Olá, pessoal.

Como eu tinha falado antes, agora vou postar a tradução de um outro livro ainda não publicado no Brasil. Já falei sobre ele em alguns posts mais abaixo (quem quiser saber do que se trata, dá uma procurada no blog). Enfim, agora vou publicar o prólogo traduzido por mim. Deixem suas opiniões a respeito da história nos comentários, ok?

E, lembrando, eu NÃO sou o autor do livro, apenas traduzi e não estou recebendo nada por isso. Estou apenas querendo trazer essa história tão boa para o pessoal que não sabe inglês e não têm como ler os livros, que foram escritos por DEREK BENZ e J.S. LEWIS.

Prólogo

            Max Sumner colocou a cabeça por debaixo do lençol, com medo. Havia alguma coisa no quarto. Na escuridão. Alguma coisa maligna.

            Correu o olhar pelo breu que mergulhava seu quarto em sombras misteriosas. Conseguiu distinguir a silhueta familiar de sua escrivaninha, coberta de cartas de jogo, e percebeu que debaixo dela tinha alguma coisa observando-o. Max não a via, mas ouvia-a respirar.

            A luz de um relâmpago iluminou o quarto, e Max viu que alguma coisa obscura e assustadora se arrastava em sua direção. Sua pele era como carvão e, ao invés de olhos, tinha órbitas vazias que lhe devolveram o olhar. Foi aproximando-se lentamente. Max abriu a boca para gritar, mas não saiu som algum. Tentou pular, mas suas pernas não se mexeram.

            À luz do próximo relâmpago, o monstro estava ao seu lado, erguendo as garras ferozes para ele.

            Antes que Max pudesse gritar, foi arrancado dos lençóis e jogado com força contra a parede do quarto. Gritou ao sentir os pregos soltando-se da madeira, as tábuas quebrando-se e os fios de eletricidade rompendo-se.  Saiu como um foguete em meio à noite de tempestade e caiu os três andares que o separavam do chão de pedra molhado devido à chuva.

            Não pôde fazer absolutamente nada.

The 4400 – Promises Broken (Capítulo 49 e 50)

Publicado: 27 de janeiro de 2012 em The 4400

Os capítulos a seguir foram traduzidos por Vinícius Fernandes e Helena Padim, respectivamente.

E aqui encerram-se os livros da Imagemsaga “The 4400”, escritos por Greg Cox e David Mack.

Vamos deixar nos comentários suas opiniões sobre os livros? Qual deles foi melhor? Por quê? O final alcançou suas expectativas? O que não aconteceu que vocês gostariam de ter visto? Vamos comentar, pessoal!

Só para lembrar, estou traduzindo um livro de fantasia (já fiz um post sobre ele aqui: https://brenooficial.wordpress.com/2011/06/05/grey-griffins/) e em breve postarei o começo no blog.

Até a próxima!

QUARENTA E NOVE

SEUS ROSTOS HAVIAM MUDADO, mas o mundo continuava a mesma coisa. Algo tinha dado errado no plano.

Confinados dentro dos corpos de dois irmãos marroquinos de pele escura, Wells e Kuroda espremiam-se por sobre uma mesa em uma lanchonete movimentada de Casablanca. Na fachada do lado de fora, a forte luz do sol da tarde cozinhava a rua empoeirada. Dentro do estabelecimento escuro, o ar estava abafado e impregnado com ao fumaça cheirando a fruta que saíam de cachimbos d’água.

Todas as outras pessoas pareciam, de um modo ou de outro, com os novos hospedeiros dos agentes Marcados: pele e cabelos escuros e trajando vestes de deserto cujo estilo continuara o mesmo por centenas de anos.

Beliscando a comida em grande prato de metal entre eles, Wells entortou o nariz para o alimento.

— Eu seria capaz de matar por um hambúrguer de bacon agora — disse.

— Foi você que insistiu pra gente parecer com os nativos — retrucou Kuroda.

Wells bufou.

— Como de fizesse diferença agora. O Jakes se foi, o plano já era, e Collier está mais poderoso que nunca. — Ele lançou um olhar cansado para o resto do local, certificando-se de que nenhum outro cidadão os estava ouvindo. Ninguém dava a menor atenção. — Da próxima vez iremos direto ao Jordan.

— E quem disse que vai ter próxima vez? — retrucou Kuroda. Não temos nada, Wells. Todo nosso dinheiro se foi na guerra. E agora que a linha do tempo está toda bagunçada não tem como saber o que acontece em seguida. Tudo aquilo que você disse que ia acontecer? Já era. O futuro que a gente conhecia já era.

Franzindo a sobrancelha de raiva, Wells resmungou:

— Não quero saber. Não vou ficar parado e deixar Collier ganhar. — Ele pegou a mangueira de seu cachimbo d’água e levou o bocal até os lábios. — Um plano novo vai aparecer com o tempo — disse. Então inalou uma lufada de fumaça doce e fresca. Ele curtia o som de borbulho que vinha do cano enquanto fumava. Depois de exalar tudo, falou: — Felizmente, tempo é uma coisa que temos em abundância.

Kuroda levantou o bocal do seu cachimbo.

— É a única coisa que temos em abundância.

A mangueira do cachimbo de Wells tremulou e escapou de sua mão. O mesmo aconteceu com o de Kuroda. As mangueiras ondularam hipnoticamente, dançando entre os homens com a graça mortal de uma serpente. Então deram o bote para frente e enrolaram-se nos pescoços de Wells e Kuroda, apertando-se perigosamente.

Ao redor deles, os clientes na lanchonete levantaram-se de suas almofadas gritando “Djinn! Djinn¹!”. Em poucos segundos, o lugar estava vazio. Pratos de comida estavam ao chão e virados de cabeça para baixo, seus conteúdos esparramados sobre as almofadas de cetim. Cachimbos d’água jogados formavam poças no chão sujo.

Só sobraram os dois agentes marcados no local, contorcendo-se no chão enquanto as mangueiras enforcavam-nos.

Mesmo quando sua visão começou a falhar e perder o foco, Wells viu duas figuras metidas em vestes de deserto entrarem na lanchonete. Os recém-chegados viraram duas silhuetas devido à claridade do dia quando se aproximaram e avultaram-se por sobre Wells e Kuroda.

O mais alto perguntou ao outro:

— Tem certeza que são eles?

O companheiro respondeu:

— Tenho. São os dois últimos.

A mangueira ao redor do pescoço de Wells apertou-se mais do que ele acreditava possível. Ele sentiu a traquéia quebrando-se e a vértebra cervical esmagando-se enquanto tudo escurecia.

No seus últimos momentos, Wells sentiu o gosto da derrota. O futuro pelo qual ele lutara estava perdido. O mundo pertencia a Jordan Collier.

— Tem certeza que são eles? — perguntou Richard Tyler.

— Tenho — disse Gary Navarro, olhando os rostos dos Marcados que se contorciam sob seus pés. — São os dois últimos.

Wells e Kuroda nunca suspeitaram que Gary tinha descoberto tudo sobre seus disfarces através da mente de seu cúmplice, Jakes, antes de sua morte. Desde que haviam chegado em Tóquio, operários leais a Collier estavam esperando por eles.

Cada passo que eles deram desde então estava sendo observado. Nenhum deles deixara de ser vigiado por um momento sequer.

Os barulhos de estalos dos pescoços dos agentes fizeram Gary recuar. Apesar de tudo por que passara na Terra Prometida, testemunhar um assassinato em primeira mão ainda deixava-o enjoado.

— Acho que você deveria esperar lá fora — disse Richard ao perceber o desconforto de Gary.

Mentindo, envergonhado, ele respondeu:

— Estou bem. — Virando a cabeça para não olhar os agentes Marcados, perguntou a Richard: — Como o Jordan conseguiu tirá-lo do seu esconderijo para isso?

— Você não consegue ler minha mente para ver a resposta?

— Consigo — respondeu Gary. — Mas geralmente não faço isso com que está do meu lado.

— Eu não estou do lado de ninguém — rebateu Richard.

— Então por que está aqui?

Sons agonizantes – de algo molhado sendo esmagado e o sibilar de gases e líquidos – vindos dos corpos dos Marcados disseram a Gary que ele fizeram bem ao desviar o olhar. Ele não queria ver o que estava acontecendo, mas seus ouvidos diziam-lhe mais do que queria saber.

Olhando sem compaixão para o dano que causava com a telecinese, Richard disse:

— Só estou terminando o que comecei.

Dando um passo a frente, Richard tirou de suas vestes um frasco preenchido com um pó metálico. Ele removeu a tampa de borracha do recipiente e despejou o conteúdo nos corpos mortos.

Incapaz de segurar sua grande curiosidade, Gary virou-se e observou o pó caindo e pousando sobre os rostos grotescamente deformados doas agentes. A substância parecia ser absorvida pela carne dos mortos.

Momentos depois, uma luz fluorescente tomou seus olhos, e um fogo azul engolfou suas cabeças e espinhas. O nanopatógeno radioativo feito pelo doutor Kevin Burkhoff fez efeito rápido nos nanites dos Marcados, aniquilando para sempre suas identidades sintéticas. Como brinde, no fim, os corpos de seus hospedeiros queimaram numa lufada de cinzas.

Então o brilho diminuiu, e tudo o que sobrou foi a fumaça grossa de gordura humana, o odor de queimado de carne chamuscada e o calor norte-africano do meio-dia.

Gary acionou um pequeno dispositivo de comunicação implantado em sua orelha. Produzida pelo gênio devido à promicina Dalton Gibbs, a invenção permitia aos membros do movimento comunicarem-se de qualquer lugar sem que suas conversas fossem rastreadas ou interceptadas. Gary não sabia como isso funcionava, e também fora advertido de que não precisava saber.

Ele mexeu no transmissor.

— Jordan, é o Gary.

Prossiga.

            — Missão cumprida. Os dois últimos marcados estão mortos.

Ótimo. Volte para casa e diga ao Richard que eu agradeço.

            Virando-se para transmitir a gratidão de Jordan, Gary viu que Richard se fora, já havia desaparecido entre a multidão do lado de fora da lanchonete.

— Direi — respondeu Gary. — Te vejo quando voltar. — Ele desligou o aparelho e saiu da lanchonete pela saída na cozinha do fundo. Enquanto se misturava à multidão agitada na rua, ele lembrou-se do último pensamento de um dos homens que ajudara a matar: O mundo pertence à Jordan Collier.

Ele quase teve pena dos agentes Marcados mortos, porque agora via que eles nunca entenderam o que era a promicina. Eles não enxergavam sua premissa.

O mundo não pertencia a Jordan Collier.

Graças à promicina, o mundo pertencia a todos.

¹ é uma espécie de espírito que rege o destino de alguém ou de um lugar.

CINQUENTA

TOM ACORDOU na manhã mais clara e brilhante que já vira em toda a sua vida. Seus olhos levaram alguns segundos para se adaptar à claridade da consciência, após sair das sombrias profundezas do sono.

Outras sensações retornaram primeiro. A dureza da superfície sob suas costas. Odores de pinho e amônia. Fricção de álcool com um toque de limão.

Um arrepio espetou a pele de seus braços e pernas desnudos.

Ele não estava em sua própria cama, nem em sua casa.

Entrando imediatamente em estado de alerta total, ele se sentou e olhou para os lados, observando ao redor: uma sala circular com superfície de prisco branco e cromo cintilante. As altas paredes eram dominadas por janelas, através das quais apareciam paisagens exuberantes e paradisíacas de colinas, florestas e rios de águas brilhantes.

Três níveis de estações de trabalho esparsamente posicionadas o circundavam. Homens e mulheres imaculadamente bem arrumados em roupas e sapatos brancos estavam sentados, encarando Tom, enquanto interagiam com displays projetados holograficamente. O murmúrio baixo de conversas ressoava pela câmara hemisférica.

Acima de Tom, um domo transparente mostrava um céu límpido e tão perfeitamente azul que o fez sentir como se nunca tivesse visto o firmamento antes daquele momento.

– Bom – disse um homem. – Você acordou.

Dando meia-volta, Tom se viu frente a um homem de meia-idade, de cabelos castanhos curtos e grisalhos, magricelo e de um olhar enervante, que Tom rapidamente percebeu ser devido ao fato de suas íris serem tão negras quanto suas pupilas. Como as outras pessoas que trabalhavam na sala, ele vestia um longo jaleco branco de laboratório e calças brancas largas, que pareciam feitas de algodão, e sapatos brancos que agora Tom percebera serem sapatilhas de lona.

Tentando não parecer tão assustado quanto estava, Tom disse:

– Estou no futuro.

– Correto – respondeu o cientista.

Tom deu uma olhada na luminosidade matinal.

– Parece diferente do que eu me lembrava.

– Naturalmente.

Descendo da mesa metálica de cirurgia, Tom perguntou:

– O que é isto? Tem a ver com os Marcados?

– De maneira nenhuma – respondeu o cientista. – A ameaça agora está completamente neutralizada.

– De nada – olhando para cima e em volta, enquanto esfregava os braços nus para aquecê-los, Tom continuou. – Então, qual é o problema? Eu fiz tudo o que você me pediu para fazer. Isabelle está morta, os Marcados se foram, e a promicina se espalhou pelo globo – indicando com a cabeça o mundo verdejante lá fora, ele acrescentou: – Até o futuro parece mais brilhante. Então, o que diabos eu estou fazendo aqui?

O cientista adotou uma expressão grave e cruzou os braços atrás das costas.

– Tom, havia uma razão pela qual nós nunca havíamos dado promicina a você durante as visitas anteriores ao futuro. Mesmo quando nós o mandamos de volta para confrontar Isabelle, com todos os poderes dela, nós não injetamos a droga em você. Não imagina o porquê disto?

O medo jorrou ácido no estômago de Tom.

– Jordan sempre disse que jamais forçaria alguém a tomar promicina – disse Tom.

– Ele não, mas nós obviamente o fizemos – disse o cientista. – Mas não no seu caso. Nós achamos que havia entendido. Mas então você foi e tomou a dose assim mesmo.

Tom sentiu-se como se estivesse sendo levado a julgamento por salvar o mundo.

– Mas Kyle, meu filho, ele… Ele disse que a profecia no Livro Branco…

– Propaganda inimiga – disparou o cientista. – As mentiras foram disfarçadas de verdade o suficiente para parecerem plausíveis – o cientista deu um passo à frente e agarrou a camiseta de Tom. – Não importa o que aquele livro dizia, você nunca deveria ter se tornado promicina-positivo, Tom. Nunca.

Empurrando o cientista, Tom agitou os braços no limpo e ensolarado futuro e protestou:

– OK, eu tomei promicina! Se eu não tivesse tomado, o mundo seria destruído. Mas tudo parece bem para mim, então que diferença isto faz?

Havia medo nos olhos do cientista quando ele respondeu:

– Provavelmente toda, Tom… Toda.

Aqui termina a Primeira Saga dos 4400.

Comentário: “Under the Dome”.

Publicado: 23 de janeiro de 2012 em Sem categoria

Imagem

Acabei de terminar de ler “Under the Dome”, do aclamado Stephen King. Isso não é bem uma crítica, só um comentário com minha opinião a respeito. A história se passa em Chester’s Mill, uma pequena cidade nos EUA, que fica isolada do resto do mundo por uma redoma invisível que aparece subitamente. Ninguém sabe de onde veio, o que é ou como destruí-la. O governo americano tenta de tudo para salvar os habitantes da pequena cidade, mas é em vão. Ao mesmo tempo, a vida dentro de Chester’s Mill se complica cada vez mais quando um homem tirano parece tomar conta da cidade e fazer tudo para tê-la em suas mãos, crianças e alguns adultos têm visões de algo terrível que pode acontecer com a chegada do Halloween – ou até mesmo antes.

Enfim, é uma leitura que realmente vale a pena, com um final digno do nosso querido Stephen King. Recomendo e faço das palavras de Lee Child as minhas: “O melhor até agora do melhor desde sempre”.

Capítulo traduzido por Helena Padim.

Logo mais saem os dois últimos capítulos. Comentem!

QUARENTA E OITO

 

 

 

TOM SE JOGOU NO sofá de Diana com um suspiro de satisfação.

– Grande jantar – disse. – Quando você aprendeu a cozinhar assim?

– Eu não sou totalmente inútil na cozinha – ela protestou. – De qualquer forma, rigatoni à Fiorentina é relativamente fácil. É apenas massa, frango, espinafre tenro e fresco, e molho de vodca – segurando uma garrafa quase vazia de Pinotage, ela perguntou: – Mais vinho?

– Por favor – respondeu Tom, erguendo seu copo.

Ela o encheu com metade do que sobrara, e então entornou o resto do robusto vinho tinto em seu próprio copo longo. Um aroma peculiar de velas ainda exalava dos recém-apagados castiçais na mesa da sala de jantar, e a melodia suave do jazz saía das caixas de som ao lado da TV, quando Diana sentou-se na outra ponta do sofá em que Tom estava.

Acompanhando o ritmo da música com a cabeça, ele perguntou:

– O que é que estamos ouvindo?

– Ella Fitzgerald – ela respondeu.

Ele sorriu.

– Da coleção de Maia?

Ela retribuiu o sorriso.

– Como você adivinhou?

Os dois se recostaram, saboreando o vinho e ouvindo a voz doce e suave de Ella por algum tempo.

Em um intervalo entre as canções, Tom suspirou.

– Que dia! Eu te falei que Meghan me ligou hoje de manhã?

– Não – respondeu Diana. – O que ela disse?

Ele revirou os olhos e franziu a testa.

– Se o correio dos Estados Unidos ainda fizesse entregas na Terra Prometida, acho que ao invés de telefonar ela teria me mandado um cartão postal.

Com sincera compaixão, Diana perguntou:

– Ela te dispensou?

– Como se eu fosse um monte de lixo – respondeu Tom. – Ela na verdade tinha uma lista de motivos. Uma lista! Acredita?

Diana apoiou o cotovelo no encosto do sofá e deitou a cabeça no próprio ombro.

– Qual era o item número um?

– Ela tentou fazer com que parecesse um impasse – ele respondeu, olhando para as meias em seus pés. – A Segurança Nacional a avisou das revoltas e ordenou que acabasse com elas, e este provavelmente foi um dos motivos. O vídeo em que eu e você estamos atirando contra os soldados também não a agradou – olhando para Diana, ele continuou. – Mas acho que o que a irritou de verdade foi o fato de eu ter mentido para ela para poder te ajudar – sacudindo a mão num gesto de descaso, ele continuou: – De qualquer forma, acho que não teríamos futuro daqui para frente. Ela está por aí com um mandado de prisão contra mim, enquanto eu estou aqui, brincando de xerife na louca utopia de Jordan.

Levantando seu copo, Diana sugeriu:

– Me avise se precisar de um assistente de confiança, xerife.

– Pode se considerar convocada.

Enquanto Tom tomava mais um gole de vinho, Diana disse:

– Eu também tenho uma esquisitice para compartilhar com você – ela se arrastou para o meio do sofá, inclinou-se para a mesinha de centro, descansou ali seu copo e abriu a tampa de uma pequena caixa de madeira.

Dentro da caixinha forrada de veludo estava uma seringa com promicina, que sua filha lhe dera alguns dias antes.

Diante daquela visão, Tom levantou-se e foi se sentar no meio do sofá, ao lado de Diana, observando a caixa.

– Maia me entregou isto assim que eu acordei, depois da nossa missão em Yellowstone – disse Diana. – Ela diz que não voltará para casa enquanto eu não tomar esta dose. Quando eu contei que era imune, ela me disse que esta é uma nova fórmula, mais forte. Foi isso que ela te deu?

Ele concordou com a cabeça.

– Sim, acho que foi. Ela não estava brincando quando falou sobre ser mais potente. Isso me deu habilidade em menos de uma hora – lançando um olhar preocupado para Diana, ele perguntou: – Você não está pensando em tomar isto, está?

– Talvez – ela respondeu, mais defensivamente do que pretendia. – Quer dizer, eu quero que minha filha volte para casa, e se esta for a única maneira… – ela deixou a própria voz desaparecer, uma vez que estava certa de que Tom havia entendido. – Além do mais, você não pode dizer nada. Depois de todo o seu falatório contra a promicina, e de seu discurso sobre escolher o livre arbítrio ao invés da profecia, você injetou a agulha em seu próprio braço – franzindo a testa, fingindo desconfiança, ela apontou para ele e perguntou: – O que eu quero saber é como Maia conseguiu te convencer a tomar isto, se nem seu próprio filho havia conseguido? Por que você confiou mais na visão dela do que na dele?

Tom desviou o olhar. Diana imaginou engrenagens girando dentro da cabeça dele, enquanto decidia o que iria responder. Então ele respirou fundo, voltou a cabeça e olhou-a nos olhos.

– Eu fiz isto por você – ele respondeu. – Maia disse que se eu não tomasse a dose, teria que ver você morrer – a voz dele tremeu quando acrescentou: – Eu tomei a injeção para não te perder.

Um silêncio embaraçoso se fez entre os dois. Olhando nos olhos dele, Diana repentinamente percebeu o quão próximos ela e Tom estavam. Uma sensação carregada de romance, quase magnética, passou por eles. Enquanto se aproximavam vagarosamente, Diana de repente não se sentia mais triste por saber que Maia estava a milhas de distância e que não voltaria para casa aquela noite. Ela ficou esperando que Tom recuasse, mas ele parecia tão envolvido naquele momento quanto ela.

Ela piscou os olhos e recuou. Mesmo que eles não fossem mais agentes da NTAC e, portanto, não fossem mais parceiros, um senso de tabu persistia em sua mente, e aquela era uma linha que ela não estava preparada para cruzar… ainda.

Levantando-se e dando um passo para trás, ela retirou algumas mechas de cabelos dos olhos e sorriu polidamente para Tom.

– Bem – ela disse – está ficando tarde.

Ele olhou distraidamente para o relógio e aparentemente foi bem educado em não insistir que ainda não eram nem oito e meia da noite.

– Sim, acho que sim – ele respondeu, descansando seu copo de vinho sobre a mesa.

– Então, te vejo no Centro amanhã de manhã?

– Isso – ele disse. Então levantou-se e a seguiu até a porta, que ela abriu para ele. Os dois se atrapalharam um pouco quando ele passou por ela para sair, e então virou-se de volta.

– Boa noite – ele disse, com um sorriso simpático.

– Boa – ela respondeu, se inclinando para frente. Eles se cumprimentaram com dois beijinhos no rosto. Ele acenou levemente com a cabeça, e então saiu pelo corredor, em direção às escadas.

Ela começou a fechar a porta, e já havia quase terminado o movimento, quando rendeu-se a um impulso bobo. Silenciosamente, ela abriu novamente uma fresta para espiar Tom.

No mesmo instante, Tom diminuiu o passo e olhou para trás, por cima do próprio ombro, com o mesmo olhar de ansiosa consideração que ela lhe devolvia.

Invadida por uma alegria súbita, ela sorriu para ele.

Ele sorriu de volta, depois se virou e desapareceu pelas escadas abaixo.

Diana fechou a porta, virou-se e apoiou as costas nela, com um sorriso bobo no rosto. Ela não fazia ideia do que o dia seguinte iria trazer, mas já sabia duas coisas sobre ele.

Seria diferente.

E seria interessante.

Capítulos traduzidos por Helena Padim e Vinícius Fernandes.

QUARENTA E SEIS

 

A NOITE ANTERIOR havia ensinado uma coisa a Dennis Ryland: era sempre mais fácil entrar em uma guerra do que sair dela.

O apressado come cru, censurou a si próprio. Ele cambaleou pelos corredores do novo quartel-general da Haspelcorp, em Tacoma. O sol da manhã entrava pelas janelas da face sul, banhando o corredor com luz dourada. Aquilo o fez se contrair. Graças à pressa de escapar da Terra Prometida depois de escurecer, ele não havia dormido na noite anterior, e agora seus olhos coçavam. A fadiga fazia seus braços e suas pernas parecerem moles e fracos.

Ele estava louco por uma xícara de café. Quem sabe, um café com rum?

Entretanto, quando abriu a porta de seu escritório, foi recebido por rostos carrancudos e três homens de terno, armados e com distintivos.

– Deixe-me adivinhar – disse Dennis, com sarcasmo. – Vocês estão aqui para uma intervenção?

– É uma forma de definir isto – respondeu Miles Enright. O homem magro de meia-idade estava parado em frente à janela, com a luz do sol batendo em suas costas, e Dennis pôde ver seu próprio reflexo nos óculos escuros dele. Miles esboçou um sorriso frio. – Dennis – disse ele, indicando o homem à sua esquerda – este é o agente Brill, da Agência de Segurança Nacional – sobre o homem que estava à sua direita, falou: – Este é o agente especial Roel, do F.B.I.. E aquele perto da porta é o agente Wilson, da C.I.A.. Eles gostariam de lhe fazer algumas perguntas.

– Na verdade – disse o agente Roel – gostaríamos de prendê-lo primeiro, depois fazer algumas perguntas.

O agente Wilson acrescentou:

– O que pode ou não significar a sua cabeça sendo mantida por longos períodos embaixo d’água.

– Dependendo do quanto você cooperar – Brill concluiu com um sorriso ameaçador.

Roel deu um passo para frente.

– Sr. Ryland, vire-se de frente para a parede, por favor – Dennis fez o que o homem pediu, e continuou seguindo suas instruções. – Afaste as pernas, incline-se para frente, e apoie as palmas das mãos na parede.

O agente revistou Dennis rápida e minuciosamente, e então algemou o punho direito dele. O aço estava frio e cortou sua carne quase até o osso quando Roel colocou sua mão direita atrás de suas costas, forçando-o a permanecer ereto, e retirou sua mão esquerda da parede. Roel a segurou e, com movimentos rápidos e experientes, algemou Dennis completamente.

– Dennis Ryland – disse Roel – você foi acusado de comprometer a segurança nacional dos Estados Unidos da América, apropriar-se de recursos federais, ajudar e incentivar terroristas inimigos e trazer material radioativo ilegalmente para os Estados Unidos.

Miles interrompeu com sinais visíveis de sadismo:

– Ah, Dennis, e você está despedido – e para os homens de terno ele falou: – Tirem-no daqui.

A pior parte de ser conduzido algemado para fora do edifício Haspelcorp, na opinião de Dennis, não eram os olhares atônitos dos gerentes intermediários ou os subordinados que balançavam suas cabeças em desaprovação, ao terem o júbilo de vê-lo ser levado sob custódia. Não; para Dennis, a decepção maior daquela virada de mesa era que ele havia ficado sem seu café com rum.

Uma dúzia de carros – alguns com a marca da Polícia Estadual de Washington, outros sem qualquer inscrição – havia cercado a entrada principal do edifício. Dúzias de policiais uniformizados estavam de prontidão para assegurar que Dennis – com seus pés e costas doloridos e seu físico de servidor burocrático – não pudesse escapar. No alto, um par de helicópteros pretos perturbava o ar matinal com o ruído de seus poderosos rotores. Tamanha era a exibição de opressão que Dennis quase riu quando Roel o empurrou para dentro de um dos carros sem inscrição, tomando cuidado para não bater a cabeça do preso.

Isto é algo em que o governo é sempre bom, resmungou Dennis. O que eles fazem de melhor: armar um circo.

Cada janela da Haspelcorp que dava para a rua mostrava um ou mais rostos observando Dennis. Ele olhou para cima e sorriu para eles. Já havia visto aquele filme.

Ele voltaria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARENTA E SETE

KYLE ESTAVA PARADO DIANTE da porta fechada dos aposentos temporários de Jordan no Centro 4400. Ele sentiu Cassie aparecer atrás de si e sua respiração quente em seu pescoço. O perfume dela era delicado e floral.

— É agora — disse ela. — Ele está sozinho. Nunca teremos uma chance melhor.

A mão direita dele, suada, fechou-se em volta da pistola enfiada na cintura de suas calças jeans pela parte de trás. Com a mão esquerda, bateu na porta.

Do outro lado, Jordan respondeu:

— Entre.

Soltando a arma, Kyle abriu a porta e adentrou a sala de Jordan. A mobília era pouca, mas confortável.

Jordan estava parado diante de uma janela longa com vista para o belo jardim do Centro. Em uma mão, segurava um pires e na outra, uma xícara. Ele usava uma calça de linho larga e sem detalhes com uma camiseta no mesmo estilo. Seus pés calçavam sandálias de couro. Do lado de fora da janela, o sol punha-se atrás dos galhos exuberantes do Parque Interlaken.

Ele virou-se e recebeu Kyle com uma expressão serena.

— O que posso fazer por você, Kyle?

A voz de Cassie estava aguda de tanta raiva.

— Faça agora! Enquanto as mãos deles estão ocupadas.

Gotas de suor escorriam pelos cantos do rosto de Kyle enquanto ele esforçava-se para não reagir aos comandos malévolos de Cassie. Para Jordan, disse:

— Precisamos conversar.

Ela pôs-se entre os dois homens.

— O que está fazendo, Kyle? Não vai amarelar agora. Atire nele!

Jordan pousou o pires e a xícara no peitoril da janela.

— Tem algo errado com ela?

— Ela quer que eu te mate.

Cassie deu um tapa no rosto de Kyle. Ele piscou os olhos, chocado, e sua cabeça inclinou para o lado devido à pressão.

Parecendo confuso e preocupado, Jordan perguntou:

— Kyle, você está bem?

Ignorando o olhar cheio de ódio de sua musa obscura, ele respondeu:

— Ela acabou de me bater. — Ele tocou a bochecha formigante e sorriu. — Acho que não devia ter te contado.

Furioso, Cassie disparou:

— Nossa! Você acha?

Juntando as mãos e os dedos indicadores, Jordan começou a andar em frente à janela.

— Ela te contou porque quer que você mate?

— Ela disse que o Movimento está se desintegrando e que você não é líder que precisamos em tempos de guerra. Quer que eu assuma o comando.

Jordan assentiu. Parecia calmo e pensativo.

— Entendo — disse. Então ele olhou para Kyle. — Você trouxe uma arma ou ela quer que me mate com suas próprias mãos?

Não havia raiva ou sarcasmo na voz de Jordan. Sua estranha reação calma horrorizou Kyle e fez Cassie dar um sorrisinho maléfico. Kyle esticou a mão atrás de si e tirou a pistola.

— Trouxe isso — disse ele, mostrando-a para Jordan.

— Bom. Pelo menos será rápido. — Ele parou de andar, encarou Kyle e deixou os braços caírem ao lado do corpo. — Estou pronto.

— Bem, eu não estou — disse Kyle.

Com um movimento de seu polegar, soltou a trava da munição, que caiu da pistola e rolou pelo chão. Ele manteve a arma longe de Jordan enquanto colocava a trava de volta e o último cartucho caía. Então arremessou o revólver descarregado pela janela atrás do messias, que caiu em um monte de vidros quebrados no jardim abaixo.

Cassie olhava para ele.

— Isso foi burrice de sua parte, Kyle.

Jordan olhou pela janela de vidro quebrado, então para Kyle novamente enquanto perguntava:

— Por que você fez isso?

O jovem entendeu a reação de Cassie, mas a de Jordan o surpreendeu.

— O que está dizendo? Quer mesmo que eu atire em você?

— Se é isso que Cassie pediu para você fazer, então deve haver uma razão — respondeu Jordan. — Ela nunca se enganou antes.

— Escute ele, Kyle — disse Cassie com um sorrisinho presunçoso.

— Para tudo há uma primeira vez — retrucou Kyle. — Aquele navio que afundou, o ataque a Harbor Island… Foi Cassie que me mandou fazer essas coisas.

Ela deu um soco em seu estômago. Ele inclinou-se, incapaz de inalar o ar por alguns segundos. Enquanto o rapaz esforçava-se para ficar ereto, Cassie disse:

— Cale a boca e faça o que eu mando, Kyle. Tem uma faca na cozinha, na gaveta ao lado do fogão.

— Agora mesmo ela está me dizendo onde encontrar uma faca — disse ele. — Às vezes, ela me usa como fantoche. Ela fala, mas as palavras saem da minha boca.

Os pés dela acertaram em cheio a parte de trás do joelho dele, e ela o empurrou para frente. Ele caiu de joelhos em frente à Jordan.

— Você é fraco — disse Cassie, andando ao seu redor como um tubarão. — Você me dá náuseas.

Jordan disse:

— Kyle, se eu precisar morrer para que o Movimento continue, teremos que aceitar isso.

— Não — disse Kyle balançando a cabeça. — Acho que ela está mentindo, Jordan. Matar você não tem nada a ver com o Movimento.

Chegando um pouco mais perto, Jordan perguntou:

— Por que está dizendo isso?

— Algo que meu pai me disse. Ele disse que a promicina lhe deu poderes que parecem refletir quem ele é por dentro. Quem ele é de verdade. E eu pensei sobre o poder de outras pessoas. Shawn sempre estava tentando consertar o problema de outras pessoas; e agora ele cura. Heather queria ensinar as pessoas; e agora ela trás à tona seus talentos ocultos.

Jordan assentiu, aparentemente entendendo.

— E o que você queria, Kyle?

— Eu achei que queria respostas — respondeu. — Mas agora percebo que o que queria era atenção. Queria respeito. — Ele olhou para Cassie. — Mas não deste modo.

Ela enlaçou a mão em volta da garganta de Kyle e apertou.

— Você precisa ficar quieto agora.

Ele tentou tirar a mão dela, mas a moça era mais forte que ele. Cuspindo as palavras, ele disse:

— Você tem que detê-la.

Jordan colocou-se ao lado de Kyle. Cassie soltou-o e afastou-se um pouco. Jordan perguntou:

— O que está pedindo para eu fazer, Kyle?

— Quero que tire o meu poder — disse Kyle caindo de quatro, lutando para respirar. — Por favor.

Jordan cobriu a boca e suspirou pelo nariz. Levantando a mão, disse:

— Não sei, Kyle. A Cassie tem sido uma guia vital para o Movimento. Sem ela…

— Me escute — disse Kyle, olhando para cima. — Ela é mais que um pouco doida e não tem boas intenções. Mas o que me assusta é que ela é mais forte que eu. Qualquer dia desses, vai acabar me usando para fazer qualquer coisa que quiser. Eu estou implorando: não deixe que isso aconteça.

O pedido pareceu pegar Jordan de surpresa.

— Kyle, preciso ter certeza de que você sabe o que está pedindo. Se eu neutralizar seu poder, será para sempre. Você nunca o conseguirá de volta ou algum outro. Conseguirá viver com isso?

— Sim — respondeu o jovem. Lembrando-se de quando fora possuído por um agente dos Marcados anos antes, continuou: — Já fui usado uma vez por um maluco na minha cabeça que tentou te assassinar através de mim. Não deixarei que isso aconteça outra vez.

— Muito bem — disse Jordan. Ele colocou as mãos em cada lado da cabeça de Kyle. — Não vou mentir: isso vai doer.

— Tudo bem. Tem que doer.

Do outro lado da sala, Cassie encolheu-se como uma criança com medo e gritou:

— Kyle! Pare! Não faça isso! Podemos fazer um acordo!. Eu vou me comportar! Por favor…!

Uma pressão esmagadora envolveu o crânio de Kyle, e todos seus pensamentos ficaram vermelhos. Cassie gritou como um herege sendo queimado na fogueira. Seus gemidos agonizantes deram arrepios em Kyle, que chorava tanto de dor quanto de aflição.

Cassie cessou seus gemidos de dor por tempo suficiente para clamar:

— Kyle! Por favor! Eu te amo…

Ele fechou os olhos e sentiu o exorcismo dilacerante de Jordan através de sua mente, cortando cada traço de Cassie com a sutileza do bisturi de um cirurgião. Seu choro assustador reduziu-se a um soluçar fraco.

Enquanto Jordan o soltava, Kyle pensou sentir Cassie às suas costas. Ele virou a cabeça ao mesmo tempo em que a sensação ia desaparecendo…

Não havia ninguém ali…

Enxugando as lágrimas em seu rosto, ele pôs-se de pé e acenou para Jordan com a cabeça. Então andou a passos vacilantes na direção da porta. Enquanto abria-a, Jordan o chamou:

— Você está bem?

Kyle virou-se.

— Ela se foi.

— Não foi isso que perguntei.

Ele assentiu de leve.

— Eu sei.

Saiu e fechou a porta atrás de si.

Caminhando pelo corredor, Kyle sentiu a diferença em sua alma: Cassie estava morta; e ele, sozinho.

Em breve…

Publicado: 23 de novembro de 2011 em Contos

Tradução de Helena Padim e Vinícius Fernandes. Comentem!

QUARENTA E QUATRO

 

TODAS AS PARTES do corpo de Tom estavam doendo.

            Seus músculos doíam, e sua pele queimava com as abrasões. Cada batida do coração fazia sua cabeça pulsar em agonia, como se algo estivesse tentando arrancar seus olhos das órbitas. Ele estava deitado sobre uma comprida mesa de jantar e refletia sobre sua noite infeliz.

            Haviam se passado poucas horas desde que ele e Diana tinham retornado através de um segundo portal aberto por Kendall. Tom carregara sua parceira ferida de volta para o Centro 4400, onde os seguidores de Jordan a haviam levado imediatamente para ser atendida por Shawn.

            Até Tom se encontrar abandonado na enfermaria do Centro, ele não havia se dado conta de que ninguém perguntara se ele precisava de cuidados médicos. A culpa é toda minha, disse para si mesmo. É isto o que ganho por ser tão calmo.

            Ele escutara conversas sobre o ataque que havia acontecido ao Centro, mas que já havia terminado, e que os principais líderes da Terra Prometida ainda estavam vivos. Sem condição de percorrer o prédio, a fim de procurar Kyle ou Shawn, Tom havia conseguido dois tabletes de Vicodin em um armário da enfermaria, que estava destrancado. Então percorrera o corredor até um escritório privativo, onde achara uma garrafa de bourbon barato dentro da gaveta de uma escrivaninha. Vai servir perfeitamente, declarou.

            Na lanchonete, ele escolhera um copo de suco da estante de plástico que ficava ao lado da porta de entrada. Então se sentara a uma mesa, esmigalhara os dois tabletes de Vicodin com a coronha de sua pistola, jogara o pó no copo, e entornara ali o que ele achou que fosse uma dose tripla da bebida que tomara emprestada. Ele mexera tudo com o indicador, até que parecesse bem misturado, e então bebera em um único e longo gole.

            Alguns minutos depois, a dor que percorria seu corpo havia diminuído… um pouquinho.

            O alívio era quase suficiente para que Tom adormecesse, mas toda vez que ele tentava abandonar o estado consciente, algum som aleatório, como um tiro distante ou uma explosão, ou passos ecoando em algum corredor próximo, o trazia de volta ao estado de completo despertamento. Em uma ocasião havia sido um odor de enxofre, como um fósforo riscado, o que fez seus olhos se abrirem.

            Outro sonho recém-começado acabara de escapar dele ao ouvir a porta da lanchonete se abrir com um grande estalo metálico. Passos superpostos ecoaram pelo refeitório fracamente iluminado.

            Com grande esforço, Tom ergueu-se da mesa até se sentar ereto, as pernas penduradas na ponta desta, encarando seus visitantes: Jordan, Shawn e Kyle.

            Ao menos, ele estava quase certo de que eram eles. A bebida e o medicamento não haviam contribuído muito para aplacar seu sofrimento, mas fizeram um excelente trabalho no sentido de borrar sua visão.

            — Tio Tommy — disse Shawn, sua voz parecendo estranhamente profunda, lenta e ressoante. Ele estendeu o braço e apertou o ombro de Tom com a mão. — Você está bem? Com está se sentindo?

            — Como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão cheio de bebidas falsificadas — respondeu Tom, falando enrolado. Ele se inclinou para frente.

            Shawn o amparou.

            — Respire fundo — disse o jovem.

            Tom sentiu um calor glorioso tomá-lo por dentro, e conforme ele inspirava, sua mente e sua visão se clareavam. Expirando, sentiu a dor se esvair, como se a tivesse soprado para fora de si.

            — Melhorou? — perguntou Shawn.

            Tom deu um ligeiro sorriso.

            — Muito. — Ele puxou o sobrinho para si e lhe deu um abraço apertado. — É bom ver você.

            — É bom ser visto — disse Shawn. Quando Tom o largou, Shawn informou: — Não se preocupe com Diana. Eu a curei há algumas horas. Ela está descansando lá em cima.

            — Obrigado — respondeu Tom, deixando-o se afastar.

            Kyle deu um passo à frente, tomando o lugar de Shawn.

            — E aí, pai? — disse ele, claramente lutando contra uma inundação de poderosas emoções que ainda o faziam sentir-se acanhado na presença de outras pessoas.

            — Vem cá — chamou Tom, passando os braços em volta do filho e o abraçando com muita força. — Pensei que nunca mais iria ver você. Pensei que eu… — Lutando com o esforço que fazia para expressar seus sentimentos, ele avaliou a ironia de Kyle ter herdado aquele seu jeito. Determinado a modificá-lo, Tom piscou por entre suas lágrimas e se forçou a continuar. — Pensei que nunca mais iria ver você. Não para dizer uma última vez… Que eu te amo.

            — Também te amo, pai.

            Shawn colocou uma das mãos nas costas de Kyle e a outra no ombro de Tom, e eles permaneceram juntos por alguns momentos, em silêncio. Aquilo fez bem para Tom. Eles se sentiam como uma família novamente.

            Então Jordan teve que estragar tudo, ao falar:

            — Desculpem interromper…

            — Então não interrompa — respondeu Tom.

            — Eu só queria lhe dar as boas vindas ao clube dos p-positivos, Tom. Todos entendemos que este foi um grande passo para você.

            Tom soltou Kyle e Shawn, ficou de pé e deu um passo na direção de Jordan.

            — Eu não fiz isso pelo seu Movimento, ou para cumprir uma profecia mal fabricada.

            — Não faz diferença para mim o porquê de você ter tomado a dose — disse Jordan. — O que importa é que você o fez. Você literalmente salvou o mundo, Tom.

            Era difícil para Tom discutir com um homem que o glorificava excessivamente. Após alguns segundos em que abrira e fechara a boca em um silêncio frustrado, Tom disse:

            — Talvez. Mas isto não quer dizer que eu estou do seu lado, Jordan. Ou do lado do governo.

            Jordan deu de ombros.

            — Ninguém disse que você tem que escolher um lado, Tom. É meu desejo que um dia, em breve, não exista mais “lado” nenhum. Apenas as pessoas, vivendo em paz.

            Ele quase teve que rir da singeleza da visão utópica de Jordan sobre o futuro da humanidade.

            — Sim, claro. Você vai pagar uma coca-cola para o mundo e todos cantarão em harmonia. Exceto pelos idiotas e pelos asquerosos que tentarão usar seus poderes para enriquecer, ou ferir as pessoas, ou controlar tudo.

            — É verdade, sempre haverá aqueles entre nós cujas causas não são nada nobres — respondeu Jordan. — Que representam uma ameaça para nós.

            Concordando com a cabeça, Tom disse:

            — É com isso que me preocupo, Jordan: me certificar de que pessoas como você…

            — Pessoas como nós — corrigiu Jordan.

            Repreendido, Tom franziu a testa.

            — Certificar-me de que pessoas como nós obedeçam às leis e não saiam por aí ferindo as pessoas.

            — Bom — disse Jordan. —, porque é exatamente do que a Terra Prometida irá precisar: alguém justo. Alguém confiável, que nos mantenha todos honestos. — Ele estendeu sua mão aberta. — E para isto, Tom… Estou contente de que seja você.

            Tom olhou para a mão de Jordan e percebeu que ele estava oferecendo mais do que uma trégua, mais do que simplesmente amizade. O que Jordan oferecia era uma parceria em um novo entendimento, e um papel na preparação do mundo que estava por vir. Era mais responsabilidade do que Tom jamais quisera para sua vida.

            Ele estendeu o braço e apertou a mão de Jordan.

            Jordan sorriu, então largou a mão de Tom e caminhou em direção à porta.

            — Shawn? Kyle? Temos muito trabalho para fazer hoje.

            Shawn virou-se para se juntar a Jordan, mas Kyle permaneceu ao lado de Tom e disse:

            — Eu já vou. Preciso de mais alguns minutos com meu pai.

            Com um sacudir de cabeça e um sorriso, Jordan sinalizou seu entendimento. Então ele e Shawn caminharam rapidamente para fora da loja, cochichando assuntos aparentemente urgentes.

            Quando a porta se fechou atrás deles, Kyle lançou um olhar esperançoso na direção de seu pai.

            — Pai, posso te fazer uma pergunta pessoal?

            — Claro — respondeu Tom.

            — Eu sei que você era contra tomar promicina, mas agora que o fez… Como se sente?

            A pergunta fez Tom parar e pensar por alguns segundos. Agora que se livrara da dor que havia ocupado seus pensamentos pelas últimas horas, estava realmente apto a avaliar a si próprio, por dentro e por fora.

            Ele sentiu o canto de sua boca se erguer em um meio sorriso de contentamento.

            — Eu me sinto bem — admitiu. — Como se fosse eu mesmo, só que com um algo a mais. — Olhando para Kyle, acrescentou: — É quase como se a promicina soubesse quem e o que eu sou por dentro, e então amplificasse isso — Balançou a cabeça. — Faz algum sentido para você?

            — Muito — respondeu Kyle. — Diana disse que você estava fazendo campos de força. — Diante da resposta afirmativa da cabeça de Tom, Kyle continuou: — Faz todo sentido. Você sempre se preocupou em proteger as pessoas, então tem um poder que o deixa defender a si e aos outros. — Ele olhou em outra direção, e então acrescentou: — Você tem outros poderes, também. Sabia disto?

            Inclinando-se para frente e ouvindo com todo o interesse, Tom perguntou:

            — Que tipo de poderes?

            Kyle virou-se, como se estivesse escutando outra pessoa. Tom se perguntou se a habilidade peculiar de seu filho incluía escutar vozes.

            — Você será imune aos efeitos do controle da mente — disse Kyle. — Não será lido por telepatas ou mentalmente atacado. Qualquer poder que funcione afetando as mentes dos outros não terá mais efeito em você. — Ele sorriu. — Bem legal, né?

            — É, isso parece bem útil — respondeu Tom, comemorando secretamente, dentro de si, sua recém descoberta sensação de invulnerabilidade. Ele e Kyle começaram a caminhar em direção à porta para sair da lanchonete.

            — Você é como aquela música de Simon e Garfunkel que a mamãe ouvia o tempo todo — disse Kyle. — Você sabe qual é: “I Am a Rock”.

            Tom riu, mas em seu coração ele sentiu que Kyle estava mais certo do que pensava. Ouvindo a canção em sua mente, Tom soube o que para ele havia se tornado figurativamente verdade: ele era uma ilha.

Diana abriu os olhos e viu Maia de pé, ao lado dela.

            — Oi, mamãe — disse Maia. Ela parecia recém saída de um banho. Seu cabelo estava molhado, e seus cachos naturais estavam se refazendo, a despeito de seus esforços para mantê-los esticados. Ela vestia roupas limpas: calças jeans baggy, tênis branco-e-rosa, e uma camiseta emprestada do Rush que era pelo menos dois tamanhos maior do que o dela.

            Sentada no sofá, Diana estendeu o braço, gentilmente pegou a mão de Maia nas suas, e sorriu.

            — Oi, querida. Você está bem?

            Maia concordou com a cabeça.

            — A luta acabou — disse ela. Com perfeita certeza, acrescentou: — Os militares não irão tentar vir aqui novamente.

            — Isso é bom, eu acho — respondeu Diana.

            Ela olhou em volta, pelo pequeno escritório, para o qual o pessoal de Shawn a havia trazido depois que Tom a carregara de volta de Yellowstone pelo portal. A maior parte do que havia acontecido depois era um borrão. Diana lembrava-se de Shawn aparecendo na porta e olhando para ela por vários segundos, mas não havia de fato colocado as mãos sobre ela. Mesmo assim, sua dor havia desaparecido, deixando apenas a exaustão, e ela havia desmaiado.

            Olhando para Diana com um misto de pesar e preocupação, Maia perguntou:

            — Você está bem?

            Diana concordou com a cabeça.

            — Sim, querida, eu estou bem. — Ela afastou um cacho rebelde de cabelos úmidos que estava sobre os olhos de Maia e o colocou por detrás da orelha da menina. – Você foi muito corajosa hoje. — Repassando na memória a discussão que haviam tido mais cedo, ela olhou para o chão. — Eu sei que briguei um bocado com você. E eu não parei para pensar que talvez você já esteja crescida o suficiente para tomar grandes decisões por si mesma. — Reunindo sua coragem, ela olhou a filha nos olhos. — É por isso que eu tenho que te pedir desculpas, Maia. Não é fácil, para mim, admitir que você está começando a crescer, e que talvez você não precise mais de mim como precisava antes.

            Maia abraçou Diana e deitou a cabeça no ombro dela. A fragrância do sabonete ainda estava nela.

            — Eu nunca disse que não preciso de você. Eu só quero ter você ao meu lado, é isso.

            Afastando-a e segurando-a com os braços esticados, Diana disse:

            — Maia, eu sempre vou estar ao seu lado, mesmo quando não concordar com você. Ser mãe é exatamente isso. — Puxando Maia novamente para ela, continuou: — E ser uma família é permanecer juntos. Agora que a luta acabou, você vai finalmente voltar para casa?

            Soltando-se do suave abraço de Diana, Maia recuou meio passo e permaneceu em pé, os braços estendidos ao lado do corpo, o queixo franzido.

            — Ainda não — disse ela, parecendo ligeiramente envergonhada. Do bolso frontal de suas calças jeans largas, ela tirou uma seringa com uma agulha hipodérmica tampada, e cheia de um líquido dourado luminoso, que Diana soube na hora que era promicina. — Não até que você tome a dose.

            Diana olhou espantada para a seringa na mão da menina. Anos antes, as primeiras experiências do Dr. Kevin Burkhoff com promicina, que tiveram Diana como cobaia inconsciente, tinham desenvolvido nela uma resistência natural à substância, e Maia sabia disto. Lançando um olhar confuso para a garota, Diana disse:

            — Mas querida… Eu sou imune à promicina.

            Usando o tom monótono e misterioso que ela costumava reservar para suas profecias precognitivas, Maia respondeu:

            — Por enquanto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUARETA E CINCO

A APENAS DOIS MINUTOS da meia noite, Tom foi o primeiro dos agentes da NTAC que chegou ao escritório de Shawn. Tom estava pronto para ir para casa quando a mensagem de que alguém com autoridade para falar em nome dos Estados Unidos estava ao telefone chegou até ele.

— O que está havendo? — perguntou enquanto adentrava a sala e via Shawn e Jordan esperando atrás de uma grande mesa.

— Pediram para que esperássemos até que todos estivessem aqui.

Impaciente para saber mais, Tom perguntou:

— Quem pediu?

Jordan levantou dois dedos e colocou-os em frente aos lábios num gesto que o mandava ficar em silêncio, e Tom sentiu vontade de chutá-lo entre as pernas.

A porta abriu-se atrás dele, e Diana entrou seguida por Jed e Marco. Ela perguntou:

— O que está havendo?

— Engraçado — respondeu Jordan, apontando para Tom. — É exatamente o que ele disse. — Mas antes que Tom pudesse mandá-lo calar a boca e continuar, Jordan inclinou-se e apertou um comando no teclado do computador.

Um monitor de tela plana postado na parede à direita de Tom ligou-se com uma imagem do secretário da Segurança Doméstica, um homem de rosto redondo e careca chamado Andréas Ziccardi.

— Sr. Secretário — disse Jordan. —, eles chegaram.

Estou vendo, Sr. Collier — disse Ziccardi. Direcionando-se aos agentes da NTAC, ele continuou: — Vocês quatro tiveram um dia longo pra burro, não tiveram?

Os outros olharam para Tom. Como era o agente mais qualificado da equipe, a responsabilidade de responder ao Departamento de Segurança Doméstica estava em suas mãos.

— Sim, senhor — disse ele.

O fantasma de um sorriso iluminou o semblante gordo de Ziccardi.

Vocês realmente pensaram que eu ligaria para desejar-lhes um bom dia em meio a uma zona de guerra?

— Não, senhor — respondeu Tom, prevendo a armadilha que Ziccardi tentava implantar nele. — Isso nem me passou pela cabeça.

A expressão de Ziccardi tornou-se furiosa.

Claro que não passou, Baldwin! Vocês quatro tinham ordens diretas para embarcarem no avião e reportarem-se em D.C para suas novas tarefas. No minuto que saíram o jato, foram oficialmente declarados como desaparecidos.

Incapaz de reprimir sua ira, Tom retrucou:

— É, pois isso é o que importa aqui. Não precisa me agradecer por salvar o planeta em Yellowstone, por falar nisso. É tudo parte do serviço, correto? Afinal de contas, você não pode deixar uma coisinha com o fim do mundo impedi-lo de me dar umas palmadas na mão por ter desaparecido.

O secretário franziu o cenho e balançou a cabeça.

Ah, sim. Eu ouvi sobre sua façanha em Yellowstone. Alguns turistas até têm um vídeo dela. Não sabia disso, sabia, Baldwin? — Ele levantou um pedaço de papel selado com fita adesiva. — Sabe o que é isso? É uma autorização federal para sua prisão, por ter auto-injetado promicina ilegalmente. — Ele tremeu, como se estivesse tentando controlar sua fúria. — Eu poderia ter consertado isso. E se tivesse a ver com a filha da Skouris, poderia até te perdoar. Mas adivinha o que alguém gravou hoje. — Com um sorriso fraco, acrescentou: — Deixe-me mostrar-lhes.

O secretário digitou alguns comandos em seu computador. Segundos depois uma imagem trêmula e embaçada substituiu-o na tela. Era uma gravação feita amadora que fazia uso de várias lentes do zoom, o que indicava que a pessoa que gravara estivera no topo de um prédio.

A cena que se desenrolava era uma de que Tom se lembrava vividamente: o confronto dele e de Diana com os soldados do lado de fora da Biblioteca Beacon Hill. O vídeo mostrava o soldado atirando na criança p-positiva e na família dela, assim como Diana matando três dos militares. Também mostrava claramente Tom dando um tiro fatal no quarto soldado.

Enquanto o vídeo passava, documentou Tom e Diana afastando-se da carnificina e olhando para a câmera do observador – fazendo seus rostos inconfundivelmente reconhecidos.

Tom baixou sua cabeça, envergonhado, quando o vídeo terminou.

Ziccardi reapareceu no monitor.

Alguém vai tentar me dizer que não eram vocês?

Antes que Tom pudesse responder, Diana gritou:

— E você vai tentar me dizer que aqueles soldados não mataram crianças a sangue frio? Simplesmente os apagaram, civis inocentes em plena luz do dia! Até onde eu saiba, isso se chama crime de guerra!

E se vocês quisessem prestar queixas contra aqueles homens, o caso teria sido investigado por meios adequados. — disse Ziccardi. — Mas ao invés disso, atacaram militares americanos desinformados em território dos Estados Unidos. No segundo que fizeram isso, tornaram-se combatentes inimigos. Juntamente com seus dois cúmplices, foram declarados inimigos dos Estados Unidos da América. Se qualquer um de vocês pisar em território americano outra vez, passarão o resto de suas vidas na Prisão de Guantánamo, numa cela sem janelas — lançou um olhar penetrante a Jed. —, assim como sua cópia de carbono.

Ele inclinou-se tão próximo de sua web cam que sua imagem distorcida como uma caricatura grotesca e acrescentou:

Aproveitem sua estadia na Terra Prometida. Porque no dia que qualquer um de vocês pisar um centímetro que seja fora dela, estão ferrados comigo.

A tela ficou preta. Um silêncio atordoante tomou conta do local.

Os agentes da NTAC viraram-se de uma só vez quando Jordan pigarreou.

— Avisem-me se um de vocês estiver procurando um emprego.

Happy Halloween!

Publicado: 31 de outubro de 2011 em Contos

Acho que o Halloween é a minha data preferida. Eu adoro o clima desse dia, as festas e tudo mais. =)

E para comemorar, escrevi um conto meio que correndo agora antes de ir para a faculdade. Leiam e comentem, por favor!

Em breve, teremos mais capítulo de The 4400.

CONTO DE HALLOWEEN

Por Vinícius Fernandes

        Naquele 31 de outubro, do ano de 2011, o dia amanheceu frio e nublado, com uma garoa irritante. Seria ótimo se eu pudesse ficar em casa e dormir até tarde, pois o barulho da chuva e o conforto da minha cama eram bem convidativos. No entanto, tinha que levantar-me às seis da manhã e ir para a faculdade. Não devia ter feito isso.

            Coisas estranhas aconteceram. Primeiro, ao chegar ao campus, vi que estava mais vazio do que o normal, talvez devido ao tempo frio. Segundo, tudo parecia mais sombrio, as pessoas pareciam mais tristes e, por um momento, um arrepio percorreu minha espinha. De repente, lembrara-me da lenda que rondava a faculdade: a de que fora construída no mesmo terreno em que funcionava um centro espírita há muito tempo.

            Subi para a sala de aula e encontrei dois amigos lá. Achei que fosse me atrasar, mas exceto pelos três, não havia mais ninguém no recinto, nem mesmo o professor.

            — E aí, galera? — cumprimentei. — Achei que fosse me atrasar.

            — E se atrasou, Pedro — respondeu Júlio. — Mas pelo visto o professor também.

            — Hoje o dia está muito estranho — comentou Raquel, uma outra amiga. — Estou me sentindo estranha desde que acordei, e essa faculdade está tão… diferente.

            Neste mesmo instante a porta da sala, que eu deixara aberta, bateu com um estrondo, fazendo-nos pular de susto. Não deu tempo nem de dizermos uma palavra sequer, um grito de terror ecoou pelos corredores até nossos ouvidos. Em seguida, o alarme de incêndio disparou, e uma campainha estridente espalhou seu som por todo o prédio.

            — Acho que precisamos sair — disse eu. — Aconteceu alguma coisa.

            Raquel, que tinha medo de quase tudo, segurou o braço de Júlio e saiu da sala atrás de mim. Ao pisarmos no corredor, as janelas na parede à frente também fecharam-se com estrondo, e eu imaginei o quão resistente aqueles vidros eram para não quebrarem-se com o impacto. Era como se o prédio estivesse fechando-se sozinho e querendo que a gente ficasse lá dentro.

            Olhando através do vidro vi que o dia tornara-se mais nublado, e o céu parecia estar anoitecendo precocemente. Chegamos ao final do corredor e viramos para o próximo quando…

            — Meu Deus! — exclamei ao mesmo tempo em que Raquel soltava um grito horrorizado, e o alarme de incêndio parava.

            À nossa frente, caída no chão, estava uma garota. Sua cabeça estava virada para trás. Suas pernas formavam um ângulo torto impossível. Sangue saía de sua boca.

            — Merda! — exclamou Júlio. — Merda! Vamos dar o fora daqui! Alguém matou essa menina!

            Viramos e começamos a correr para a escada de emergência. Descemos vários degraus correndo até o térreo. No entanto, a porta de saída para o andar térreo parecia estar emperrada. Forçamos para tentar abri-la, mas foi inútil.

            — Vamos sair no primeiro andar e descermos pela escada comum até o térreo para sairmos.

            Enquanto subíamos os degraus, ouvimos mais gritos. De pavor. De tortura. De dor. Em seguida, vários baques secos, como se coisas pesadas estivessem sendo jogadas ao chão.

            Raquel paralisou, e só seguimos porque Júlio a puxou. Enfim tínhamos chegado à saída do primeiro andar e íamos abrir a porta quando…

            PAM!

            Algo grande fora arremessado contra a porta do lado de fora. Estacamos no lugar e Raquel gritou em meio às lágrimas.

            — Alguém precisa ligar para a polícia!

            Acenei para Júlio e começamos a subir mais um andar. O que quer que estivesse fazendo aquilo estava no primeiro andar, então era melhor subir mais um. Tirei o telefone do bolso e quando olhei, o joguei para longe. O aparelho rolou pela escada.

            — Por que você fez isso? — indagou Júlio, assustado.

            Olhei para ele, e seu olhar me dizia que eu estava branco. Respirei com dificuldade, sentindo o suor começando a escorrer pela minha testa.

            — Havia uma foto no meu celular — respondi ofegante.

            — E o que tem isso? — perguntou Júlio.

            — Era um foto da minha mãe.

            Minha mãe tinha morrido há cinco anos, e a foto no celular… Ela estava dentro do caixão.

            Os celulares de Júlio e de Raquel estavam sem sinal, coisa que raramente acontecia no campus, então não podemos ligar para a polícia. Eu me acalmei um pouco, tentando não pensar na foto que aparecera no meu telefone, e subimos para o próximo andar. Saímos no corredor, as janelas e portas da sala estavam todas fechadas, e a escuridão parecia ter aumentado bastante.

            — Merda! — exclamou Júlio, olhando mais para frente.

            Eu acompanhei seu olhar e vi que, na curva do corredor, havia mais um corpo. Aproximamo-nos cautelosamente e vimos que estava com o pescoço e pernas igual ao outro, no entanto, esse era um homem, e seus olhos estavam arregalados como se sua última visão fosse a de algo terrível.

            Com medo e ofegantes, corremos até a escada e começamos a descer quando Raquel começou a gritar novamente. A garota apertou-se ainda mais contra Júlio e olhava aterrorizada enquanto gritava e apontava para trás, para a direção de onde tínhamos vindo. Olhei e não vi nada.

            — Calma, Raquel! Nós já estamos saindo daqui, tudo vai dar certo!

            — O meu avô! — exclamou a moça. — Ele está ali! Está vindo!

            Júlio e eu trocamos um olhar. Todos sabíamos que o avô de Raquel morrera quando ela tinha cinco anos de idade.

            — Vem! — gritou Raquel, puxando Júlio e eu.

            Começamos a correr pela escada que levava ao térreo, mas dessa vez foi Júlio quem parou abruptamente e arregalou os olhos para algo invisível mais para baixo. Ele tentou virar-se e voltar correndo para cima, mas eu o segurei.

            — O que foi?

            — A minha tia que morreu semana passada — disse ele, baixinho. — Está ali embaixo.

            Mais uma vez, olhei eu não vi nada.

            — Não tem anda ali. Vamos descer.

            Puxei meus amigos para baixo, mas estaquei ao ouvir uma voz suave que não ouvia há muito tempo vindo do topo da escada:

            — Pedro…

            Virei-me lentamente e olhei para o alto. Havia uma mulher com um vestido verde de seda parada ali. Ela me olhava sorrindo e estendia uma mão para mim. Com a escuridão que assolara o prédio ficava difícil ver com clareza, mas aquela voz… era impossível não reconhecer. Era a voz da mulher na foto no meu celular. Era minha mãe. Que morrera há cinco anos.

            Senti um vazio no estômago e um arrepio pelo corpo. Não sabia o que fazer, então simplesmente fiquei parado enquanto minha mãe falecida descia a escada lentamente, os pés descalços tocando os degraus frios de mármore.

            Raquel, desesperada, correu pela escada e desapareceu de vista. Júlio voltou correndo para cima, passou ao lado de minha mãe como se não a tivesse visto e também desapareceu pelo corredor.

            A mão de minha mãe tocou meu ombro, e foi como se o dia tivesse ficado ainda mais frio. Isso me despertou, desvencilhei-me dela e corri escada abaixo. Rapidamente, cheguei ao térreo. O pavor era tanto que eu praticamente ignorei todos os corpos mortos pelo chão, corpos que tinham os pescoços torcidos e braços e pernas quebradas dobrando-se em ângulos assustadores. Só queria sair daquele pesadelo horrível que estava vivendo. Enquanto corria, arrisquei olhar para trás e vi minha mãe caminhando tranquilamente por entre os mortos. E isso foi o suficiente para me fazer tropeçar em um corpo e cair. Meu rosto atingiu o chão ao lado do morto. Aquilo me deixou mais horrorizado: era Raquel que estava caída, os olhos abertos e a expressão de terror, o sangue escorrendo pela boca…

            Uma mão branca apareceu ao meu lado, olhei para cima e vi minha mãe oferecendo-se para me ajudar. Pulei para trás, para longe da defunta, e arrastei-me de costas pelo chão por alguns instantes. A mulher de verde apenas ficou observando. Levantei-me e corri para a saída. As portas de vidro estavam fechadas, tentei abri-las, mas foi inútil. Vi pelo reflexo que minha mãe aproximava-se lentamente, só que dessa vez o terror foi maior: o rosto dela, outrora bonito e reconfortante para mim, agora era uma imagem em decomposição, carne, osso, sangue e terra formavam suas feições, como as de um zumbi. Pisquei uma vez e quando abri os olhos, vi que ela agora estava ao meu lado. Sua mão fria e também em decomposição segurou meu ombro e forçou-me a virar para ela. Senti seu hálito (cheirava a menta, sua bala preferida) no momento em que se aproximou e colocou uma mão em cada lado do meu rosto. Parecia que ia me dar um beijo de boa noite como fazia quando eu era criança. Eu gritei, apavorado, mas meu grito foi calado quando suas mãos torceram meu pescoço, e eu caí morto ao chão.

Parte Três

As Promessas

QUARENTA E TRÊS

24 DE JULHO DE 2008

8:43 PM

O PÔR-DE-SOL ACONTECERIA em poucos minutos. O céu acima da Terra Prometida adquirira um tom azul escuro a leste, e o horizonte queimava num vermelho escarlate. Partes da cidade ainda estavam em chamas, mas Jordan sabia que em breve seu povo controlaria o fogo. A fumaça elevava-se dos bairros que haviam sido destruídos, tanto por armas quanto por soldados com poderes devastadores.

            Observando-o e transmitindo – com sua habilidade de promicina – tudo o que via e ouvia para todos os cabos e freqüência na Terra, estava a jovem israelense chamada Ilana Teitelbaum. Era uma garota bonita com cabelos castanhos lisos e longos. Jordan tentava não ficar extasiado pelos seus olhos escuros cheios de vida enquanto os encarava e mandava sua mensagem para o mundo.

            — Tudo ao meu redor — disse ele, andando em volta do telhado do Centro 4400 enquanto Ilana girava para mantê-lo em vista. — é a conseqüência do ataque de hoje cometido pelas Forças Armadas Americanas contra a Terra Prometida. Como prometi que faríamos, defendemo-nos. — Ele deu uma rápida olhada para a torre em chamas e em ruínas onde a Fundação Collier tinha sido até aquela manhã. — Como podem ver, também tivemos perdas, e a nossa cidade sofreu grande dano. Mas nossas casualidades são pequenas se comparadas com as das forças que nos atacaram.

            Ele conduziu Ilana mais para frente e direcionou a visão dela para além da beira do telhado, para o estacionamento e a entrada principal do Centro.

            — Até mesmo agora, os feridos da Terra Prometida, tanto p-positivos quanto p-negativos, sabem que podem vim até nós e serem curados. Diferentemente dos soldados que saíram daqui hoje, mutilados ou gravemente feridos, amanhã nosso povo estará recuperado e inteiro.

            Ilana deu um passo para trás, mas continuou olhando-lhe enquanto ele sinalizava para ela virar-se a sudoeste.

            — Pela manhã, os incêndios pela Terra Prometida estarão apagados. Nosso povo terá água limpa, eletricidade estável, e remoção de esgoto confiável… tudo de graça. Em uma semana, teremos reconstruído nossas estradas, até mesmo algumas rodovias que os militares destruíram.

            Ele parou de dar voltas e ficou de costas para o sol poente, sabendo instintivamente que estava sendo contornado por uma áurea de luz. Toda frequência de vídeo, regular ou de alta definição, estava transmitindo a visão de Ilana; aqueles que não estivessem vendo ao vivo, com certeza veriam na Internet nos dias e semanas que seguiriam.

O momento tinha chegado: era hora de mostrar sua carta. Ele sorriu.

— Os Estados Unidos, por outro lado, terminaram miseravelmente neste conflito. Seus satélites militares foram destruídos, impossibilitando-se de promover a guerra e prevenirem-se de serem atacados. Porque suas inúmeras agências de inteligência “hackearam” vários satélites civis, sua destruição cortou serviço de telefone móvel de grande parte da Carolina do Norte, impossibilitando a capacidade de transmissão, e derrubando seu sistema de GPS. Demorará muitos anos para que a América restaure tais serviços.

Ele cruzou as mãos à sua frente e continuou:

— Levando em consideração que este tipo de dano à infra-estrutura nacional logo após o terremoto que devastou grande parte da Califórnia, está é uma causa preocupante não só para americanos, mas para todos os povos no globo que temem as consequências mundiais de um colapso nos Estados Unidos.

“Tal tragédia não pode acontecer. É por isso que estou aqui hoje para dizer que eu e todos os cidadãos da Terra Prometida não temos rancor do povo americano ou seus aliados. Vocês não têm que enfrentar estes tempos sombrios e desafios assustadores sozinhos”.

Conscientemente repetindo as últimas palavras de seu discurso ao governo da cidade de Seattle depois do Grande Passo Adiante, Jordan descruzou as mãos e disse:

— Em tempos de crise, estamos prontos para ajudar de qualquer modo que pudermos, como precisarem. Tudo o que têm a fazer… é pedir.

Capítulo traduzido por Vinícius Fernandes.

Estamos nos capítulos finai de The 4400. Continuem comentando, e deixem suas opinoes também sobre a outra série de livros que pretendo traduzir. Até breve com mais um capítulo!

(….)

Publicado: 10 de outubro de 2011 em The 4400

Galera, sei que faz tempo desde  última atualização, mas não parem de comentar. É que com a correria de trabalho, faculdade e tudo mais fica um pouco difícil postar algo aqui no blog. Continuem por aqui que logo mais tem os capítulos finais de “The 4400”.

 

Outra coisa: alguém se interessou por aquele livro do qual postei a sinopse aqui? Caso queiram, essa será a próxima tradução a ser postada. Para quem não lembra, aí vai o link com a sinopse:

https://brenooficial.wordpress.com/2011/06/05/grey-griffins/