The 4400 – Promises Broken (Capítulos 39 e 40 traduzidos)

Publicado: 24 de junho de 2011 em The 4400

Capítulos traduzidos, respectivamente, por Vinícius Fernandes e Helena Padim.

Comentem. São cenas de tirar o fôlego as que se seguem. xD

TRINTA E NOVE

 

3:17 P.M.

 

TOM FICAVA DIZENDO A SI MESMO a mesma mentira, como se a mera repetição fosse torná-la real: isso é só mais uma missão, igual a qualquer outra.

            Ele ignorou o ácido queimando em seu estômago. A bile amarga correndo seu caminho de volta para a garganta. Os tremores de adrenalina que faziam suas mãos tremerem.

            Não é nada, assegurou a si mesmo, mesmo sabendo que estava mentindo. Não importava quantas vezes o FBI ou a NTAC haviam treinado-o para caçar armas de destruição em massa, a coisa real não era nada como nos exercícios do treinamento. O pessoal que o treinara conseguira simular tudo, exceto a sensação doentia do medo de verdade.

            Nenhuma simulação fizera-o ouvir sua própria pulsação na têmpora, ou sentir o coração batendo contra seu esterno, ou a necessidade de secar o suor em suas palmas a cada dez segundos.

            Posso nunca mais ver o Kyle, percebeu. Ainda havia muitas coisas que ele queria dizer ao filho, mas não tempo suficiente para dizê-las. Devia pedir para conversar com ele antes de partir, decidiu. Só para o caso de… Ele não queria completar aquele pensamento.

            Assim que o pessoal de Jordan e de Shawn montasse três motocicletas, Tom, Jed e Diana os conduziriam pelos portais dimensionais de Kendall, a caminho de um encontro a quilômetros de distância com um fanático que estava pronto para acabar com o mundo em uma tempestade de fogo e gelo.

            — Tudo um dia de trabalho — ele e Diana haviam brincado, ambos escondendo o medo por debaixo de seus sorrisos forçados.

            Tom tinha um pequeno escritório para si enquanto se preparava para a operação. Ele apertou as tiras de seu colete, checou a Glock duas vezes para certificar-se de que ela estava completamente carregada, e confirmou visualmente que estava com munição extra nos bolsos para seu rifle de assalto M4A. Assim que alguém lhe conseguisse um capacete decente, ele teria que fazer um ataque suicida a um agente Marcado com uma bomba de antimatéria.

            Nada como a última carta, pensou ele, engolindo as últimas gotas de água de uma garrafa de um litro.

            Uma batida na porta do escritório despertou Tom de seu devaneio de humor. Ele colocou o rifle de lado e foi até a porta. Seus instintos lhe diziam que era Kyle do outro lado, esperando para vê-lo caso aquela fosse a última chance que tivessem de se despedirem.

            Tom abriu a porta para descobrir que, como sempre, seus instintos estavam completamente errados.

            Mais Skouris olhava fixamente para ele com um olhar perturbador.

            — Preciso falar com você — ela disse. Adentrou o escritório sem esperar pela resposta dele. — Feche a porta.

            Virando-se para encarar a adolescente de cabelos loiros, Tom disse:

            — Maia, você não deveria estar vendo sua mãe agora ao invés de mim?

            — Não há tempo — respondeu a menina. Ela colocou a mão em um bolso de suas jeans poeirentas e retirou uma seringa e agulha com um líquido verde amarelado dali. — Você precisa tomar isso. — Afirmou, colocando a seringa hipodérmica sobre a mesa. — Agora.

            — Pode parar — disse Tom, distanciando-se da seringa como se nela estivesse contido algo radiativo. Apontou um dedo acusador para o objeto. — Isso é o que eu acho que é?

            Ela caminhou para trás da mesa, como se tomando o poder na sala.

            — É uma versão concentrada da dose de promicina — disse.

            — Eu venho tomando U-pills a cada…

            — As U-pills não a bloqueiam — interrompeu Maia. — Vai funcionar mais rápido do que promicina regular, mas de nada adiantará se você não injetar antes de sair na missão para deter a bomba.

            Tom recuou, surpreso.

            — Como você sabe sobre…? — Ele deixou com que a pergunta sumisse. Não importava como ela sabia sobre a missão. Cruzando os braços, continuou: — Não vou tomar essa dose de maneira alguma, Maia.

            — Você tem que tomar — disse ela, sua voz tornando-se mais energética.

            Ele deu passo a frente e inclinou-se sobre a mesa, assomando-se sobre a garota.

            — Por quê? Por causa daquele livro de profecia “Luz Branca” que o Kyle diz ter encontrado? Não me importo se isso é verdade ou não. Mesmo que ele garanta minha sobrevivência à dose, não tem como saber que poder estranho eu ganharia. E se isso me tornar um pesadelo vivo, como fez com meu sobrinho Danny? Ou com aquela tal de Typhoid Mary? Quem garante que eu seria melhor que eles?

            — Eu — respondeu Maia. — Isso não acontecerá com você. Prometo.

            Levantando-se da mesa, Tom balançou a cabeça.

            — Não — disse. — Não é bom o suficiente. Eu fiz uma promessa a mim mesmo, Maia. Recusei a promicina quando o Kyle a ofereceu para mim, e depois que o vírus 50/50 matou minha irmã eu jurei que nunca tomaria a dose. Então não posso simplesmente confiar na sua palavra para isso.

            — Mas você precisa — insistiu Maia.

            — Do que você está falando? — perguntou Tom, tentando descobrir o que a menina não estava dizendo. — Que você sabe que eu vou tomar.

            — Não — respondeu Maia. — O que sei é que você tem uma escolha.

            — Eu já a fiz — disse ele.

            A raiva provocou um tom estridente na voz da adolescente:

            — Escolheu errado! Tem que confiar em mim.

            — Confiar em você? — Ele estava quase rindo. — Você já mentiu antes, quando foi melhor para você. Inventou profecias.

            — Eu sei — disse ela, parecendo arrependida. — Mas agora é diferente.

            — Por quê?

            — Porque é você quem decide se a raça humana vive ou morre. — Seus olhares cruzaram-se. — A não ser que tome a dose agora, antes de sair desta sala, cada pessoa desse planeta morrerá… a começar pela Diana.

            Ouvir o nome de sua parceira alarmou Tom. Ele imaginou se Maia a chamara pelo nome porque ainda restava algum ressentimento de sua discussão alguns dias antes, ou se estava fazendo-o somente para manipulá-lo.

            Ele circulou a mesa e pôs-se à frente da garota.

            — O que quer dizer com “a começar pela Diana”?

            Maia continuou firme, sem recuar um passo sequer enquanto Tom se aproximava dela.

            — Me deixe lhe contar algo que aprendi sobre o futuro — disse ela. — É como um rio – sempre mudando, sempre tomando o curso da menor resistência. Às vezes, as coisas que fazemos criam ondulações na água; às vezes criam um borrifo. Somente algumas coisas são grandes o suficiente para mudar o curso do rio.

            Apontando para a seringa na mesa com a cabeça, ele perguntou:

            — O que isso tem a ver com Diana? Ou com a morte da humanidade?

            — Você e Diana sairão em alguns minutos para impedir a bomba — respondeu Maia. — Se você não tomar a dose, vocês irão falhar e Diana será a primeira a morrer.

            — E se eu tomar a dose? O que acontece depois?

            — Isso não está claro — disse Maia. — No momento, o futuro em que você não toma a dose é o que predomina. Isso faz com o que os outros sejam difíceis de ver.

            — Então você está dizendo que eu não tomo a dose.

            — Não! — rugiu Maia e passou os dedos pelo seu cabelo sujo, frustrada. — Escuta o que tô dizendo. Alguns acontecimentos do futuro não podem ser mudados, mas outros podem. Não estou dizendo que não tem escolha – você tem. Tudo o que estou te contando são as conseqüências que sua escolha trará.

            Maia pegou a seringa e a segurou entre eles.

            — Você pode tomar essa dose e impedir que um maluco destrua o mundo… — Ela a abaixou, sem liberá-lo de seu olhar impiedoso. — Ou pode recusá-la… e ver Diana morrer.

QUARENTA

 

3:28 P.M.

O CORAÇÃO DE DIANA ESTAVA DISPARADO como o motor da motocicleta BMW branco alpino de alta performance que descansava entre suas pernas. Ela estava no final da formação, atrás de Tom e Jed, que estavam montados, respectivamente, em uma Suzuki esportiva azul e em uma Yamaha preta superesportiva. Os motores grunhiam, alto e profundamente, com cada giro dos aceleradores ressoando dentro do ambiente de concreto da garagem subterrânea do Centro 4400.

            De pé, a vários metros em frente a Tom, estava Kendall Graves. A adolescente esguia, de trajes punk e cachos coloridos, parecia mais concentrada e séria, agora que o momento da ação havia chegado. Ela fez um sinal com dois dedos para Tom.

            Ele acenou a cabeça em resposta, depois voltou-se para encarar Jed e Diana.

            — Chegou a hora — disse. — Tudo pronto?

            Jed fez um sinal de positivo com o polegar e colocou o capacete; ao ajeitá-lo no lugar, este bateu no cano do rifle automático pendurado em suas costas. Diana movimentou o queixo para confirmar que estava pronta, e também colocou seu capacete.

             Imediatamente, seu equipamento de proteção para a cabeça abafou o rugido dos motores das motos, reduzindo-o a um zumbido moderado. O visor polarizado eliminou a claridade forte e esverdeada das lâmpadas fluorescentes da garagem, e também cortou a fumaça dos canos de descarga, que provocava dores de cabeça, bem como o odor penetrante de mofo do cimento úmido.

            Kendall se posicionou com as pernas afastadas e os braços bem abertos acima da cabeça, transformando-se num X humano. Um pequeno ponto de luz dourada formou-se em frente ao seu umbigo e se expandiu, como a íris de uma câmera que se abre em espiral.

            Em poucos segundos estava grande o suficiente para que Diana pudesse enxergar através dela, como se fosse simplesmente uma janela aberta. Do outro lado havia uma estrada descampada e curva, de duas pistas, margeada por finos pinheiros e paisagem monótona. O céu sobre a estrada tinha o tom cinza escuro de chumbo embaciado. Um veículo de passeio azul veio em direção a eles, do outro lado da linha amarela dupla, e sumiu de vista.

            Quando o portal estava largo o suficiente para o trio e suas motos passarem, Tom levantou um braço, fez um movimento circular que significava “movam-se”, e apontou para frente. Ele se inclinou para frente, a fim de ficar atrás do pára-brisa da moto, engatou a marcha da Yamaha e acelerou.

            O motor da Suzuki rosnou poderosamente quando Jed começou a se movimentar, na cola de Tom.

            Diana apertou a embreagem da moto, empurrou a alavanca com o pé para dar a partida e virou o acelerador. Sua BMW saltou para frente, a vibração constante do motor pulsando cada vez com mais energia.

            Para ela, parecia que estavam dirigindo em direção a uma tela de cinema, mas então eles passaram através desta, e num piscar de olhos o ar mudou. Estava pesado, com cheiro de chuva e perfume de pinho, e era muitos graus mais quente.

            Em seu retrovisor, Diana viu o portal se fechar. Estamos por nossa conta agora, lembrou a si própria.

            O plano era que um dos clarividentes de Jordan, provavelmente Hal ou talvez Lewis Mesirow, monitorasse o progresso dos três agentes da NTAC na tarefa de parar a picape. Assim que o trio tivesse o controle da bomba, Kendall abriria outro portal e mandaria Marco através deste.

            Assim esperamos, refletiu Diana.

            Correndo em fila, bem próximos um do outro, o trio fez uma curva que emendava numa longa reta. Bem mais à frente estava o cruzamento que levava à Estrada da Grande Volta. Tom levantou o punho, que era o sinal para parar, e acenou para Jed e Diana por sobre seu ombro direito. Eles foram para o acostamento e pararam, um paralelo ao outro.

            Tom levantou o visor do capacete, e Jed e Diana fizeram o mesmo.

            — Lá está o ponto de interceptação — disse ele, olhando de relance para um cruzamento em “T”, uns cem metros adiante. — Vamos checar nossos rádios rapidamente.

            Os três agentes retiraram seus walkie-talkies compactos das roupas táticas e os testaram para se certificar de que funcionavam, agora que estavam livres do bloqueio militar de sinais, que havia cortado toda a comunicação por rádio dentro de Seattle.

            — Testando, testando — disse Tom, e sua voz saiu claramente nos rádios de Jed e Diana. — OK — disse ele, guardando seu walkie-talkie. — Diana, posicione-se aqui, por detrás daquelas árvores, e procure por uma picape branca. Quando ela passar, nos avise. Jed, você ficará à esquerda do cruzamento, e eu à direita. Vamos preparar linhas de fogo superpostas. Acerte no motorista da picape, se possível. Se não, mire nos pneus.

            — Entendido — respondeu Jed, fechando o visor de seu capacete.

            Olhando para Diana, Tom perguntou:

            — Dúvidas?

            — Não — disse ela, mantendo uma expressão de coragem. — Vamos fazer logo isto.

            — Certo — respondeu Tom. — Boa sorte, e boa caçada. O último a chegar a Seattle paga a primeira rodada.

            Ele abaixou seu visor, inclinou-se para frente e disparou em sua moto, com Jed dois segundos atrás dele.

            Diana saiu da estrada principal, seguindo por uma trilha barrenta que levava para dentro da floresta de pinheiros. Quando ela estava longe o suficiente para não ser vista por quem passasse pela estrada principal, virou-se e se posicionou a fim de estar pronta para uma perseguição. Ela se perguntava o que viria primeiro: a picape branca ou a tempestade que ameaçava rasgar o céu.

            Ela checou o relógio. Se as observações e os cálculos estivessem certos, Jakes chegaria dentro de meia hora.

            Eram apenas 15:31, pelo horário do Pacífico, mas ela já sentia como se aquele fosse o dia mais longo de sua vida. Havia acordado na expectativa de que seria apenas mais uma quinta-feira no escritório. Ao invés disso, tinha sido forçada a lutar por sua vida em uma zona de guerra. Agora estava a centenas de quilômetros de Seattle, sentada em uma motocicleta no meio do Parque Nacional de Yellowstone, armando uma emboscada para um fanático com um fetiche de apocalipse.

            Ela queria engolir e sufocar a ansiedade que brotava dentro de si, mas sua boca estava seca. Não há nada que deva me fazer ficar ansiosa, ela disse a si mesma, esperando acalmar seus medos com sarcasmo. Afinal de contas, somos apenas nós três entre a raça humana e a extinção total. O que poderia dar errado?

3:57 P.M.

 

Jakes olhou para a linha amarela que passava por ele enquanto rodava pela solitária pista de duas faixas da Rodovia da Entrada Oeste. Ele estava a menos de um quilômetro e meio da entrada para a Estrada da Grande Volta, o que significava que sua jornada estaria finalizada em menos de quarenta minutos.

            Confrontado com o fim iminente de sua missão e de sua existência, ele se flagrou em uma reflexão filosófica.

            Ele não se importava de saber que a morte estava tão perto. Desde o momento em que aceitara a missão, sabia que jamais retornaria ao futuro que havia deixado para trás. Falhando ou tendo sucesso, ele havia condenado a si próprio a morrer no passado. Aquilo tornou outras escolhas muito mais fáceis.

            Olhou de relance para o céu e imaginou se a tempestade que prometia desabar iria fazê-lo antes ou depois que ele alcançasse seu destino. Haveria uma certa poesia visual em permanecer de pé, na chuva, enquanto minha caminhonete afundasse no lago, pensou, com uma expressão levemente divertida. Como se fosse um filme.

            Ainda havia muita coisa que ele não entendia sobre sua missão, ou sobre como seus superiores tinham oportunamente modificado sua definição de sucesso. A maior parte das perguntas que ele fizera antes de ser mandado para o passado havia sido ignorada ou tido respostas evasivas.

            Uma questão que ainda o incomodava, mesmo que ele estivesse perto de torná-la irrelevante, era a casualidade paradoxal de sua missão. Seus superiores haviam insistido em que a razão de sua missão era impedir que um bando de cientistas renegados alterasse o passado, criando o movimento da promicina e, assim, desestabilizasse o último baluarte de seu tempo da civilização humana.

            Mas como o movimento da promicina poderia ser bem sucedido, se eu e meus companheiros ainda éramos capazes de combatê-la?, refletiu ele. Alterar o passado não iria imediatamente destruir o mundo como o conhecemos? Ele ponderou a possibilidade de que seus líderes o estariam enganando. Será que o verdadeiro propósito de minha missão foi ocultado de mim?

            Quanto mais ele pensava sobre a viagem no tempo, menos sentido fazia para ele. Observando o borrão de floresta que passava em cada lado de sua picape, ele tentou parar de pensar em todas aquelas questões, mas elas continuavam a assombrar seus pensamentos e criar novas perguntas. Se eu obtiver sucesso, e acabar com o movimento de Jordan Collier, estarei criando o futuro que deixei para trás? Ou aquele futuro desapareceu a partir do momento em que os 4400 apareceram na praia de Highland Beach?

            Ele se recordou da hipótese que sugeria que a consequência de ramificações no tempo seria a criação de novos universos quânticos. Se for o caso, ele concluiu, então o futuro que eu conheci jamais esteve em perigo. Poderia simplesmente seguir seu curso, com seu passado inalterado, onde os esforços dos renegados para reescrever a história consistissem em nada mais do que criar linhas do tempo bifurcadas, com resultados diferentes. Mas e daí? Que diferença faria se universos paralelos seguissem caminhos distintos? Por que eles pediriam para serem compactados em nanodispositivos e voltar no tempo se não havia ameaça real ao nosso poder?

            Havia várias suposições, naturalmente. Uma delas era a hipótese da “probabilidade dominante”, que sustentava que se a possibilidade de um determinado resultado se tornasse decisiva, então as realidades quânticas que esta favorecesse iriam eventualmente eliminar a existência de universos menos prováveis. Se aquela conjectura provasse estar correta, então talvez explicasse por que seus superiores achavam necessário despender recursos, energia e pessoal em esforços múltiplos para defender sua versão preferida da história.

            Uma placa à beira da estrada o informou de que estava se aproximando da entrada para a Estrada da Grande Volta. Começava a chover.

            Não há sentido em cismar com isto agora, decidiu Jakes. Não irei solucionar séculos de lógica temporal contraditória no caminho daqui para o lago.

            Ordens eram ordens, lembrou a si próprio. Sua missão era impedir, pelos meios que se fizessem necessários, a disseminação do movimento de Jordan Collier. O plano que ele, Wells e Kuroda tinham posto em prática parecia atingir perfeitamente aquele objetivo; o fato de que também faria o mundo se assemelhar muito com o globo árido do qual eles haviam vindo era simplesmente um bônus.

            Jakes guiou a picape através da suave curva à direita, entrando na Estrada da Grande Volta. Ele imaginava a expressão de choque de Collier quando o fim do mundo o pegasse de surpresa. Aquilo o fez sorrir.

            O pára-brisa da picape se estilhaçou, cacos de vidro espetaram o rosto de Jakes, e uma bala de grosso calibre rasgou parte de seu ombro esquerdo, salpicando o banco traseiro de sangue.

            Seus gritos de dor confundiam-se com o cantar dos pneus do veículo, conforme derrapava de um lado para o outro pela estrada.

            Ele lutou para recuperar o controle da picape. Balas pipocavam nas janelas e portas.

            O sangue banhava seu braço esquerdo paralisado, ensopando sua camisa.

            Nauseado e tonto, ele pisou no acelerador e fez um esforço para espiar através do pára-brisa estilhaçado.

            Acima do sopro do vento, do ronco do motor danificado da picape e de sua própria respiração ofegante, ele escutou mais tiros.

            Em seguida veio o crescente zumbido de motocicletas, aproximando-se rapidamente por detrás dele.

            Buracos apareceram em seu teto. As janelas explodiram em cacos. Projéteis perfuraram o banco do carona.

            Um tiro aleatório rasgou a lateral de seu corpo. Parecia que uma vareta de fogo havia sido enfiada em suas entranhas, doendo e queimando por dentro.

            Então um grande estrondo sacudiu seu veículo, e as rodas começaram a não obedecer ao seu comando, resistindo aos seus esforços para ultrapassar os carros mais lentos, à frente na estrada.

            Pneu furado, concluiu Jakes. Que seja.

            Ele começou a derrapar, de um lado para o outro, e embora sentisse que estava morrendo aos poucos, começou a rir. A guerra acabara, e quem quer que o houvesse encontrado chegara tarde para impedir. Ele estava dentro do perímetro do alvo da ogiva; embora a margem do lago tivesse sido identificada como o local ideal para a detonação, aquele pedaço desolado de estrada mais do que bastaria.

            Jakes sabia que o dispositivo automático que o ligava à ogiva completaria a missão, mesmo que ele próprio não pudesse fazê-lo. Não se importava de não viver para ver o fim. Uma morte era simplesmente tão boa quanto outra.

            Ele jogou uma perua para fora da estrada e manteve o acelerador colado no chão, enquanto mais balas atingiam sua picape.

            Aquele deveria ser o último quilômetro de sua jornada, e ele estava determinado a aproveitar a viagem enquanto durasse.

Diana manteve o acelerador de sua moto no máximo, enquanto voava pela estrada tortuosa abaixo, lentamente diminuindo a distância entre ela, Tom e Jed.

            Eles estavam mais de cinquenta metros à frente dela, na cola da picape branca que já haviam enchido de balas de seus rifles automáticos. Agora tinham que contar com suas Glocks, mas mesmo uma pistola semiautomática era difícil de apontar e disparar enquanto se dirigia uma moto esportiva em alta velocidade, numa perseguição de alto risco.

            O vento chicoteava Diana, e soava como trovão ao resvalar seu capacete. A chuva a pinicava e tornava a pista escorregadia.

            Mais à frente, a picape derrapava de um lado para o outro, impedindo Tom e Jed de emparelhar com ela. Embora um dos pneus tivesse sido estourado por um tiro de rifle e Jakes estivesse ferido, ele ainda tinha controle parcial do veículo.

            Colado na traseira dele, Jed disparou mais alguns tiros, que ricochetearam na porta e no pára-choque traseiros da Pathfinder. O destro Jed estava atrapalhado tentando mirar a arma com sua mão esquerda, uma necessidade imposta pelo fato de que o acelerador da moto fica do lado direito do guidão.

            Tom, que, apesar de ser canhoto, geralmente segurava sua arma com a mão direita, estava mais à vontade atirando com a esquerda. Com dois tiros ele despedaçou o vidro traseiro da caminhonete.

            A picape e as duas motocicletas fizeram uma ampla curva na estrada. Jakes acelerou, mas Jed e Tom frearam.

            Um enorme ônibus de turismo, quase tão largo quanto a pista, vinha na direção contrária. Ele desviou para o acostamento, a fim de evitar a veloz e desvairada picape, que evitou por pouco uma colisão frontal. O ônibus começou a se inclinar para o lado quando entrou no declive que margeava a estrada, e então bateu num grupo de pinheiros. Duas pessoas, o motorista e uma passageira, voaram pelo pára-brisa e caíram como bonecos de pano no chão poeirento.

            Pouco adiante a estrada estava congestionada. Era uma mistura de picapes, carros de passeio, peruas e caminhonetes. A maior parte deles carregava equipamento de acampamento, e alguns levavam canoas ou pequenos botes em reboques.

            Ah, droga, Diana pensou, imaginando o pior.

            O velocímetro de sua moto marcava 150 km/h.

            Ela sabia que a coisa estava para ficar feia.

            Jakes desviava da fila de carros de um lado para outro. Ele bateu numa perua cheia de equipamento de acampamento no bagageiro, jogando-a para fora da estrada, e obrigou uma caminhonete que vinha na direção contrária a colidir de frente com um pequeno veículo híbrido, que se partiu como um ovo.

            Em questão de segundos a estrada virou uma confusão mortal de vidro estilhaçado e metal partido, veículos tombados e corpos ensanguentados. Tudo o que Tom e Jed podiam fazer era andar em zigue-zague por entre os obstáculos, evitando causar mais danos ou ferir pessoas.

            Diana desviou para o acostamento da direita e acelerou ao largo da cena do acidente, lutando para continuar a perseguição.

            A Pathfinder branca e amassada continuou a ziguezaguear erraticamente pela estrada, a aproximadamente 145 km/h. Mais veículos encontravam-se adiante, desprevenidos sobre o perigo que se aproximava.

            Então a picape estabilizou seu curso.

            Jed posicionou-se à esquerda e acelerou a moto ao máximo. Seguindo a linha divisória entre as pistas, ele emparelhou com a porta de Jakes e lutou para manter a mira com a mão esquerda por sobre seu braço direito.

            Jakes jogou a picape para a esquerda e bateu em Jed, jogando-o para a outra pista, e em cima de um carro que vinha tentando desviar dele. A moto de Jed rodopiou e caiu de lado. Então o carro chocou-se com ela.

            O impacto jogou Jed da moto, que ficou esmagada debaixo dos pneus do carro. Mesmo tendo o carro mergulhado entre as árvores, tentando evitar atropelar Jed, o próximo veículo não conseguiu frear a tempo. Jed desapareceu sob suas rodas quando Tom e Diana passaram por ele.

            Tom acenou para Diana com sua Glock, indicando que iria fazer o próximo ataque pelo lado esquerdo de Jakes, e Diana entendeu que sua tarefa era fazer uma abordagem simultânea pelo lado direito da picape. Ela pegou a pistola, acenou com a cabeça em concordância, e seguiu pela direita quando acelerou.

            Alguma parte da mente de Diana, lá no fundo de seus anos de treinamento na NTAC, sabia que ela tinha que estar apavorada; mas quando a estrada se transformou em um borrão alucinado, e o vento esmurrou seu peito, tudo em que ela conseguia pensar era em cometer aquele assassinato.

            O ronronar do motor da BMW ressoou por dentro de todo o seu corpo, mas a pistola estava firme em sua mão.

            Havia carros à frente, mais vítimas inocentes a caminho. Diana não tinha a intenção de deixar Jakes chegar até eles. Muitos já haviam morrido pela causa daquele maluco.

            Isto acaba aqui, jurou.

            Através das janelas quebradas da picape, ela viu Tom sinalizar com a cabeça.

            Eles se movimentaram.

            Juntos aceleraram, movendo-se em sincronia. Quando ela mirou pela janela do carona da picape, Tom fez o mesmo com sua Glock pelo lado do motorista.

            Eles atiraram em uníssono.

            Jakes debateu-se quando as balas atingiram sua cabeça e seu pescoço.

            Ele pisou fundo no freio e jogou para a esquerda.

            A motocicleta de Tom bateu contra a lateral da Pathfinder quando esta girou. A desaceleração súbita da picape a jogou em um rodopio caótico. Ela se partiu quando tombou no asfalto, espalhando vidro, plástico partido e pedaços de metal.

            Diana lutou para se afastar da catástrofe que acontecia atrás dela, apenas para constatar que a estrada à frente estava bloqueada pelo tráfego lento. Ela pisou no pedal de freio traseiro, mas àquela velocidade tudo o que conseguiu foi ser jogada e arrastada pela pista por sua moto.

            A Pathfinder despedaçada continuava vindo em sua direção.

            Ela não conseguia ver Tom ou a moto dele.

            À frente dela, acima do ruído de seu corpo sendo arrastado por sobre a poeira e o asfalto, ela ouvia o som tedioso das pancadas metálicas dos carros colidindo. Gritos, urros e lágrimas.

            Mas a última coisa que Diana viu foi o borrão de fumaça da picape branca e quebrada rolando em sua direção.

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comentários
  1. Vanessa disse:

    Parabéns pela tradução e obrigada por continuar postando.
    Muito bom esses dois capítulos.

  2. alexandre disse:

    Muito bom mesmo… tom tomou a injeção, mas qual será sua habilidade?

  3. eduardo disse:

    ta ficando emocionante , será que a Diana vai morrer !

  4. brenooficial disse:

    Gente, comentem também no post “Grey Griffins” que eu coloquei. xD

  5. BEATRIZ MACHADO disse:

    CARAMBA, TÁ UM CAOS…. CREIO Q O TOM TOMOU A PROMICINA, QUAL SERÁ SEU PODER Q SALVARÁ DIANA ALI ??

  6. monseca disse:

    Novamente, obrigado pela tradução! Que venham os próximos.
    O final está bem emocionante mesmo.

  7. Aline disse:

    OMG!!

    a Maia já foi mais convincente… não acho que ela convenceu o Tom…

    ótima tradução, vlw mesmo.

    até a próxima.

  8. Lu disse:

    Até q enfim achei um site com a tradução!!

    Está perfeita!!!

    Vlw!!!!

  9. Douglas disse:

    o perder de tom deve ser o do Hiro Nakamura (HEROES), poder parar o tempo e viajar nele

  10. Alexandre disse:

    eu ainda acho que ele tomou

    publica logo… estou super ansioso

  11. monseca disse:

    Mesmo que o Tom tenha tomado a promicina, ela não leva um tempo (1 mês) para surtir algum tipo de efeito? Até lá o mundo já acabou, haha..

  12. Camila disse:

    Nossa estou adorando esse livro…Eu acho que o Tom tomou a injeção sim, sem dúvida. E os outros capítulos, estou curiosa….

  13. francisco disse:

    A serie “The 4400” só tiveram sentido com as traduções dos livros que vcs postaram, meus parabens e obrigado pelo seu trabalho e dedicação. Quantos capitulos ainda faltam?? Vamos até o fim com VCs

  14. Roger disse:

    ta muito bom !!!

  15. Tamiris disse:

    Nossa, está super emocionante! Estou curiosa para saber se realmente o Tom tomou a injeção e se sim, que tipo de habilidade ele vai desenvolver, e que vai ser tão relevante assim para todos, principalmente para a Diana! Ansiosa pelos próximos capítulos!

  16. Douglas disse:

    uai, galera acabou?
    buaaaaaaaa
    tava mto bom.

  17. Drika disse:

    Nossa , tá mto bom!

  18. Muca velasco disse:

    Ele tonou e vai neutralizar a bomba!

  19. nilza disse:

    Gente… não desgrudo os olhos da tela!!
    Isso aqui tá muito bom!!
    uau!!!
    valeu Vini & Helena! bjs

  20. Fernando disse:

    Muito Bom!

  21. Audra Liz disse:

    Caraca está bom demais! Quanta emoção para um capítulo. Estou louca para saber se Tom tomou a sua dose se promicina.

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