gritou e jogou-se para trás.

— Mari… — sussurrava Alberto, com a voz fraca, ainda segurando seu revólver. — Eu… te…

Nunca conseguiu proferir a última palavra. O resquício de vida em seu corpo se esvaiu e Mariana se viu só na sala com dois cadáveres. Os cadáveres dos homens que ela amava. Os dois segurando armas que tiraram a vida um do outro.

Desesperada e com o rosto sujo do sangue de Joaquim, ela arrastou-se pelo chão e pegou a arma dele. Apertou o cano ainda quente contra sua mandíbula e puxou o gatinho. A explosão do tiro foi o que acordou o pai dos irmãos, que enlouqueceu quando viu os filhos mortos e teve que ser internado em um hospício. Já o senhor Jorge não aguentou a notícia e morreu do coração.

E esse foi o fim de sua família e do seu tão aclamado legado.

Em breve…

Publicado: 23 de novembro de 2011 em Contos

Happy Halloween!

Publicado: 31 de outubro de 2011 em Contos

Acho que o Halloween é a minha data preferida. Eu adoro o clima desse dia, as festas e tudo mais. =)

E para comemorar, escrevi um conto meio que correndo agora antes de ir para a faculdade. Leiam e comentem, por favor!

Em breve, teremos mais capítulo de The 4400.

CONTO DE HALLOWEEN

Por Vinícius Fernandes

        Naquele 31 de outubro, do ano de 2011, o dia amanheceu frio e nublado, com uma garoa irritante. Seria ótimo se eu pudesse ficar em casa e dormir até tarde, pois o barulho da chuva e o conforto da minha cama eram bem convidativos. No entanto, tinha que levantar-me às seis da manhã e ir para a faculdade. Não devia ter feito isso.

            Coisas estranhas aconteceram. Primeiro, ao chegar ao campus, vi que estava mais vazio do que o normal, talvez devido ao tempo frio. Segundo, tudo parecia mais sombrio, as pessoas pareciam mais tristes e, por um momento, um arrepio percorreu minha espinha. De repente, lembrara-me da lenda que rondava a faculdade: a de que fora construída no mesmo terreno em que funcionava um centro espírita há muito tempo.

            Subi para a sala de aula e encontrei dois amigos lá. Achei que fosse me atrasar, mas exceto pelos três, não havia mais ninguém no recinto, nem mesmo o professor.

            — E aí, galera? — cumprimentei. — Achei que fosse me atrasar.

            — E se atrasou, Pedro — respondeu Júlio. — Mas pelo visto o professor também.

            — Hoje o dia está muito estranho — comentou Raquel, uma outra amiga. — Estou me sentindo estranha desde que acordei, e essa faculdade está tão… diferente.

            Neste mesmo instante a porta da sala, que eu deixara aberta, bateu com um estrondo, fazendo-nos pular de susto. Não deu tempo nem de dizermos uma palavra sequer, um grito de terror ecoou pelos corredores até nossos ouvidos. Em seguida, o alarme de incêndio disparou, e uma campainha estridente espalhou seu som por todo o prédio.

            — Acho que precisamos sair — disse eu. — Aconteceu alguma coisa.

            Raquel, que tinha medo de quase tudo, segurou o braço de Júlio e saiu da sala atrás de mim. Ao pisarmos no corredor, as janelas na parede à frente também fecharam-se com estrondo, e eu imaginei o quão resistente aqueles vidros eram para não quebrarem-se com o impacto. Era como se o prédio estivesse fechando-se sozinho e querendo que a gente ficasse lá dentro.

            Olhando através do vidro vi que o dia tornara-se mais nublado, e o céu parecia estar anoitecendo precocemente. Chegamos ao final do corredor e viramos para o próximo quando…

            — Meu Deus! — exclamei ao mesmo tempo em que Raquel soltava um grito horrorizado, e o alarme de incêndio parava.

            À nossa frente, caída no chão, estava uma garota. Sua cabeça estava virada para trás. Suas pernas formavam um ângulo torto impossível. Sangue saía de sua boca.

            — Merda! — exclamou Júlio. — Merda! Vamos dar o fora daqui! Alguém matou essa menina!

            Viramos e começamos a correr para a escada de emergência. Descemos vários degraus correndo até o térreo. No entanto, a porta de saída para o andar térreo parecia estar emperrada. Forçamos para tentar abri-la, mas foi inútil.

            — Vamos sair no primeiro andar e descermos pela escada comum até o térreo para sairmos.

            Enquanto subíamos os degraus, ouvimos mais gritos. De pavor. De tortura. De dor. Em seguida, vários baques secos, como se coisas pesadas estivessem sendo jogadas ao chão.

            Raquel paralisou, e só seguimos porque Júlio a puxou. Enfim tínhamos chegado à saída do primeiro andar e íamos abrir a porta quando…

            PAM!

            Algo grande fora arremessado contra a porta do lado de fora. Estacamos no lugar e Raquel gritou em meio às lágrimas.

            — Alguém precisa ligar para a polícia!

            Acenei para Júlio e começamos a subir mais um andar. O que quer que estivesse fazendo aquilo estava no primeiro andar, então era melhor subir mais um. Tirei o telefone do bolso e quando olhei, o joguei para longe. O aparelho rolou pela escada.

            — Por que você fez isso? — indagou Júlio, assustado.

            Olhei para ele, e seu olhar me dizia que eu estava branco. Respirei com dificuldade, sentindo o suor começando a escorrer pela minha testa.

            — Havia uma foto no meu celular — respondi ofegante.

            — E o que tem isso? — perguntou Júlio.

            — Era um foto da minha mãe.

            Minha mãe tinha morrido há cinco anos, e a foto no celular… Ela estava dentro do caixão.

            Os celulares de Júlio e de Raquel estavam sem sinal, coisa que raramente acontecia no campus, então não podemos ligar para a polícia. Eu me acalmei um pouco, tentando não pensar na foto que aparecera no meu telefone, e subimos para o próximo andar. Saímos no corredor, as janelas e portas da sala estavam todas fechadas, e a escuridão parecia ter aumentado bastante.

            — Merda! — exclamou Júlio, olhando mais para frente.

            Eu acompanhei seu olhar e vi que, na curva do corredor, havia mais um corpo. Aproximamo-nos cautelosamente e vimos que estava com o pescoço e pernas igual ao outro, no entanto, esse era um homem, e seus olhos estavam arregalados como se sua última visão fosse a de algo terrível.

            Com medo e ofegantes, corremos até a escada e começamos a descer quando Raquel começou a gritar novamente. A garota apertou-se ainda mais contra Júlio e olhava aterrorizada enquanto gritava e apontava para trás, para a direção de onde tínhamos vindo. Olhei e não vi nada.

            — Calma, Raquel! Nós já estamos saindo daqui, tudo vai dar certo!

            — O meu avô! — exclamou a moça. — Ele está ali! Está vindo!

            Júlio e eu trocamos um olhar. Todos sabíamos que o avô de Raquel morrera quando ela tinha cinco anos de idade.

            — Vem! — gritou Raquel, puxando Júlio e eu.

            Começamos a correr pela escada que levava ao térreo, mas dessa vez foi Júlio quem parou abruptamente e arregalou os olhos para algo invisível mais para baixo. Ele tentou virar-se e voltar correndo para cima, mas eu o segurei.

            — O que foi?

            — A minha tia que morreu semana passada — disse ele, baixinho. — Está ali embaixo.

            Mais uma vez, olhei eu não vi nada.

            — Não tem anda ali. Vamos descer.

            Puxei meus amigos para baixo, mas estaquei ao ouvir uma voz suave que não ouvia há muito tempo vindo do topo da escada:

            — Pedro…

            Virei-me lentamente e olhei para o alto. Havia uma mulher com um vestido verde de seda parada ali. Ela me olhava sorrindo e estendia uma mão para mim. Com a escuridão que assolara o prédio ficava difícil ver com clareza, mas aquela voz… era impossível não reconhecer. Era a voz da mulher na foto no meu celular. Era minha mãe. Que morrera há cinco anos.

            Senti um vazio no estômago e um arrepio pelo corpo. Não sabia o que fazer, então simplesmente fiquei parado enquanto minha mãe falecida descia a escada lentamente, os pés descalços tocando os degraus frios de mármore.

            Raquel, desesperada, correu pela escada e desapareceu de vista. Júlio voltou correndo para cima, passou ao lado de minha mãe como se não a tivesse visto e também desapareceu pelo corredor.

            A mão de minha mãe tocou meu ombro, e foi como se o dia tivesse ficado ainda mais frio. Isso me despertou, desvencilhei-me dela e corri escada abaixo. Rapidamente, cheguei ao térreo. O pavor era tanto que eu praticamente ignorei todos os corpos mortos pelo chão, corpos que tinham os pescoços torcidos e braços e pernas quebradas dobrando-se em ângulos assustadores. Só queria sair daquele pesadelo horrível que estava vivendo. Enquanto corria, arrisquei olhar para trás e vi minha mãe caminhando tranquilamente por entre os mortos. E isso foi o suficiente para me fazer tropeçar em um corpo e cair. Meu rosto atingiu o chão ao lado do morto. Aquilo me deixou mais horrorizado: era Raquel que estava caída, os olhos abertos e a expressão de terror, o sangue escorrendo pela boca…

            Uma mão branca apareceu ao meu lado, olhei para cima e vi minha mãe oferecendo-se para me ajudar. Pulei para trás, para longe da defunta, e arrastei-me de costas pelo chão por alguns instantes. A mulher de verde apenas ficou observando. Levantei-me e corri para a saída. As portas de vidro estavam fechadas, tentei abri-las, mas foi inútil. Vi pelo reflexo que minha mãe aproximava-se lentamente, só que dessa vez o terror foi maior: o rosto dela, outrora bonito e reconfortante para mim, agora era uma imagem em decomposição, carne, osso, sangue e terra formavam suas feições, como as de um zumbi. Pisquei uma vez e quando abri os olhos, vi que ela agora estava ao meu lado. Sua mão fria e também em decomposição segurou meu ombro e forçou-me a virar para ela. Senti seu hálito (cheirava a menta, sua bala preferida) no momento em que se aproximou e colocou uma mão em cada lado do meu rosto. Parecia que ia me dar um beijo de boa noite como fazia quando eu era criança. Eu gritei, apavorado, mas meu grito foi calado quando suas mãos torceram meu pescoço, e eu caí morto ao chão.

Conto – A Torre e o Túnel

Publicado: 10 de janeiro de 2011 em Contos

Enquanto não temos mais um capítulo de Promises Broken”, vou publicar aqui um conto de minha autoria. É um dos meus primeiros contos, então deixem suas opiniões, críticas, sugestões etc. xD

A TORRE E O TÚNEL

VINÍCIUS FERNANDES DA ROCHA

A casa erguia-se imponente sobre as outras do vilarejo. Era feita quase toda de madeira e a cor amarela a destacava, juntamente com um belo jardim à entrada. Outro aspecto que chamava a atenção era a bela e alta torre ascendendo a um canto. Além de ser a mais bonita construção daquele vilarejo, ali morava a família mais rica do local, composta pelo casal Antônio e Maria, e sua filha de dezenove anos, Mariana.

A família era rica e muito reservada, só mantinha contato com a mais alta elite de sua vizinhança, e quando eles saíam, atraíam os olhares das pessoas nas ruas. Principalmente a filha, Mariana, que era bela, alta, com longos cabelos castanhos que lhe caíam pelos ombros, e olhos verdes que causavam delírios nos rapazes.

Aproveitando que falamos dela, vou contar o hobby preferido da moça. O jardim da casa, com rosas, margaridas e diversos outros tipos de flores que não necessitam aqui ser retratados, fora montado por um pedido seu quando tinha sete anos de idade. Desde criança, tivera um gosto peculiar por jardinagem e, desde a criação do jardim, ela passara a gastar grande parte de seu tempo ali, regando as flores, colhendo-as, plantando…

E um acontecimento que vale ressaltar aconteceu justamente nesse jardim, quando Mariana estava sentada, admirando as flores ao seu redor, sentindo seu aroma. A moça estava tão distraída que não viu o rapaz passando em frente à sua casa. Ele até mesmo começou a andar mais devagar, apreciando a beleza dela. Sabia que não devia parar ali, pois aquela era a casa da família inimiga da sua. A causa dessa inimizade não lhe fora contada, somente que as duas famílias não de davam muito bem. No entanto, a beleza de causar estupor da jovem o fez ficar ali, sem reação.

Mariana levantou o olhar e percebeu o rapaz parado diante da cerca de sua casa, olhando-a. Ela escondeu um sorrisinho tímido e se levantou, aproximando-se dele.

— Pois não?

— Ah… — atrapalhou-se o rapaz, e Mariana achou a falta de fala dele um tanto quanto atraente. Ela olhou-o bem, analisando seus cabelos negros e lisos caindo sobre a testa, seus olhos tão escuros quanto. — Estava passando e não consegui continuar o meu caminho. Sua beleza é como algemas.

Os dois apaixonaram-se um pelo outro desde então, no entanto, a inimizade entre suas famílias proibia o seu romance. Mantinham um romance às escondidas, raramente se encontrando e trocando mensagens através de garotos mais novos do vilarejo, que executavam o trabalho por um ou dois tostões.

Em uma noite de inverno, quando a maioria da vizinhança já estava dormindo, Mariana arrumou-se no seu quarto (que ficava na torre da casa) e caminhou sorrateiramente até sair. Lá no jardim, ela o viu. Pietro. O seu amado.

— Pronta? — indagou o rapaz, sorrindo.

— Pronta — respondeu ela, num sussurro.

Os dois foram caminhando de mãos dadas até a praça no centro da vizinhança. O único som que ouviam era as folhas das árvores ao seu redor farfalhando ao vento. Ficaram ali durante algumas horas, trocando carícias e conversando as besteiras que somente duas pessoas apaixonadas são capazes de conversar.

Continuaram se encontrando naquele local por várias e várias noites, sem incidente algum acontecer. Porém, uma vez quase foram surpreendidos por uma pessoa que passava por perto. Pietro reconheceu o amigo de seu pai e se escondeu com Mariana atrás de uma árvore. O homem que andava apenas a alguns metros de distância do casal parou e olhou ao seu redor, desconfiado. Pietro e Mariana prenderam a respiração, desejando que ele continuasse seu caminho, no entanto, o homem aproximou-se deles cautelosamente. Pietro tomou uma decisão precipitada e saiu subitamente de trás do tronco da árvore, deixando Mariana abaixada ali. A moça ia dizer algo, mas viu que seu namorado estava confiante no que fazia, agora.

— Pietro! — exclamou o homem, assustando-se ao ver o rapaz emergir da escuridão.

— Sr. Filipe — cumprimentou ele, educadamente, com um aceno da cabeça.

— O que está fazendo aqui à uma hora dessas?

— Apenas tomando um ar — mentiu Pietro. — Não consegui dormir e decidi dar uma volta.

— Pois bem — disse o Sr. Filipe. — Vou continuar meu caminho. Diga ao seu pai que mando lembranças. Até logo, garoto!

— Pode deixar, Sr. Filipe. Até mais ver!

Depois que o homem já estava distante, Mariana saiu de trás da árvore e Pietro disse-lha:

— Acho que não devemos mais nos encontrar por aqui. Alguém pode descobrir.

A moça concordou com a cabeça, olhando nos olhos de seu amado.

— Descobriremos outro jeito de nos encontrarmos — disse.

E encontrariam muito em breve.

*****

Na torre que ascendia a um canto da casa ficava, no alto, o quarto de Mariana, e embaixo dele, a cozinha. Naquele momento, a garota estava sentada na beira de sua cama, pensando em uma maneira de poder voltar a encontrar-se com Pietro. Não conseguia pensar em nenhum local seguro, então resolveu escrever uma carta para o rapaz e pedir para que algum menino a entregasse em troca de algumas moedas.

Já era tarde da noite e seus pais e a empregada da casa dormiam. Mariana desceu as escadas cautelosamente, tentando não fazer barulho, e chegou até a cozinha. Ali, acendeu uma vela, pegou um papel em uma gaveta e uma caneta e pousou tudo na mesa. Não sabia como começar a escrever e começou a andar de um lado para o outro pelo cômodo, como sempre fazia para pensar. O silêncio da noite no vilarejo era gritante. Nem mesmo os pássaros ou os grilos podiam ser ouvidos. O vento frio era cuidadoso: corria, mas não anunciava sua presença com ruído algum.

Sentou-se à mesa e, sob a luz da vela, começou a escrever:

Pietro,

Eu…”

Parou e pensou melhor. Não. Não estava bom. Levantou-se novamente e continuou o vai e vem pela cozinha. O silêncio agora era quebrado pelo ruído das tábuas sob os pés da garota.

Toc! Toc! Toc!

O que posso escrever na carta? Pensou ela, com a mão sob a boca numa forma pensativa.

Toc! Toc!  Nhac!

Opa! Nhec? Mariana ouviu o rangido diferente sob seus pés, deu um passo atrás e ouviu o “toc”. Parou, deu um passo a frente e o rangido invadiu seus ouvidos novamente. Aquela parte do chão fazia um barulho diferente. Ela ajoelhou-se, observando o piso de madeira e não percebeu nada de diferente ali. Olhou mais atentamente e só então pôde ver que a distância entre uma tábua e outra naquele ponto era um pouco maior que as outras.

— Que estranho — sussurrou a garota, pensando em voz alta. Os dedos de Mariana, por sorte (ou por destino, não se sabe), eram finos o suficiente para passarem por entre a fenda nas tábuas. Sem fazer muita força, ela puxou a tábua e… — Um alçapão.

Aquilo era, na verdade, um alçapão disfarçado. Por que estava ali ou quem construíra e como nunca antes o vira não importava agora. A curiosidade cresceu em seu peito e ela desceu, depois de pegar a vela sobre a mesa, pela escada na passagem escura sob a sua cozinha.

Somente com a pequena chama iluminando seu caminho, Mariana foi adentrando cada vez mais o túnel escuro, sem encontrar nada de peculiar pelo trajeto. Pensou que o caminho não terminaria nunca quando viu, á sua frente, um pequeno lance de escadas atrelado à parede que subia para outro alçapão. Ela subiu as escadas e forçou a passagem, mas alguma coisa do outro lado impedia sua abertura.

— Vamos! — murmurou a moça, dando socos no alçapão. — Abra!

Então ela ouviu passos vindos ali de cima, e logo em seguida o ruído de móveis sendo empurrados. Alguém estava em cima do alçapão e começava a puxá-lo. O medo invadiu o coração de Mariana e ela já estava quase desistindo e voltando pelo caminho quando o alçapão se abriu e…

— Pietro?

Ali, sobre a passagem aberta, a moça viu o namorado ajoelhado, segurando o alçapão aberto e olhando-a com uma expressão confusa.

— Mariana? — indagou ele. — O que… Como…?

— O que você está fazendo aí?

— Essa é a minha casa. O que você está fazendo aí?

— Encontrei um túnel que nunca tinha ouvido falar antes sob a cozinha de minha casa. Segui por ele e vim parar aqui.

Pietro soltou um assobio, surpreso, e disse:

— Também não sabia da existência desse alçapão na minha casa. Creio que meus pais também não.

— Por falar neles, onde estão?

— Dormindo. Já viu que horas são?

— Não, mas sei que é tarde.

— Venha. Suba aqui. Vamos conversar.

O rapaz ajudou a moça a encarapitar-se pela passagem e fechou-a logo em seguida. Mariana viu uma poltrona a apenas alguns centímetros de distância dali. Provavelmente, ela ficava sobre o alçapão.

— Bem, você nunca esteve na minha casa antes — disse Pietro. — Não repare na simplicidade. Sua casa é de extrema riqueza e…

— Meu amor — interrompeu-o Mariana. — Eu amo a você. Não ao que possui.

A casa de Pietro era composta de apenas dois cômodos. O que estava agora, uma sala que ao mesmo tempo era a cozinha, e um quarto, onde os pais do rapaz dormiam.

— A sua família é muito rica — continuou ele. — E você sabe que nem a sociedade nem os seus pais aceitariam nosso romance, pela diferença social e pela inimizade nunca esclarecida para nenhum de nós.

— Pois, para mim, nada disso importa.

Os dois trocaram um beijo apaixonado e, naquele momento, nenhum deles se preocupava com as diferenças ou com a opinião de outras pessoas. A única coisa que importava era o amor cada vez maior em seus corações.

— Pietro? — veio uma voz de mulher do quarto ao lado.

— É a minha mãe — sussurrou o rapaz, parando de beijar a amada. — Mariana, vá. Agora temos um novo lugar para nos encontrarmos.

Ele piscou um olho para ela e se dirigiu para a porta do quarto, enquanto a moça abria o alçapão, seus olhos verdes encarando os escuros dele.

— Quem está aí com você? — a voz vinda do quarto novamente.

— Ninguém, mãe. Estou apenas pensando alto.

Enquanto Mariana fechava o alçapão e descia, ela pôde escutar parte da conversa entre mãe e filho.

— O Sr. Filipe disse ao seu pai que te viu com a garota do casarão na praça uma noite dessas. Não acreditamos, pois ele é um velho quase cego e pode ter confundido. Mas se ele estiver falando a verdade…

— Mãe. — Pietro a interrompeu. — A senhora acha que uma garota como ela ia se interessar por alguém como eu?

O resto do diálogo Mariana não pôde ouvir. Distanciou-se da casa de seu amado e, por fim, voltou à sua própria cozinha. Subiu ao seu quarto e dormiu tranquilamente, pois agora tinha um lugar para se encontrar com Pietro sem que ninguém os interrompesse. Um lugar secreto e seguro.

*****

O encontro seguinte do casal foi logo na noite que sucedeu a descoberta do túnel. Enquanto os pais deles dormiam, Mariana e Pietro sorrateiramente adentraram o túnel e se encontraram na metade do caminho.

— Eu amo você, Mariana — disse Pietro. Os dois estavam sentados no chão, encostados à parede e presos num abraço.

— Eu também o amo, querido. Amarei eternamente.

— Não consigo mais ficar sem você. Quero ficar ao seu lado pelo resto de minha vida.

E, no segundo seguinte, os dois falaram ao mesmo tempo:

— E na morte também.

*****

A casa de Pietro era a mais pobre do vilarejo e ficava afastada de todas as outras. O túnel que interligava a casa de Mariana com a do rapaz era um mistério e, nem ela nem ele, sabiam por que fora construído ou porque ligava as duas casas. A única coisa que importava para eles era que o lugar era perfeito para seus encontros noturnos.

Passados mais de dois meses desde o seu primeiro encontro subterrâneo, Pietro checou se seus pais estavam dormindo e procurou na gaveta de um móvel papel e caneta para escrever uma carta de despedida. Naquela noite, ele e Mariana fugiriam e viveriam o resto de suas vidas juntos.

Encontrei o amor de minha vida. Sei que ninguém aceitaria, por isso estou indo. Amo vocês, pai e mãe, mas tenho que ir.

Pietro”

O rapaz pousou o papel dobrado sobre a mesa da cozinha/sala e deu uma última olhada na casa onde crescera. Era simples, mas, a julgar pelo seu olhar triste, ele gostava e sentiria muita falta dali. Olhou pela última vez a espingarda de seu pai descansando apoiada em uma parede Lembrou-se das vezes que fora caçar com ele…

— Mas isso já é passado — murmurou Pietro para si mesmo.

Respirando fundo, abaixou-se e abriu o alçapão. Desceu cautelosamente, a ansiedade tão grande em seu peito que não percebeu que o deixara meio aberto e que produziu um ruído.

*****

Mariana o esperava no lance de escadas logo abaixo.

— Pronta? — indagou o rapaz.

— Sim. Não trouxe nada, como combinamos. Nossa vida nesse vilarejo será deixada para trás. De agora em diante, será uma nova época para nós dois.

Pietro abraçou-a e beijou-a apaixonadamente na boca.

— Venha — disse Mariana, depois do beijo. — Vamos sair pela minha casa.

Mal haviam começado a andar quando um rangido veio de sobre suas cabeças. Em sincronia, os dois amantes olharam para o alto e viram o alçapão sendo aberto pelo…

— Pai?! — exclamou Pietro, surpreso e assustado ao mesmo tempo.

— Então era verdade o que o Sr. Filipe me contou — disse o pai do rapaz, terminando de abrir o alçapão agora e começando a descer pelo lance de escadas. Mariana não pôde deixar de notar a expressão furiosa em seu rosto e a espingarda que carregava em uma das mãos, enquanto segurava um papel amassado na outra. — Você e essa garota não podem ficar juntos! Ela não é boa gente!

— Você não a conhece, pai — disse Pietro defensivamente, colocando-se à frente de Maria protetoramente. — Eu a amo. Não me impeça de tê-la, por favor.

— Você não deve misturar-se com gente como ela, meu filho — disse o velho, deixando o papel cair ao chão sob seus pés. Só uma palavra podia-se ler na carta amassada: Pietro. — Como tem a coragem de abandonar sua própria família por uma… — Ele gaguejou nesse momento, procurando a palavra certa em sua mente. — Uma… uma vagabunda como ela!

— O senhor é o meu pai, mas não permito que fale assim de Mariana. — Pietro estava enfurecido agora. — Não é porque tem desentendimentos com a família dela que deve julgá-la do mesmo modo!

O pai do rapaz deu um passo a frente, brandindo a arma na direção do filho e da namorada.

— É um último aviso, Pietro. Volte e deixe essa garota.

— Sinto muito, meu pai, mas eu a amo.

Na fração de segundo que se seguiu Pietro viu a faísca de fúria no rosto de seu pai tornar-se um incêndio. O velho o empurrou para o lado com o braço livre e, com o outro, ergueu a espingarda na direção de Mariana.

Pietro caiu ao chão, ouvindo o grito assustado de sua amada e, sem medir esforços, jogou-se contra as pernas de seu pai e o agarrou, derrubando-o ao seu lado.

— Vá, Mariana! Fuja! — gritou ele.

Mariana, terrivelmente assustada, virou-se e começou a correr pela escuridão. Ouviu um disparo da espingarda e parou, virando-se para trás, preocupada com o seu amado.

— Corra! — veio a voz dele mais uma vez.

O grito tirou-a do transe e ela voltou a correr pelo túnel, com as mãos sobre a cabeça e abaixando-se cada vez que ouvia um disparo da arma. As paredes de pedra ao seu lado estouravam soltando lascas e poeira cada vez que um tiro as acertava.

— NUNCA MAIS VAI VER AQUELA GAROTA! — a voz do pai de Pietro atravessou o túnel até os ouvidos de Mariana. — NUNCA MAIS SAIREMOS DE CASA! NUNCA!

Mariana finalmente chegou ao lance de escadas que dava acesso à cozinha de sua casa. Subiu-o às pressas e fechou o alçapão atrás de si. Ficou sentada no chão de madeira, chorando e ouvindo Pietro e o pai discutindo no túnel…

Aquele foi o último encontro que o casal teve. Nunca mais se viram. O pai de Pietro trancou-se em casa com a mulher e o filho e nunca mais saiu de lá. Não saía para comprar comida ou para qualquer outra coisa. Conta a lenda que, quando a fome tomou conta da família, eles devoraram uns aos outros de uma maneira terrível. Seus corpos foram encontrados degolados.

E, Mariana, ao saber do triste fim de seu amado, trancou-se em seu quarto no alto da torre e morreu de tristeza. E, junto com ela, murcharam as flores de seu jardim. Seus pais mudaram da casa logo depois da morte da filha e nenhum dos moradores seguintes conseguiu ficar ali por mais de dois meses. Todos eles iam embora alegando ouvirem gritos assustadores vindos de baixo da casa e um choro triste e arrepiante vindo do alto da torre durante as madrugadas mais frias.

Quanto ao jardim de Mariana, inexplicavelmente nada mais foi capaz de crescer ali. Ele morrera junto com sua jardineira.