Os capítulos a seguir foram traduzidos por Vinícius Fernandes e Helena Padim, respectivamente.
E aqui encerram-se os livros da
saga “The 4400″, escritos por Greg Cox e David Mack.
Vamos deixar nos comentários suas opiniões sobre os livros? Qual deles foi melhor? Por quê? O final alcançou suas expectativas? O que não aconteceu que vocês gostariam de ter visto? Vamos comentar, pessoal!
Só para lembrar, estou traduzindo um livro de fantasia (já fiz um post sobre ele aqui: http://brenooficial.wordpress.com/2011/06/05/grey-griffins/) e em breve postarei o começo no blog.
Até a próxima!
QUARENTA E NOVE
SEUS ROSTOS HAVIAM MUDADO, mas o mundo continuava a mesma coisa. Algo tinha dado errado no plano.
Confinados dentro dos corpos de dois irmãos marroquinos de pele escura, Wells e Kuroda espremiam-se por sobre uma mesa em uma lanchonete movimentada de Casablanca. Na fachada do lado de fora, a forte luz do sol da tarde cozinhava a rua empoeirada. Dentro do estabelecimento escuro, o ar estava abafado e impregnado com ao fumaça cheirando a fruta que saíam de cachimbos d’água.
Todas as outras pessoas pareciam, de um modo ou de outro, com os novos hospedeiros dos agentes Marcados: pele e cabelos escuros e trajando vestes de deserto cujo estilo continuara o mesmo por centenas de anos.
Beliscando a comida em grande prato de metal entre eles, Wells entortou o nariz para o alimento.
— Eu seria capaz de matar por um hambúrguer de bacon agora — disse.
— Foi você que insistiu pra gente parecer com os nativos — retrucou Kuroda.
Wells bufou.
— Como de fizesse diferença agora. O Jakes se foi, o plano já era, e Collier está mais poderoso que nunca. — Ele lançou um olhar cansado para o resto do local, certificando-se de que nenhum outro cidadão os estava ouvindo. Ninguém dava a menor atenção. — Da próxima vez iremos direto ao Jordan.
— E quem disse que vai ter próxima vez? — retrucou Kuroda. Não temos nada, Wells. Todo nosso dinheiro se foi na guerra. E agora que a linha do tempo está toda bagunçada não tem como saber o que acontece em seguida. Tudo aquilo que você disse que ia acontecer? Já era. O futuro que a gente conhecia já era.
Franzindo a sobrancelha de raiva, Wells resmungou:
— Não quero saber. Não vou ficar parado e deixar Collier ganhar. — Ele pegou a mangueira de seu cachimbo d’água e levou o bocal até os lábios. — Um plano novo vai aparecer com o tempo — disse. Então inalou uma lufada de fumaça doce e fresca. Ele curtia o som de borbulho que vinha do cano enquanto fumava. Depois de exalar tudo, falou: — Felizmente, tempo é uma coisa que temos em abundância.
Kuroda levantou o bocal do seu cachimbo.
— É a única coisa que temos em abundância.
A mangueira do cachimbo de Wells tremulou e escapou de sua mão. O mesmo aconteceu com o de Kuroda. As mangueiras ondularam hipnoticamente, dançando entre os homens com a graça mortal de uma serpente. Então deram o bote para frente e enrolaram-se nos pescoços de Wells e Kuroda, apertando-se perigosamente.
Ao redor deles, os clientes na lanchonete levantaram-se de suas almofadas gritando “Djinn! Djinn¹!”. Em poucos segundos, o lugar estava vazio. Pratos de comida estavam ao chão e virados de cabeça para baixo, seus conteúdos esparramados sobre as almofadas de cetim. Cachimbos d’água jogados formavam poças no chão sujo.
Só sobraram os dois agentes marcados no local, contorcendo-se no chão enquanto as mangueiras enforcavam-nos.
Mesmo quando sua visão começou a falhar e perder o foco, Wells viu duas figuras metidas em vestes de deserto entrarem na lanchonete. Os recém-chegados viraram duas silhuetas devido à claridade do dia quando se aproximaram e avultaram-se por sobre Wells e Kuroda.
O mais alto perguntou ao outro:
— Tem certeza que são eles?
O companheiro respondeu:
— Tenho. São os dois últimos.
A mangueira ao redor do pescoço de Wells apertou-se mais do que ele acreditava possível. Ele sentiu a traquéia quebrando-se e a vértebra cervical esmagando-se enquanto tudo escurecia.
No seus últimos momentos, Wells sentiu o gosto da derrota. O futuro pelo qual ele lutara estava perdido. O mundo pertencia a Jordan Collier.
— Tem certeza que são eles? — perguntou Richard Tyler.
— Tenho — disse Gary Navarro, olhando os rostos dos Marcados que se contorciam sob seus pés. — São os dois últimos.
Wells e Kuroda nunca suspeitaram que Gary tinha descoberto tudo sobre seus disfarces através da mente de seu cúmplice, Jakes, antes de sua morte. Desde que haviam chegado em Tóquio, operários leais a Collier estavam esperando por eles.
Cada passo que eles deram desde então estava sendo observado. Nenhum deles deixara de ser vigiado por um momento sequer.
Os barulhos de estalos dos pescoços dos agentes fizeram Gary recuar. Apesar de tudo por que passara na Terra Prometida, testemunhar um assassinato em primeira mão ainda deixava-o enjoado.
— Acho que você deveria esperar lá fora — disse Richard ao perceber o desconforto de Gary.
Mentindo, envergonhado, ele respondeu:
— Estou bem. — Virando a cabeça para não olhar os agentes Marcados, perguntou a Richard: — Como o Jordan conseguiu tirá-lo do seu esconderijo para isso?
— Você não consegue ler minha mente para ver a resposta?
— Consigo — respondeu Gary. — Mas geralmente não faço isso com que está do meu lado.
— Eu não estou do lado de ninguém — rebateu Richard.
— Então por que está aqui?
Sons agonizantes – de algo molhado sendo esmagado e o sibilar de gases e líquidos – vindos dos corpos dos Marcados disseram a Gary que ele fizeram bem ao desviar o olhar. Ele não queria ver o que estava acontecendo, mas seus ouvidos diziam-lhe mais do que queria saber.
Olhando sem compaixão para o dano que causava com a telecinese, Richard disse:
— Só estou terminando o que comecei.
Dando um passo a frente, Richard tirou de suas vestes um frasco preenchido com um pó metálico. Ele removeu a tampa de borracha do recipiente e despejou o conteúdo nos corpos mortos.
Incapaz de segurar sua grande curiosidade, Gary virou-se e observou o pó caindo e pousando sobre os rostos grotescamente deformados doas agentes. A substância parecia ser absorvida pela carne dos mortos.
Momentos depois, uma luz fluorescente tomou seus olhos, e um fogo azul engolfou suas cabeças e espinhas. O nanopatógeno radioativo feito pelo doutor Kevin Burkhoff fez efeito rápido nos nanites dos Marcados, aniquilando para sempre suas identidades sintéticas. Como brinde, no fim, os corpos de seus hospedeiros queimaram numa lufada de cinzas.
Então o brilho diminuiu, e tudo o que sobrou foi a fumaça grossa de gordura humana, o odor de queimado de carne chamuscada e o calor norte-africano do meio-dia.
Gary acionou um pequeno dispositivo de comunicação implantado em sua orelha. Produzida pelo gênio devido à promicina Dalton Gibbs, a invenção permitia aos membros do movimento comunicarem-se de qualquer lugar sem que suas conversas fossem rastreadas ou interceptadas. Gary não sabia como isso funcionava, e também fora advertido de que não precisava saber.
Ele mexeu no transmissor.
— Jordan, é o Gary.
— Prossiga.
— Missão cumprida. Os dois últimos marcados estão mortos.
— Ótimo. Volte para casa e diga ao Richard que eu agradeço.
Virando-se para transmitir a gratidão de Jordan, Gary viu que Richard se fora, já havia desaparecido entre a multidão do lado de fora da lanchonete.
— Direi — respondeu Gary. — Te vejo quando voltar. — Ele desligou o aparelho e saiu da lanchonete pela saída na cozinha do fundo. Enquanto se misturava à multidão agitada na rua, ele lembrou-se do último pensamento de um dos homens que ajudara a matar: O mundo pertence à Jordan Collier.
Ele quase teve pena dos agentes Marcados mortos, porque agora via que eles nunca entenderam o que era a promicina. Eles não enxergavam sua premissa.
O mundo não pertencia a Jordan Collier.
Graças à promicina, o mundo pertencia a todos.
¹ é uma espécie de espírito que rege o destino de alguém ou de um lugar.
CINQUENTA
TOM ACORDOU na manhã mais clara e brilhante que já vira em toda a sua vida. Seus olhos levaram alguns segundos para se adaptar à claridade da consciência, após sair das sombrias profundezas do sono.
Outras sensações retornaram primeiro. A dureza da superfície sob suas costas. Odores de pinho e amônia. Fricção de álcool com um toque de limão.
Um arrepio espetou a pele de seus braços e pernas desnudos.
Ele não estava em sua própria cama, nem em sua casa.
Entrando imediatamente em estado de alerta total, ele se sentou e olhou para os lados, observando ao redor: uma sala circular com superfície de prisco branco e cromo cintilante. As altas paredes eram dominadas por janelas, através das quais apareciam paisagens exuberantes e paradisíacas de colinas, florestas e rios de águas brilhantes.
Três níveis de estações de trabalho esparsamente posicionadas o circundavam. Homens e mulheres imaculadamente bem arrumados em roupas e sapatos brancos estavam sentados, encarando Tom, enquanto interagiam com displays projetados holograficamente. O murmúrio baixo de conversas ressoava pela câmara hemisférica.
Acima de Tom, um domo transparente mostrava um céu límpido e tão perfeitamente azul que o fez sentir como se nunca tivesse visto o firmamento antes daquele momento.
- Bom – disse um homem. – Você acordou.
Dando meia-volta, Tom se viu frente a um homem de meia-idade, de cabelos castanhos curtos e grisalhos, magricelo e de um olhar enervante, que Tom rapidamente percebeu ser devido ao fato de suas íris serem tão negras quanto suas pupilas. Como as outras pessoas que trabalhavam na sala, ele vestia um longo jaleco branco de laboratório e calças brancas largas, que pareciam feitas de algodão, e sapatos brancos que agora Tom percebera serem sapatilhas de lona.
Tentando não parecer tão assustado quanto estava, Tom disse:
- Estou no futuro.
- Correto – respondeu o cientista.
Tom deu uma olhada na luminosidade matinal.
- Parece diferente do que eu me lembrava.
- Naturalmente.
Descendo da mesa metálica de cirurgia, Tom perguntou:
- O que é isto? Tem a ver com os Marcados?
- De maneira nenhuma – respondeu o cientista. – A ameaça agora está completamente neutralizada.
- De nada – olhando para cima e em volta, enquanto esfregava os braços nus para aquecê-los, Tom continuou. – Então, qual é o problema? Eu fiz tudo o que você me pediu para fazer. Isabelle está morta, os Marcados se foram, e a promicina se espalhou pelo globo – indicando com a cabeça o mundo verdejante lá fora, ele acrescentou: – Até o futuro parece mais brilhante. Então, o que diabos eu estou fazendo aqui?
O cientista adotou uma expressão grave e cruzou os braços atrás das costas.
- Tom, havia uma razão pela qual nós nunca havíamos dado promicina a você durante as visitas anteriores ao futuro. Mesmo quando nós o mandamos de volta para confrontar Isabelle, com todos os poderes dela, nós não injetamos a droga em você. Não imagina o porquê disto?
O medo jorrou ácido no estômago de Tom.
- Jordan sempre disse que jamais forçaria alguém a tomar promicina – disse Tom.
- Ele não, mas nós obviamente o fizemos – disse o cientista. – Mas não no seu caso. Nós achamos que havia entendido. Mas então você foi e tomou a dose assim mesmo.
Tom sentiu-se como se estivesse sendo levado a julgamento por salvar o mundo.
- Mas Kyle, meu filho, ele… Ele disse que a profecia no Livro Branco…
- Propaganda inimiga – disparou o cientista. – As mentiras foram disfarçadas de verdade o suficiente para parecerem plausíveis – o cientista deu um passo à frente e agarrou a camiseta de Tom. – Não importa o que aquele livro dizia, você nunca deveria ter se tornado promicina-positivo, Tom. Nunca.
Empurrando o cientista, Tom agitou os braços no limpo e ensolarado futuro e protestou:
- OK, eu tomei promicina! Se eu não tivesse tomado, o mundo seria destruído. Mas tudo parece bem para mim, então que diferença isto faz?
Havia medo nos olhos do cientista quando ele respondeu:
- Provavelmente toda, Tom… Toda.
Aqui termina a Primeira Saga dos 4400.



Acho que o Halloween é a minha data preferida. Eu adoro o clima desse dia, as festas e tudo mais. =)