The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 8 traduzido)

Postado em Uncategorized em 6 06UTC fevereiro 06UTC 2010 por brenooficial

Aí vai o capítulo dessa semana. Só não esqueçam dos comentários, pois são eles que levarão a tradução  adiante xD

OITO

 

Marco apareceu no necrotério. Literalmente.

            Num instante, o vagaroso gênio não estava à vista. No instante seguinte, ele apareceu repentinamente entre Tom e Diana, enquanto esperavam por ele nas instalações médicas privadas da NTAC.

O cabelo liso e castanho precisava ser penteado. Olhos castanhos de ar inteligente espreitaram por detrás dos óculos pretos de aro de tartaruga. Ele vestia uma jaqueta de tweed por sobre uma camiseta.

— Desculpem o atraso.

            — Marco! — exclamou Diana, surpresa por sua aparição abrupta. Ela pressionou o peito para acalmar o coração acelerado. — Você sabe que não deve fazer isto. Especialmente no trabalho.

            O retraído e querido analista havia ganho a habilidade de se teletransportar, após ter sobrevivido ao cinquenta/cinquenta. Quase todo mundo na NTAC sabia o que ele podia fazer, mas demonstrações públicas de habilidades adquiridas através da promicina estavam firmemente desaconselhadas. Diana sacudiu a cabeça em desaprovação. Marco sabia muito bem que não deveria agir daquela maneira. E se algum figurão de Washington estivesse fazendo uma visita à agência?

            — Eu sei — admitiu ele. — Mas é tão conveniente! E eu não queria deixar vocês esperando. Ele deu uma olhada ao redor do necrotério estéril, todo em aço inoxidável. — Então, o que eu perdi?

            — Apenas a esquisitice usual — disse Diana.

            No total, eles haviam encontrado quatro cópias idênticas do corpo de Danny na casa funerária. Todos os quatro espécimes estavam deitados em mesas de autópsia no centro do necrotério. Lençóis brancos limpos cobriam parcialmente os cadáveres. Se havia alguma maneira de diferenciar os cadáveres, Diana não conseguia saber. Ela apenas podia imaginar o quão perturbador aquilo deveria ser para Tom. Imagine que existissem quatro cópias idênticas de Maia…

            — E então? — ele perguntou, rispidamente. — Qual deles é o verdadeiro Danny?

            — Nenhum deles — respondeu Abigail Hunnicutt. A loira de vinte e poucos anos havia se juntado à equipe da Sala de Teorias de Marco pouco antes do cinquenta/cinquenta. Formada pelo MIT, ela estava em pé ao lado de um dos corpos, sua mão sem luva espalmada no peito dele. A epidemia havia transformado Abby em uma sequenciadora humana de DNA, que conseguia “ler” códigos genéticos sem a ajuda de equipamentos artificiais. Ela guardou as mãos no bolso do jaleco azul enquanto relatava suas descobertas. — Estes espécimes são cópias quase idênticas de Danny Farrell. Em torno de 99% idênticas ao original.

            — Clones? — especulou Marco.

            Abby sacudiu a cabeça. — É mais como se o DNA de Danny tivesse sido sobreposto ao de alguém. — Ela se esforçou para colocar em palavras o que estava sentindo. — Ainda há um “eco” do DNA original nas células. Minha opinião é a de que alguém está tentando transformar outras pessoas em gêmeos perfeitos de Danny…

            — Antes ou depois de mortos? — Diana questionou.

            — Boa pergunta. — Abby encolheu seus ombros. — Não dá para dizer pelo DNA.

            Um exame preliminar tinha sugerido que todos os quatro corpos haviam morrido de overdose de promicina, não como o verdadeiro Danny, que havia sofrido um massivo acúmulo de promicina em seu organismo, antes de seu irmão cometer eutanásia contra ele. Talvez autópsias completas pudessem trazer mais informações, mas Diana tinha suas dúvidas. Eles estavam alguns passos à frente da ciência forense convencional ali.

            — Mas por que alguém iria querer fazer algo assim? — perguntou Tom. Apesar de estar se mantendo firme, sua frustração óbvia pontuava seu tom de voz. Ele cerrou os punhos. — Por que eles não podiam simplesmente deixar meu sobrinho em paz?

            Marco coçou o queixo. — Você disse que achou promicina na agência funerária? Meu palpite é que alguém está tentando reproduzir o processo que transformou Danny na ‘Typhoid Mary’ da promicina, criando uma arma biológica viva e capaz de disseminar o efeito cinquenta/cinquenta aonde for. — Seus olhos se arregalaram por detrás dos óculos. — Talvez até um exército de hospedeiros…

            Um silêncio caiu sobre o necrotério enquanto imaginavam as terríveis implicações do que Marco estava dizendo. Um Danny quase havia destruído Seattle. Uma legião de clones de Danny poderia causar mortes e devastação inimagináveis.

            — Alguém, quem? — perguntou Diana, quebrando o silêncio. — Jordan Collier?

            — Vamos descobrir — disse Tom.

 

* * * * *

 

            O edifício comercial que agora funcionava como o novo Quartel General de Collier era o antigo prédio da Haspelcorp, uma ironia que certamente divertia Collier. Uma enorme tela de tecido retratando o novo messias, de muitos andares de altura, adornava a fachada externa da estrutura. Reproduções menores estavam penduradas dentro do saguão palaciano.

            Conversa sobre um culto da personalidade, pensou Tom. Os pôsteres onipresentes relembraram-no de maneira desconfortável da China Maotseísta e outros regimes autoritários. Imagine quando as estátuas de cinquenta pés começarem a ser erguidas?

            — Posso te ajudar? — acudiu um segurança quando os agentes adentraram o saguão. O sentinela idoso, que aparentava ter seus sessenta anos, não se impunha muito fisicamente, mas nem precisaria; sendo um positivo, ele sem dúvida tinha outras maneiras de repelir visitantes indesejados. Estava sentado em uma grande escrivaninha de tampo de mármore. Um distintivo o identificava como Hoyt.

            Mais guardas estavam posicionados ao lado dos elevadores, escadas e saídas de emergência. Collier obviamente não estava se descuidando de sua segurança. Tom não poderia culpá-lo. Não obstante todos os esforços filantrópicos do Movimento, muitas pessoas ainda culpavam Collier pelo cinquenta/cinquenta e as mortes de seus entes queridos. Ele já havia até sobrevivido a várias tentativas de assassinato.

            Diana mostrou seu distintivo.

            — NTAC. Estamos aqui para ver Jordan Collier.

            O guarda não parecia impressionado. Tom e Diana eram visitantes frequentes. Ele fixou o olhar na morena esguia que acompanhava os dois agentes. Seus olhos escuros brilharam de modo travesso. Uma jaqueta Burberry Prorsum feita sob medida comprovava um generoso gasto com roupas. Perfume caro emanava da delicada jovem, que parecia ter seus trinta e poucos anos. Um símbolo de dólar estava tatuado em seu pulso.

            — E ela? — perguntou o segurança.

            April Skouris era a irmã caçula de Diana e ovelha negra da família. Ex-tatuadora e ex-golpista, April tinha sido uma das primeiras pessoas rebeldes o suficiente para tomar uma dose de promicina quando Jordan Collier a disponibilizou para as massas. Sua recém-descoberta habilidade de fazer as pessoas dizerem a verdade havia eventualmente a colocado em um agradável emprego, em que atendia tanto à NTAC quanto ao FBI. Tom francamente havia achado-a meio irritante, mas se ela poderia ajudá-los a arrancar algumas respostas de Collier acerca dos restos mortais de Danny, ele estava disposto a designá-la para aquela visita.

            — Eu também sou da NTAC — ela vangloriou-se, orgulhosamente mostrando sua própria identificação. Depois de ter sido criada à sombra da irmã mais velha e mais talentosa, ela parecia ávida por demonstrar que as duas estavam finalmente em pé de igualdade. — April Skouris, agente especial.

            — Aham. — Hoyt letargicamente digitou o nome dela em seu computador. Um franzir acentuou as pesadas rugas ao redor de sua boca. — Desculpe. Você está na lista negra. Acesso negado.

            — O quê? — A indignação modificou instantaneamente seu tom de voz. — Quem disse?

            — Eu não sei — ele confessou, automaticamente. Ele não poderia mentir, se quisesse. — É o que diz o computador. Você foi marcada como uma ameaça à segurança.

            — Droga! Isso é completamente injusto! — Ela olhou para Tom e Diana, procurando por apoio. — Vocês vão deixar ele ir adiante com isso?

            — Acho que sim — ele admitiu. A NTAC operava em Seattle sob a tolerância de Collier. Eles não estavam em posição de dar ordens. — Acho que você vai ter que esperar no carro.

            — Tá falando sério? — ela levantou a voz e bateu com o pé no chão. — Diana — ela queixou-se, parecendo mais uma irmãzinha birrenta do que uma agente federal. — Faça alguma coisa!

            A explosão de raiva atraiu a atenção do guarda do elevador, que atravessou o saguão para verificar. Era um homem alto, de rosto comprido e cabelos castanhos claros espetados. Afora suas habilidades desconhecidas, o guarda estava armado com uma pistola e uma arma de choque. Galloway, dizia o seu crachá. Sua mão repousava ameaçadoramente na culatra de sua arma. — Algum problema?

            — Não — insistiu Diana. — Apenas um mal entendido. — Ela falou suavemente com a irmã. — Desculpe, April, mas Collier nos barrou aqui. E precisamos realmente falar com ele hoje. — Pegando o braço da moça, ela a conduziu gentilmente até a porta. — Porque você não volta para o quartel general? Talvez possamos conversar mais tarde.

            — Legal — disse April, petulante. Ela sacudiu seu braço para se soltar e se dirigiu para a porta. — Vejamos se eu vou me oferecer para ajudar vocês de novo. Obrigada por nada, mana.

            Ela saiu do prédio batendo os pés. Em parte, Tom estava aliviado por vê-la ir embora. Apesar de sua habilidade bastante útil, ela era um verdadeiro barril de pólvora. Ademais, havia algo distintamente perturbador em circular por aí com alguém que poderia fazer você dizer a verdade, querendo ou não. Ele ainda sentia um arrepio quando se lembrava da vez em que April tinha nada mais, nada menos do que o forçado, por pura brincadeira, a revelar uma fantasia sexual que ele tinha com Diana, na frente da própria!

            Não era de se admirar que as pessoas não quisessem nada com os 4400 e seus sucessores.

            Depois que April saiu, os guardas recuaram um pouco. Hoyt ligou lá para cima, depois recolocou o fone na base. — Tudo bem. Vocês podem subir agora. Jordan está esperando.

            Para leve irritação de Tom, Galloway os acompanhou quando pegaram o elevador para a cobertura. Ele gostaria de poder conversar reservadamente com Diana enquanto subiam, mas aparentemente isto não ia acontecer. Bem, o elevador deve estar monitorado, mesmo.

            Eles encontraram Collier no antigo gabinete de Dennis Ryland. Uma grande escrivaninha de executivo dominava o escritório do canto. Capas de revistas estampadas com o rosto de Collier estavam penduradas nas paredes, junto com a capa de seu manifesto, que fora eleito campeão de vendas pelo New York Times. Janelas gigantescas ofereciam uma vista estonteante da Elliot Bay e do Island Harbor, mais adiante. Acompanhado de um séquito de assistentes e guarda-costas, Jordan estava ocupado examinando holografias tridimensionais de Seattle. Estruturas translúcidas e cintilantes subiam e desciam pela superfície de alta tecnologia de uma mesa de conferências, sem dúvida desenvolvida por algum mago da tecnologia anônimo, cujo poder mental tenha sido estimulado pela promicina. Ele espiou por cima dos modelos de última geração, enquanto Galloway escoltava os agentes escritório adentro.

            — Ah, Tom, Diana — disse, cordialmente. Ele se encontrava num tablado em que ficava um pouco mais alto do que os dois agentes. — É bom vê-los novamente.

            Tom estava desapontado por não ter a presença de Kyle. Pensando bem, talvez fosse até melhor. Aquela não era uma visita social.

            — Obrigada por nos receber — disse Diana. — Espero que não estejamos incomodando.

            — De maneira nenhuma — insistiu Collier. Um gesto largo chamou a atenção deles para a maquete virtual da cidade à sua frente. — Venham ver o que estamos fazendo aqui — ele os chamou. — É um plano abrangente para reconstruir Seattle. Estruturas destruídas durante os protestos serão substituídas por usinas nucleares de fusão a frio, centros de tratamentos de dependentes químicos, jardins e fazendas verticais, e outros projetos civis revolucionários que se tornaram possíveis graças às singulares habilidades da população promicino-positiva. — Ele sorriu, orgulhoso. — Estamos até modernizando o metrô.

            — Parece ambicioso — concordou Tom. Por mais que odiasse admitir, Collier e seu Movimento tinham estado no front dos esforços de recuperação nos últimos meses. Ele olhou mais de perto para a visão de Jordan da cidade. — Isto é um novo Tribunal de Justiça na Praça Pioneer?

            — Bem observado. — Collier concordou com a cabeça. — Tecnologia de ponta.

            — Mas justiça de quem? — desafiou Diana. — Do Estado ou sua?

            Desde que dominara Seattle, Collier havia estabelecido seu próprio sistema judicial, no qual os positivos que fossem considerados culpados de abusar de suas habilidades eram despojados de seus poderes pelo próprio Jordan. O tom amargo de Diana deixou claro que ela desaprovava o fato de Collier comandar seu próprio tribunal de faz-de-conta particular.

            — Com o passar do tempo não haverá diferença – declarou confidencialmente Collier. — Entretanto, por enquanto, os 4400 dificilmente poderão esperar tratamento justo nos tribunais tradicionais, o que significa que devemos policiar a nós mesmos. Posso assegurar a vocês que esta é uma responsabilidade que eu levo muito a sério. — A habilidade de apagar os dons de outros positivos era o talento único e exclusivo de Collier. – Eu gostaria que cada indivíduo com habilidades pudesse ser confiável para usá-las com responsabilidade, e a favor dos melhores interesses do Movimento, mas, infelizmente, nem sempre é o caso. Alguns novos convertidos provam não serem merecedores de seus preciosos dons.

            — Como minha irmã? — perguntou Diana.

            Collier respirou fundo enquanto se preparava psicologicamente para o inevitável assunto de April. — Ah, sim. Eu ouvi dizer que havia uma certa perturbação lá embaixo. Peço desculpas se isso foi embaraçoso para vocês, mas temo que, sem querer ofender, a lealdade e as companhias de sua irmã são suspeitas. Ela está de fato banida das dependências. — Seu tom beirava a ameaça. — Na verdade, você deveria avisá-la de que eu a livraria pessoalmente de sua habilidade se ela se aproximasse de mim, ou se de alguma forma usasse seu dom para prejudicar o Movimento.

            — Por que isso? — inquiriu Tom. — O que você tem a esconder?

            Collier foi incisivo em sua atitude. — Certamente você, que é agente federal, aprecia a importância da discrição e confidencialidade. Boca fechada não entra mosca, e tudo o mais. Estes são tempos perigosos, e eu não vou permitir que April Skouris — ou qualquer outro — ponha nossa segurança em risco.

            Tom se perguntou, em primeiro lugar, como Jordan tinha conseguido descobrir sobre a habilidade de April. Isto deveria ser informação confidencial, também. Haveria algum vazamento na NTAC ou na Segurança Nacional?

            Algo para se pesquisar, ele pensou.

            — E então – disse Collier, mudando de assunto. — O que os traz aqui hoje? Negócios oficiais da NTAC, eu suponho.

            — Isso mesmo. — Tom relatou a Jordan as linhas gerais de sua investigação, mencionando o corpo desaparecido de Danny, e o aparente envolvimento da Grayson e Filhos, mas omitindo o fato de Dennis Ryland ter acusado Collier de planejar transformar a promicina em arma. — Você sabe alguma coisa sobre isto?

            Collier sacudiu a cabeça. — Eu gostaria de poder ajudar vocês. Seu sobrinho é reverenciado como um mártir do Movimento por meu povo. É chocante que alguém possa profanar sua memória dessa maneira. Eu não consigo imaginar quem poderia ter algo a ver com isto.

            — Então você nega qualquer ligação com Grayson? — perguntou Diana.

            Collier encolheu os ombros. — O nome me soa vagamente familiar, mas o Movimento tem crescido a passos largos desde O Grande Passo Adiante. Receio que um conhecimento enciclopédico de cada um que apoia a nossa causa não esteja entre meus dons. — Ele soriu, irônico. — Uma pena.

            Tom o pressionou mais. — Então você não tem interesse em tentar duplicar a versão aérea de promicina que Danny emitia? — Ele deixou que um tom de sarcasmo pontuasse sua voz. — Mesmo que isto pudesse acelerar a realização do seu glorioso novo mundo?

            Collier parecia sereno diante da acusação. — Eu não posso negar que quero que todo mundo tome promicina. Mas eu nunca forcei ninguém a tomar a injeção… Como você sabe por experiência própria, Tom.

            É bem verdade, pensou ele. Jordan certamente teve mais de uma oportunidade de injetar promicina em Tom contra sua vontade, mas ele sempre se absteve de fazê-lo, apesar da profecia declarar que era de vital importância que Tom tomasse a dose em algum momento. Mas era o comedimento de Collier face aos seus padrões éticos, ou apenas em deferência à importância de Kyle para o Movimento? Tom estava mais inclinado a acreditar na segunda opção.

            — O cinquenta/cinquenta não foi exatamente voluntário — apontou Diana. — Nenhuma daquelas pessoas havia decidido tomar promicina.

            — Mas não foi um feito meu. — Ele lavou suas mãos de qualquer responsabilidade acerca do desastre. — Aquilo foi simplesmente uma monumental fatalidade. Um ato divino, se preferirem.

            Tom duvidava de que o Céu tivesse algo a ver com a morte de nove mil inocentes e o despedaçamento das vidas de inúmeros outros. — Eu não acho que Deus tenha roubado o corpo de Danny.

            — De fato — disse Collier. — E eu espero que você encontre o responsável. Eu te prometo sinceramente olhar o assunto com atenção.

            Tom não achou aquilo terrivelmente tranquilizante.

            Collier deu uma olhada em seu relógio de pulso. — Isto é tudo? — ele perguntou, impaciente. — Eu me arrisco a ser rude, mas tenho uma agenda muito cheia hoje. — Ele apertou um botão na prancheta e a cidade holográfica evaporou. – Transformar o mundo é um trabalho sem descanso.

            — Aposto que sim — disse Diana, secamente.

            Jordan fez cara feia. — Mande lembranças a sua filha. — Ele se moveu para acompanhá-los até a porta.

            — Não tão depressa – disse Tom. Ele encarou Collier. — Você e eu ainda temos algo a discutir. A sós.

            Ele esfregou seu dedo atrás da orelha.

            Collier entendeu o recado. — Muito bem. — Ele se virou para seu pessoal. — Eu e o agente Baldwin precisamos da sala.

            Os guardas hesitaram, claramente relutando em deixar seu líder sozinho com Tom. — Senhor?

            — Está tudo bem — assegurou Collier. — Eu não tenho nada a temer quanto ao agente Baldwin. — Ele olhou para Tom, cautelosamente. — Tenho, Tom?

            — Eu salvei a sua vida algum tempo atrás, não salvei?

            Com ajuda de Isabelle Tyler, Tom resgatara Collier dos Marcados durante o cinquenta/cinquenta. Se não fosse por Tom, o próprio Jordan seria um dos Marcados agora. E sabotando o Movimento ao qual dedicou sua vida.

            — Você salvou. — Collier conduziu sua equipe para o corredor. — Tirem cinco minutos, todos vocês.

            Diana lançou um olhar interrogativo para Tom. Ele não havia falado com ela sobre isto antes. — Tom?

            — Me dê só alguns minutos, Diana.

            Parecendo um tanto desconfortável, ela também saiu do escritório. Jordan esperou até que a porta se fechasse atrás dela e então sentou-se na cadeira de executivo atrás da velha mesa de Dennis Ryland. Seus dedos estavam unidos diante dele, enquanto assumia uma postura contemplativa. — Bem, o que você tem em mente, Tom?

            O cauteloso agente preocupou-se por um momento com câmeras ou microfones escondidos, e então concluiu que Collier também não gostaria que aquela conversa fosse gravada. — Você sabe do que se trata. O assassinato daquele cardeal em Roma. — Sua pressão sanguínea subiu ao lembrar-se de quando lera na Internet sobre a terrível morte de Calábria. — Droga, Jordan. Você deveria curar aquele homem, não matá-lo!

            Não era fácil, mas era possível libertar os Marcados dos invasores que haviam tomado conta de suas mentes. Tom era a prova viva disto. Uma dose letal de polônio radioativo, injetada diretamente em sua medula, havia destruído os nanodispositivos que infestavam seu cérebro. Depois Shawn usara sua habilidade para garantir que Tom sobreviveria ao processo. A experiência quase o matara, mas, quando acabou, ele era ele mesmo novamente. A cura havia funcionado.

            Exatamente como acontecera com Collier.

            — Em primeiro lugar — começou Jordan — você está embarcando na hipótese de que eu tive algo a ver com o recente e infortunado acidente de Emanuel Calábria. — Ele levantou uma das mãos para evitar a indignada contestação de Tom. — Pode muito bem ser que o Cardeal Calábria estivesse na moto errada no momento errado.

            Tom bateu na mesa com o punho. Um peso de papel de cristal, em forma de uma bola de luz vicejante, estremeceu. — Deixe de enrolação, Jordan. Nós dois sabemos que você mandou matar o homem.

            — Não sabemos nada sobre isto — insistiu Collier, calmamente. Ele parecia ter planejado aquela conversa por vários dias. — Eu te desafio a encontrar qualquer ligação entre o meu Movimento e os eventos em Roma. Verifique minha agenda. Eu não saio de Seattle desde a epidemia.

            — Dane-se o seu álibi — disse Tom. — Testemunhas oculares viram Richard Tyler na cena do crime. É óbvio que você o pegou para fazer seu trabalho sujo.

            — É mesmo? — Collier se recostou em sua cadeira. — Richard e eu raramente nos encontramos pessoalmente. Ele é independente, Tom. Você sabe disto. — Ele ajeitou o peso de papel na mesa. — O que posso fazer se ele resolveu nos livrar desse padre intrometido?

            A ligeira referência literária não divertiu Tom. — E quanto ao homem inocente cujo corpo foi confiscado pelos Marcados? Ele não merecia a chance de ter sua vida de volta? Como eu e você tivemos?

            — Em um mundo ideal, claro. — Uma expressão sombria tomou conta do rosto de Collier. — Mas considere a realidade prática, aqui. A “cura” de que você fala é difícil, dolorosa e leva tempo. Requer quantidades ilegais de material altamente radioativo e a participação ativa de Shawn Farrell. Dado o fato de quão poderosos são os Marcados, e o quão zelosos são em se protegerem, capturar um Marcado para “tratamento” nem sempre é possível. Imagine tentar trazer um cardeal ou um presidente sequestrado para Seattle, para ser curado. Richard deve simplesmente ter concluído que é mais fácil eliminá-los… Ou ao menos eu concluí. É trágico, mas a ameaça imposta pelos Marcados é grande demais para se correr riscos desnecessários. Hipoteticamente falando. — Ele olhou para Tom diretamente nos olhos. — Conhecendo Richard, tenho certeza de que ele preferirá curar os Marcados — quando for possível.

            Tom se recusava a deixar Collier colocar toda a culpa em Tyler.

— Você vai ao menos tentar salvar essas pessoas?

            — Eu preciso te lembrar — disse Jordan, irritado, — quem me deu os nomes dos Marcados, em primeiro lugar? — Sua paciência para com aquele debate estava claramente chegando ao fim. Tom imaginava se sua consciência o estava incomodando. — Você me pediu para tomar conta disso porque não conseguiria acesso a estas pessoas. E é exatamente o que estou fazendo… Do meu jeito.

            — Não está suficientemente bom — argumentou Tom.

            — Eu acho que isto não é mais da sua conta. — Ele se levantou e indicou a porta. — Tenha um bom dia, Tom. 

“Alice Underground” – Nova música da Avril Lavigne

Postado em Uncategorized em 30 30UTC janeiro 30UTC 2010 por brenooficial

Alguns de vocês já devem saber que eu sou muit fã da Avril Lavigne, e essa semana saiu a nova música do quarto CD (que será lançado em breve, provavelmente em junho), Alice Underground. A música será usada no filme ”Alice no País das Maravilhas”, que em breve estará nos cinemas. Na minha opinião, a música ficou muito legal, contando a chegada de Alice em Wonderland também sendo usada como metáfora de situações difíceis que passamos de vez em quando. Confira abaixo um vídeo (o clipe oficial também será lançado em breve) e logo depois uma review da música publicada no site About.com, por Bill Lamb. Se vocês gostam (ou não) da Avril ou da música dela, comentem =D

 

 

REVIEW: Avril lavigne – Alice

Após uma breve introdução surreal, “Alice” traz slides martelando ao piano, percussão e voz de Avril Lavigne que expressam a confusão de Alice, abrangidos pelo “buraco do coelho”. Logo, porém, a confusão dá lugar a um instinto de sobrevivência empolgante. O mundo pode ter virado bizarro, mas Avril como Alice insiste, “Eu vou conseguir. Eu vou sobreviver!”

Para alguns pode ser um bocado gritado, mas o produtor Butch Walker sabiamente explorou as arestas do desempenho vocal de Avril Lavigne. Isto dá uma sensação de realidade para a confusão encontrada por Alice, quando ela desembarcou no “País das Maravilhas”. O piano e percussão batendo também pode ser visto como um eco do próprio coração de Alice batendo como ela explora seu novo mundo.

Nas letras, com palavras de “Trippin ‘out”, Avril Lavigne traz Alice diretamente em um contexto contemporâneo. Isso permitirá que os jovens adeptos a ver mais claramente a aplicação metafórica de Alice no País das Maravilhas adaptem-se também às questões contemporâneas e dilemas. “Alice” funciona tanto como uma evocação, emocional e dramática de lutas com tempos de confusão na vida, como definindo o cenário para o filme fazendo ouvintes ansiosos para ver a história que gera esse coração batendo, a declaração de matérias-primas do instinto de sobrevivência.”

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 7 traduzido)

Postado em Uncategorized em 30 30UTC janeiro 30UTC 2010 por brenooficial

Pessoal, quem ler, deixe seu comentário. O número de comentários está diminuindo e, se continuar assim, terei que parar de postar, pois parece que não estão mais lendo a tradução. Comentem então, ok? =D

SETE

 

Foi dito que, quando Roma caísse, o mundo terminaria.

            O cardeal Emanuel Calábria sabia que não era somente isso. No futuro distante do qual ele viera, Roma era nada a não ser apenas ruínas, mas ainda assim a civilização resistira, mesmo que a Catástrofe tivesse deixado o planeta aos escombros. Somente uma grande cidade restara, separada por muros do enorme caos do lado de fora. Era sua missão fazer com que a última cidade da humanidade — a sua própria cidade — resistisse.

            Apesar da intromissão infernal de seu inimigo.

            A até então chamada Cidade Eterna se estendia diante dele enquanto ele jantava em um restaurante aberto na Vialle Trinita di Monti, com vista para os famosos Degraus Espanhóis. O crepúsculo lançava sombras arroxeadas sobre os telhados rosados da cidade em expansão abaixo. Pedestres atravessavam a rua, dirigindo lambretas e táxis. A mesa do cardeal ocupava a calçada estreita de uma igreja curvada do século 16. A mais comprida e mais extensa escadaria do continente, os Degraus Espanhóis, era flanqueada por palácios e mansões blindados. Jardins terraços e vasos de plantas adornavam os degraus. Multidões de turistas, casais de namorados, e futuros artistas e fotógrafos enchiam a praça no topo dos degraus, curtindo uma manhã quente de janeiro. Palmeiras balançavam ao vento.

            Uma batina negra, com botões e colarinhos escarlates, indicava a posição elevada do cardeal na Igreja. Uma cruz estava pendurada em uma corrente diante de seu peito. Uma faixa escarlate envolvia seu torso. Um chapéu vermelho cobria seu cabelo prateado. Um rosto gordo, com uma divisão no meio do queixo, mostrava seu grande apetite.

            Calábria engoliu um pouco de spaghetti alla pescatori com um gole de vinho branco. O Frascati era o único vinho que complementava macarrão divinamente. Ele saboreou mais um pedaço de lula encharcada em molho. Em momentos como esse, ele ficava grato de ter assumido uma identidade particular como aquela. Apesar dos serviços cansativos impostos a ele como o maior padre dessa religião primitiva, havia vantagens inegáveis por estar em Roma. Uma delas era que seria quase impossível ter uma refeição ruim.

            Era uma pena que a cidade seria destruída dali a muitas gerações, mas que fosse. A história exigia seus sacrifícios, pelo menos se o seu futuro fosse ser preservado. O cardeal, ou o viajante do futuro que tomara o corpo corcunda de meia-idade de Calábria, lembrou-se brevemente da cidade brilhante que ele e seus colegas Marcados haviam deixado para trás, onde nunca mais voltariam. Afinal, sua peregrinação ao século 21 fora uma viagem apenas de ida. Eles estavam presos a essa era volátil pelo resto de suas vidas.

            Mas pelo menos a comida era boa.

            — Com licença, vossa Eminência. — Uma garçonete jovem e bonita aproximou-se de sua mesa. Seu charme núbil o fez se arrepender de que, pelo menos em público, ele era forçado a obedecer a um voto de celibato. O olhar preocupado em sua expressão sugeria que ela tinha algo mais em mente além de apenas encher novamente seu copo de água. — Desculpe interromper o senhor, mas eu poderia pedir alguma ajuda espiritual?

            Duas mesas longe, seus guardas levantaram-se. Membros da elite do Vaticano Guarda Suíça, eles vestiam trajes civis para melhor se encaixarem ao cenário. Eles olharam a garçonete impertinente suspeitosamente. Eram tempos perigosos e o cardeal tinha muitos inimigos. De fato, como chefe da Congregação para Doutrina da Fé, formalmente conhecido como Escritório Sagrado da Inquisição, Calábria era o crítico sobre a “falsa religião” de Jordan Collier mais comentado do Vaticano. O pronunciamento mais recente da Congregação que dizia que o uso de promicina podia ser considerado um pecado mortal tomara as manchetes e gerara controvérsias pelo mundo todo. Por isso seus guardas estavam tão cautelosos. Calábria recebera várias ameaças de morte dos seguidores de Collier.

            Ainda assim, ele acenou para que os guardas exagerados se afastassem. Ele vivera como o Cardeal Calábria o suficiente para reconhecer um católico devoto se o visse; a única ameaça que a garota oferecia era ao seu fingimento de castidade. Ele deu uma olhadela em seu generoso decote.

            — Como posso ajudá-la, criança?

            — Minhas amigas e eu estivemos conversando sobre as novidades da América. O mundo todo parece estar mudando, de uma maneira muito assustadora, e não consigo para de pensar… — Ela respirou fundo antes de conseguir falar. — O senhor acha que Jordan Collier é o Anti-Cristo?

            Calábria reprimiu um sorriso perante a óbvia ansiedade da garota. Claramente, seu trabalho no campo da fé estava gerando frutos. Escondendo sua satisfação, ele respondeu a pergunta dela com uma gravidade falsa.

            — A Visão Sagrada ainda tem que apresentar um veredicto final sobre esta situação incômoda, mas receio que sua suspeita possa ser verdadeira. Há algo realmente perturbante na ascensão desse homem ao poder e a blasfêmia na promessa de se tornar rei no Reino de Deus. Se não a própria Besta, ele certamente é um falso profeta, e os dons que seus seguidores possuem podem ser de origens demoníacas.

            O rosto da garota ficou pálido enquanto ela assimilava cada palavra. Observando seu aperto trêmulo no jarro de água, Calábria começou a temer pela segurança de seu espaguete.

            — Mas não se desespere, minha criança. Esse mal não pode triunfar, não se fortalecermos nossas almas contra essas tentações malignas da promicina. Enquanto a Igreja puder confiar nos fiéis e nas ações de pessoas boas como você, esse movimento profano não desviará os filhos de Deus da salvação.

            Suas palavras pareceram confortar a garçonete. Ela acenou avidamente, e se curvou para beijar seu anel. — Obrigado, vossa Eminência. Agora sei que dormirei melhor.

            Ele levantou-se atrapalhadamente de seu assento e concedeu uma benção sobre ela.

            — Agora, então, talvez eu possa ver o cardápio de sobremesa.

            — Sim, padre, com certeza!

            Discretamente admirando o traseiro da garota enquanto ela se afastava, ele voltou à sua refeição com uma sensação definitiva de realização. Seu encontro com a garçonete crédula o encorajou a pensar que, apesar das reviravoltas, ele e seus companheiros ainda tinham chance de dar a volta por cima e prevenir que Jordan Collier mudasse o futuro. Sua posição elevada no Vaticano o dava influência sobre literalmente milhões de primitivos ingênuos do século 21, e ele ainda aspirava por maior poder. O cardeal Emanuel Calábria ficara em terceiro na eleição papal, ora, e o Papa atual não ficaria lá para sempre. Se tudo corresse de acordo com o plano, as ambições perigosas de Jordan Collier desapareceriam numa lufada de fumaça…

            Nesse meio tempo, porém, era melhor ficar atento. Ele acenou para seus guardas atentos, grato por tê-los cuidando dele. A Terra Prometida estava há milhares de quilômetros, mas ele não podia se dar ao luxo de confiar demais em si mesmo. Três de seus colegas operantes haviam sido exterminados, e o âmbito de Collier crescia mais a cada dia. Olhando em volta pela praça lotada, de repente sentiu-se incomodamente exposto. Talvez ele não devesse ter deixado a rígida segurança do Vaticano.

            Seus guardas haviam discutido seu passeio, devido às recentes ameaças, mas Calábria ignorara sua precaução. Às vezes ele simplesmente tinha que escapar da sufocante santidade da Cidade do Vaticano e respirar um pouco de ar puro. Além disso, esse ristorante era um dos seus favoritos.

            O aroma sedutor do espaguete o lembrou de seu apetite. Cortando um gordo pedaço de mexilhão, o levou até sua boca. Quando ele começou a engolir, no entanto, seus olhos arregalaram-se ao ver um negro alto saindo da estação de metrô do outro lado da rua. Algo na aparência do homem sacudiu sua memória, mas levou um segundo para ele dar um nome àquele rosto. Eu conheço aquele homem. Ele é…

            Richard Tyler!

            Seu coração disparou. A filha de Tyler, Isabelle, fora escalada para ser a última arma dos Marcados contra os 4400, antes que aquela operação desse tão errado. Seus contatos nos EUA informaram Calábria da recente fuga de Tyler, mas Roma era o último lugar onde ele esperava que o americano fugitivo aparecesse. O cardeal percebeu logo que isso não podia ser uma coincidência.

            Seus olhares se encontraram através da rua movimentada. O rosto de Tyler estava impiedoso e imperdoável. Calábria abriu a boca para alertar aos guardas, mas antes que pudesse dizer uma palavra, o mexilhão gorduroso escapou de seu garfo e, como se estivesse vivo, parou em sua traqueia. Engasgado, ele tossiu e apertou a garganta, mas seus esforços convulsivos não adiantaram para desfazer a obstrução da carne, que parecia estar presa no lugar por uma força invisível. Tyler está fazendo isso, percebeu Calábria. Ele saiu para vingar a morte da filha!

            Um dos guardas, um loiro forte e discreto chamado Buchs, correu para ajudar Calábria. Arrancando a vítima que se debatia de seu assento, Buchs aplicou a manobra de Heimlich*, mas sem sucesso; o mexilhão mortal recusou-se a sair. Com o rosto já ficando roxo, Calábria apontou freneticamente para Tyler.

            — É ele — conseguiu arquejar. — Com a mente…

            O outro guarda, Roest, entendeu a mensagem. Sacando uma pistola automática SIG P225 de sua jaqueta, ele mirou em Tyler. Uma força invisível jogou seu braço para o alto e ele atirou inutilmente para o céu. Um segundo mais tarde, a arma foi arrancada de seus dedos. Ela rodopiou sobre os Degraus Espanhóis antes de cair na fonte Baroque na base da escadaria. O soldado assustado exclamou surpreso.

            Um pandemônio se formou pela rua e pelos degraus próximos. Pessoas que jantavam se jogaram embaixo de suas mesas. Turistas e artistas correram, buscando proteção desesperadamente. Os gritos perturbavam a tranquila noite de inverno. Somente Richard Tyler permaneceu imóvel, parado indiferentemente no meio da rua. Seus olhos negros permaneciam fixos em seu alvo sufocante. Sua expressão dura não revelava nenhum sinal de misericórdia.

            Não é justo, pensou Calábria. Infelizmente, o processo de se implantarem em outra mente deixava os Marcados incapazes de adquirirem suas próprias habilidades sobrenaturais. A escuridão começou a invadir a visão do cardeal. Seu rosto gordo assumiu um tom azulado. Não dá para revidar!

            Abandonando seus esforços inúteis para desengasgá-lo, Buchs agarrou uma faca da mesa de Calábria. O cardeal engasgado percebeu assustadoramente que o guarda desesperado queria fazer uma traqueostomia**, mas sem anestesia. Calábria se preparou para a dor, mas não precisou. Assim como a arma do outro guarda, a faca voou dos dedos de Buchs. O homem tentou pegar sua arma, só para perdê-la do mesmo

N. do. T: *A Manobra de Heimlich é o melhor método pré-hospitalar de desobstrução das vias aéreas superiores por corpo estranho. Essa manobra foi descrita pela primeira vez pelo médico estadunidense Henry Heimlich em 1974 e induz uma tosse artificial, que deve expelir o objeto da traqueia da vítima. Resumidamente, uma pessoa fazendo a manobra usa as mãos para fazer pressão sobre o final do diafragma. Isso comprimirá os pulmões e fará pressão sobre qualquer objeto estranho na traquéia.

** Traqueostomia é um procedimento cirúrgico no pescoço que estabelece um orifício artificial na traquéia, abaixo da laringe, indicado em emergências e nas intubações prolongadas.A incisão é feita entre o 2º e 3º anel traqueal. O objetivo é não prejudicar as cordas vocais do paciente ao passar o tubo de ar.

jeito. Arfando para respirar, o cardeal não conseguiu deixar de se impressionar com o tanto de objetos que Tyler conseguia manipular ao mesmo tempo. O homem obviamente dominara sua habilidade telecinética.

            — Pegue-o! — gritou Buchs para Roest. Indo lutar diretamente com o inimigo, os guardas desarmados dispararam pela rua na direção de Tyler. Buzinas soaram e freios gritaram enquanto os guardas corajosos atravessavam o trânsito. Um estudante de arte montado numa lambreta Vespa desviou freneticamente para não atropelar os homens, e foi derrapando até parar apenas há alguns quilêometros da mesa de Calabria. Os olhos do jovem quanse pularam para fora das órbitas ao verem a confusão diante dele.

            Tyler brandiu seu braço e os guardas foram jogados ao chão, como que por um vento muito forte. Cambaleando sem ajuda, eles caíram 138 degraus antes de atingirem a praça abaixo. Calabria se viu subitamente sem defensores.

            Ou talvez não. Inesperadamente, a garçonete bonita apareceu correndo do nada. — Demônio! — sibilou ela, enquanto arremessava um copo de vinho tinto no rosto de Tyler. Ela se jogou emcima do 4400 assustado, chutando e arranhando. — Deixe o Padre Sagrado em paz!

            O ataque tirou a concentração de Tyler. O mexilhão teimoso escapou pelos lábio de Calábria e ele viu que podia respirar novamente. Sugando ávidamente grandes lufadas de ar, ele se arrastou para longe da mesa, apressadamente. Porcelanas e vidros se quebravam pela calçada. Macarrão e frutos do mar se espalhavam pelo asfalto.

            O cardeal fugitivo não podia se importar menos com a confusão. Ele precisava sair dali enquanto ainda tinha uma chance!

            Mas o tempo já estava acabando. Tyler rapidamente se recuperou do ataque da garota. Mostrando uma compostura admirável, ele a levantou com a mente e a colocou cobre o toldo colorido na entrada do restaurante. Uma marca vermelha brilhante molhava a frente de sua camisa. Marcas de arranhões marcavam seu rosto. Ele limpou o vinho de seus olhos e procurou por Calábria.

            O cardeal tirou sua própria arma de dentro de sua batina. Ele carregava a Beretta consigo para todo lugar, até mesmo para as missas. Seus dedos trêmulos atrapalharam seu equilíbrio. A pistola tremeu fortemente em suas mãos. Ela voou diretamente para a palma de Tyler que esperava no ar.

            Mannaggia! Jurou Calábria. O que ele não daria agora por um mini disruptor neural? Para seu azar, eles não seriam inventados nos próximos cem anos, e seria impossível replicar materiais do século 21.

            Deprovido de sua arma, a fuga era seu único recurso.

            Diferente do resto da multidão, que estava deixando a área em massas, o estudante com a lambreta demorou para entrar em ação. Desesperado para fugir, Calábria empurrou o jovem de cima da Vespa e pegou a lambreta para si. Sua bata enrolou-se à suas pernas enquanto ele subia apressadamente no banco. Agarrou o guidão com os nós dos dedos brancos. Ligou o veículo.

            Se eu apenas conseguir me distanciar de Tyler, sair do alcance de sua habilidade…

            A roda traseira da lambreta girou furiosamente, mas o veículo não saiu do lugar. Calábria atrapalhou-se tentando descobrir o que ele estava fazendo errado, então percebeu que o problema não era com a Vespa. Ele olhou por cima de seu ombro e viu Tyler o encarando. O 4400 vingativo segurava a lambreta com sua mente.

            Calábria percebeu que não ia a lugar algum.

            — Não — implorou ele. — Você pegou a pessoa errada! — Ele viu sua vida como Emanuel Calabria chegando um fim. Só podia desejar que seus aliados do futuro encontrassem para ele um novo hospedeiro depois que recuperassem os nanodispositivos com sua personalidade. — Não tenho nada a ver com a morte da sua filha…

            Richard apenas olhou para o outro homem. Calábria imaginou o que ele estava esperando.

            — Está olhando para o lado errado — falou uma voz em italiano, com um sotaque americano. Calábria girou sua cabeça para ver outro homem negro sair de baixo do toldo de uma lanchonete ali perto. Ele era mais novo e mais baixo que Tyler, mas também carregava a mesma expressão impiedosa. Ele enrugou as sombrancelhas. Seus olhos se estreitaram enquanto ele se concentrava. — Comece a rezar.

            Os guidões da lambreta de repente ficaram quentes. A temperatura no mostrador do painél subiu para o vermelho. Vapor começou a subir do motor atrás de Calábria. Ele deu uma guinada por força do hábito.

            A Vespa explodiu atrás dele.

 

Richard assistiu à bola de fogo engolindo o cardeal Marcado e o veículo roubado. Ele levantou as mãos para proteger o rosto do calor e do clarão enquanto simultaneamente reduzia a explosão com uma bolha invísivel para impedir que qulquer espectador se ferisse com algum estilhaço. As  brilhantes chamas laranjas ficaram mais claras quando seu parceiro, Yul Lacey, usou sua habilidade termocinética para se certificar de que cada centímetro do corpo de Calábria fosse consumido. Era vital fazer com que todas as máquinas microscópias no cérebro do cardeal fossem destruídas, caso contrário os Marcados poderiam simplesmente implantar sua consciência em outro receptáculo inocente.

Ou pelo menos fora isso que haviam lhe explicado.

Uma pontada de remorso formigou em sua consciência. Embora tivesse pilotado aviões com bombas na Coréia, ele nunca havia matado alguém a sangue frio antes.

Isso foi pela Isabelle, lembrou a si mesmo.

Sirenes soaram de todas as direções, aumentando a cada segundo. Um carro de polícia chegou derrapando alguns metros longe da lambreta em chamas. Policiais usando uniformes azuis pularam do carro. Protegendo -seatrás de seu veículo, eles apontaram as armas para Richard e Yul.

Fermate! — ordenou um policial, parecendo tenso.

Richard flexionou sus músculos mentais. Houve um tempo, quando ele estava descobrindo suas habilidades, em que ele só levantava pequenos objetos por vez, mas isso foi há muito tempo atrás. Sem esforço, ele jogou os homens para trás. Eles se dispersaram como pinos de boliche enquanto rolavam rua abaixo. Emcima do toldo, a garçonete heroica gritava de desespero.

Já chega, pensou Richard. Eles haviam feito o que vieram fazer. Agora ele só queria sair dali. Cadê nossa carona?

Bem nessa hora, um lustroso Porsche negro chegou acelerando na cena da direção oposta aos policiais. O carro esporte parou no meio-fio. A porta do passageiro se abriu. A jovem gótica, Evee Borland, chamou os dois homens.

— Terminaram?

Richard perguntou a Yul com um olhar.

— Ele torrou — disse o outro homem, referindo-se a Calábria.

— E os nanodispositivos? — perguntou Richard.

— Nada a não ser cinzas.

Isso foi o suficiente para Richard. Eles adentraram o Porsche, que subiu na calçada para fazer uma curva em U antes de começar a acelerar na direção de seu esconderijo em Trastevere. Carros de polícia e caminhões de bombeiro, com as luzes de emergência piscando, passaram por eles enquanto deixavam as cinzas do cardeal para trás. Richard afundou-se no assento do passageiro enquanto Nicole e Yul se parabenizavam pelo sucesso da missão. Eles ficaram observando Calábria por horas, ironicamente com a ajuda de uma freira clarividente que era uma dos 4400 originais, só esperando que o alvo deixasse a segurança do Vaticano. Aquela noite todos os esforços haviam valido a pena.

Então por que eu não me sinto mais eufórico? Imaginou Richard. Seu rosto doía onde a italiana arranhara. Diferente de seus novos amigos, ele sentia-se mais vazio do que entusiasmado pelos eventos daquela noite. Não podia deixar de lembrar que o verdadeiro Emanuel Calábria perecera em algum lugar junto com traiçoeiro invasor ocupando seu corpo. Ele desejava que houvesse algum jeito de libertar as vítimas inocentes dos Marcados ao invés de simplesmente matá-las, mas, de acordo com Collier, esse não era o caso. O único jeito de eliminar a ameaça dos Marcados era matando seus hospedeiros. Richard suspirou para o caminho difícil que vinha pela frente.

Um já foi. Faltam mais seis.

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 6 traduzido)

Postado em Uncategorized em 23 23UTC janeiro 23UTC 2010 por brenooficial

Antes de colocar esse novo capítulo, queria deixar um agradecimento à Helena, que está me ajudando com a tradução de algumas partes do livro, inclusive esse capítulo. =D

Comentem mais, pessoal. Quem ler, deixa um comentário e, já que estão aqui, por que não conhecer um pouco do livro que eu escrevi? Leiam o prólogo, se quiserem…

http://brenooficial.wordpress.com/2009/07/07/prologo-breno-o-anel/

SEIS

 

 — Vocês têm certeza de que era o corpo errado?

            Bernard Grayson, da Funerária Grayson & Son, ficou chocado com a notícia de que o corpo de um estranho fora encontrado no caixão de Danny Farrell. Seu rosto delgado era composto por linhas finas e angulosas. A linha do cabelo em forma de “V” marcava o alto de sua testa. Um austero costume preto denotava bem sua profissão. Ele se achava sentado em uma grande escrivaninha em madeira de lei, enquanto Diana e Tom o confrontavam com a descoberta que haviam feito no cemitério. Prateleiras de livros se alinhavam em uma das paredes, ao passo que uma outra estava cheia de fotos de Grayson com diversos políticos e celebridades. As paredes azuis clara eram agradavelmente suaves. O som de um órgão tocava baixinho no aparelho de som. A Grayson & Son fora responsável pelos funerais de Danny e da mãe dele.

            — Positivo — confirmou Tom. — Os registros dentários identificaram o corpo como sendo de Delbert Ludden, um sem-teto que foi morto durante as manifestações no ano passado, mais ou menos na mesma época em que meu sobrinho morreu. — Ele e Diana haviam deixado seus uniformes da NTAC no carro para evitar chamar atenção. — Não havia nenhuma evidência de que o corpo de Danny tenha ocupado aquele caixão.

            Diana inclinou-se para frente em sua cadeira.

— Mas o caixão era idêntico ao que Shawn Farrell adquiriu de sua empresa há dois meses.

            —Meu Deus. — Grayson enxugou a testa suada com um lenço. Ele olhou de relance para a porta do escritório, para se certificar de que estava fechada. — Não tenho como dizer o quão humilhante é isto. Eu só posso lhes garantir que nunca aconteceu algo parecido antes. A Grayson & Son goza de uma reputação impecável, desde que meu pai fundou o negócio, há trinta anos. — Ele parecia envergonhado perante Tom. — Você e sua família merecem minhas sinceras desculpas pelo que possa ter dado errado.

            Diana continuou a pressionar.

— Você tem alguma ideia do que possa ter acontecido?

            — Eu gostaria de ter — disse Grayson. — Vocês têm que entender, foi uma época muito caótica. A epidemia ceifou mais de nove mil vidas em uma questão de dias. A indústria funerária da cidade foi pressionada até o limite. Nós fomos atropelados pela fatalidade. — Ele puxou pela memória. — Eu só posso concluir que, na confusão daqueles dias sombrios, algum tipo de falha aconteceu. — Ele afrouxou o colarinho. — Mais uma vez, eu sinto muito por esses acontecimentos angustiantes.

            Tom queria respostas, não desculpas.

— Então onde está o corpo do meu sobrinho agora?

            — Para ser honesto, eu não faço a menor ideia. — Grayson abriu os arquivos mais relevantes de seu laptop. Ele verificou rapidamente a tela. —Todos os nossos registros parecem estar em ordem. Seu sobrinho deveria estar enterrado ao lado da mãe.

            Diana fez a pergunta lógica.

— Bem, onde é que o corpo de Ludden deveria estar?”

            — Deixe-me ver. — Grayson digitou o nome do mendigo no computador. — De acordo com nossos registros, os restos mortais do Sr. Ludden foram cremados. As cinzas resultantes foram recolhidas pelo município para serem espalhadas pelo planejado parque memorial. É possível que ainda estejam armazenadas em algum lugar.

            Tom não engoliu a explicação do papa-defunto. Ele se lembrava claramente de ter visto o corpo de Danny dentro do caixão, no velório. Ou o que aparentava ser o corpo de Danny. Tentou imaginar como poderiam ter sido enganados. Metamorfose? Ilusão coletiva? Projeção astral? Na Terra Prometida, as possibilidades eram infinitas.

            — Belo escritório — comentou Diana. Levantando-se de sua cadeira, ela se dirigiu até a parede, onde uma foto de Grayson ao lado de Jordan Collier ocupava lugar de destaque. Ela sacudiu a cabeça diante do retrato. — Você é fã dele?

            Grayson se encolheu em sua cadeira.

— Eu acho que o Sr. Collier é um grande homem — Uma expressão ressabiada encorajou os agentes a confrontá-lo. — Você já leu o livro dele? “De 4400 para mais”?

            — Eu tenho uma cópia autografada — disse Tom, secamente. Ele não se surpreendeu com a admiração do homem por Collier. Uma pesquisa prévia já havia revelado inúmeras ligações entre o agente funerário e o Movimento de Collier. Grayson & Son parecia ser a funerária preferida dos seguidores de Collier e suas famílias. Eles haviam inclusive realizado o funeral de Isabelle Tyler. Detendo a preferência, Grayson poderia estar apenas tirando vantagem de um novo e lucrativo fenômeno demográfico, mas a conexão com Collier era suspeita. Talvez o desaparecimento do corpo de Danny não tivesse sido apenas um acidente.

            — Acho que teremos que inspecionar as dependências da empresa — declarou Diana.

            A cortesia solícita de Grayson evaporou.

— Por quê? — ele indagou, na defensiva. — Porque eu apoio Jordan Collier e seus esforços para fazer do mundo um lugar melhor? Isto não é crime, ao menos não em Seattle.

            — Não — ela concordou — mas a apropriação indébita de restos mortais é. Nós não queremos prestar queixa, mas você estaria melhor se cooperasse conosco. — Ela olhou de relance para Tom. — Especialmente se você não quiser que meu parceiro abra um processo civil também.

Grayson empalideceu com a possibilidade, mas manteve pé firme.

 — Acho que eu valorizo demais a privacidade de meus clientes para me comprometer nesse sentido. — Ele se levantou de sua cadeira e gesticulou na direção da porta. — Estejam à vontade para inspecionar as áreas públicas, as salas de velório, capelas e tudo o mais, mas as salas de preparação e o crematório são áreas restritas. É uma questão de princípios.

            — É assim? — disse Tom, duvidando. O fato do agente funerário desafiá-los teimosamente, mesmo com a ameaça de inquérito e falência em potencial, sugeria que ele definitivamente tinha algo a esconder. Tom tirou um documento dobrado do bolso de sua jaqueta. — O caso é que nosso mandado vence os seus princípios. — Ele entregou a Grayson a ordem judicial, discretamente obtida com um dos poucos juízes de Seattle que não estavam comprometidos com Collier. — Veja só.

            — O quê? — Aturdido, Grayson folheou o documento, antes de jogá-lo na mesa. Sua expressão facial era pura raiva. “Isto é um despropósito! — Ele pegou o telefone. — Eu preciso falar com meu advogado.

            Ou talvez Jordan Collier?

            — Vá em frente — disse Tom, levantando-se da cadeira para se juntar a Diana. Ele imaginava se o recalcitrante agente funerário esperava que Collier o protegesse de qualquer investigação. — Enquanto isso, nós iremos dando uma olhada por aí, começando por aquelas áreas restritas que você mencionou.

            — Não! Não podem — protestou Grayson. Esquecendo-se do telefone, ele correu de trás de sua mesa para deter os dois. — Eu não entendo. O que vocês esperam encontrar? Eu prometo, o corpo do Sr. Farrell não está aqui. Por que estaria, após todas essas semanas?

            — Me diga você — replicou Tom. As objeções veementes do homem apenas aumentavam sua determinação de vasculhar a funerária de cima a baixo. Ele não esperava realmente encontrar o corpo de Danny nas dependências desta, mas talvez pudessem obter alguma pista que revelasse o que fora feito dele. E o que Jordan Collier tinha a ver com aquilo, se é que tinha.

            — Dizer o quê? — O papa-defunto, consternado, parecia a ponto de arrancar o pouco que lhe restava de seus cabelos. Ele retorcia suas mãos suadas. O suor brotava de sua testa. — Eu não tenho nada a esconder!

            Tom abriu a porta.

— Então você não tem nada com o que se preocupar. Mas precisamos ver por nós mesmos.

            — E vamos precisar daquele laptop — acrescentou Diana. Sem pedir permissão, ela confiscou o computador da mesa de Grayson. — Bem como seus registros acerca de Danny Farrell, Delbert Ludden, e o resto dos casos do cinquenta/cinquenta.

            Grayson fitou tristemente seu laptop perdido.

— Mas nós registramos centenas de vítimas. Centenas!

            — Então é melhor você começar a se mexer — disse Tom.

            Ele e Diana saíram do escritório, com Grayson ansioso atrás deles. Enquanto isso havia um funeral em andamento em uma das salas de velório adjacentes. Olhos curiosos se voltaram na direção dos agentes. Tom sentiu uma pontinha de culpa por causar aquela perturbação, mas eles não poderiam jamais ir embora e voltar mais tarde; isso daria a Grayson uma chance de se desfazer de alguma evidência que poderia incriminá-lo. Eles apenas teriam que tentar se discretos. Mais uma razão para começar pelo andar de baixo, decidiu ele.

            Evitando as áreas públicas, eles se dirigiram para os fundos da casa. Um belo aviso de ACESSO RESTRITO AOS FUNCIONÁRIOS enfeitava a entrada de uma escadaria que descia para o porão. Uma porta trancada os recebeu ao final dos degraus.

            Tom virou-se para Grayson, que estava parado exatamente atrás dele na escada.

— As chaves.

            — Esqueça — o homem resmungou. Ele estendeu os braços, como se os oferecesse para serem algemados. — Prenda-me se você quiser, mas eu conheço meus direitos. Você não vai se safar dessa.

            Aquilo era uma ameaça? Mais uma vez, Tom imaginou que Grayson estivesse esperando que Collier ou seus assessores pudessem intervir em seu favor. Isso poderia acontecer, ele admitiu, se o agente funerário tivesse a chance de contatar seu glorioso líder. E é por isso que precisamos passar por esta porta agora.

            Desafiando-o, ele pegou as algemas.

—Vigie ele — pediu a Diana, enquanto algemava os pulsos do homem atrás das costas. O papa-defunto de meia-idade parecia estar desarmado e em desvantagem, mas quem saberia quais habilidades estranhas ele poderia possuir? Bernard Grayson não estava listado entre os 4400, mas isto não significava muito. Graças ao cinquenta/cinquenta, havia inúmeros p-positivos não registrados em Seattle naqueles dias. Pelo que sabiam, ele poderia esguichar veneno de seus olhos ou incendiá-los com um simples pensamento.

            Entretanto, ele limitou-se a olhar com raiva para Tom, enquanto este o revistava para achar as chaves. Um barulhinho metálico encorajador entregou o esconderijo das mesmas. Tom exigiu as chaves e destrancou a porta.

— Está bem, vamos descobrir o que você está tão determinado em esconder de nós. Por uma questão de princípios, é claro.

            Tom nunca havia estado nos bastidores de uma casa funerária antes, mas ele imaginava que não poderia ser diferente do necrotério do QG. Uma olhada rápida pareceu confirmar suas expectativas. Divisórias separavam o porão em três ou quatro câmaras interligadas. Redomas refrigeradas mantinham os clientes do necrotério gelados. O cadáver de um ancião estava sobre uma mesa metálica de embalsamento. Um pano modesto, cobrindo-lhe a virilha, ajudava a preservar sua dignidade. Uma máquina de embalsamar, cheia de um líquido rosa translúcido, rugia ao fundo. Ralos metálicos tinham sido instalados no chão de ladrilhos. Trocáteres, instrumentos de sutura, cânulas e outras ferramentas estavam espalhadas por várias bandejas e balcões. Estantes de vidro continham uma grande variedade de preparados químicos. Uma pia de porcelana branca jazia na parede mais distante. Lâmpadas suspensas brilhavam intensamente. Ventiladores barulhentos e exaustos se esforçavam para limpar o ar, que cheirava levemente a formaldeído e putrefação. Portais se abriam para as câmaras adjacentes. Espreitando através de uma porta à direita, Tom vislumbrou uma grande fornalha de aço, com controles de ajuste de temperatura. Uma esteira rolante esperava para conduzir corpos para dentro do crematório. O sistema de ar condicionado mantinha o porão vários graus mais frio do que os escritórios lá em cima.

            Tudo parecia em ordem, apesar de meio bagunçado, então por que Grayson fizera tanto auê?

            — Tom — disse Diana, ansiosa. — Venha aqui.

            Ela entrara por um portal no que, à primeira vista, parecia ser uma segunda sala de preparação. Ele se apressou através da câmara para se juntar a ela. — O que foi?

            — Veja este equipamento — ela disse, apontando para um grupo de aparelhos que pareciam caros. — Centrífugas, tubos de ensaio, placas de Petri, microscópios de elétrons, incubadoras de cultura, até um moderno analisador de DNA. Eu sei que não sou uma expert, mas estou bem certa de que isto não é equipamento padrão do ramo de funerais. — Ela contornou a sala para confrontar Grayson, que já se encontrava ao pé da escada. “Qual é a explicação, Sr. Grayson? Está querendo entrar no ramo da guerra dos germes ou algo parecido?

            O agente funerário algemado lançou um olhar furioso para os dois agentes.

— Eu não vou dizer nada. Isto aqui é propriedade particular.

            — Talvez — disse Tom — mas isto me parece mais do que um passatempo. — Ele avaliou o laboratório oculto. Era mesmo um aparelho de tomografia ali no canto? Ele não era um cientista, como Diana, mas até ele podia dizer que todo aquele equipamento médico de alta tecnologia não tinha nada a ver com a preparação de corpos para enterros. — Precisamos fotografar todas estas instalações, talvez até trazer Marco aqui para ver tudo isto.

            Marco Pacella era o gênio residente da NTAC, e chefe da “Sala de Teorias” da Divisão Noroeste. Se ele não conseguisse descobrir o que Grayson pretendia com todo aquele equipamento, ninguém mais o faria.

            — Ou, se nós pudermos confiar nele, Kevin Burkhoff — sugeriu Diana. Uma etiqueta de “agentes biológicos nocivos” estava afixada em um armário de metal. Olhando dentro do container, ela encontrou promicina suficiente para decretar uma sentença de vida ou morte para qualquer lugar além de Seattle. O brilho esverdeado do neurotransmissor ilegal se espalhou pelo laboratório. — OK, isto definitivamente não é fluido de embalsamento — Ela sacudiu a cabeça, desnorteada. — Mas o que isto tem a ver com o seu sobrinho?

            — É o que eu quero descobrir — disse Tom, com raiva. Entrando na câmara frigorífica, seu olhar se ateve às estantes refrigeradas que continham a clientela inerte. Etiquetas escritas a mão, afixadas na borda das cúpulas, identificavam a maioria dos ocupantes pelo nome. Um grupo de gavetas, entretanto, estava identificado apenas por números. Num impulso, Tom segurou a alça da gaveta do meio e a puxou com força. Um sopro de ar gelado enevoou brevemente a atmosfera refrigerada. Um par de pés descalços aparecia de dentro da figura coberta que estava deitada dentro da cavidade aberta. Uma etiqueta afixada num dos dedos continha apenas um número de código: # 11.

            — Espere! — entregou Grayson. — Deixe isso aí.

            Só porque você quer, pensou Tom. Ignorando os protestos do papa-defunto, ele puxou para fora a bandeja que continha o corpo. Um fino lençol verde ocultava a identidade do cadáver, mas o tamanho e o formato do corpo lhe causaram um sentimento ruim. Preparando-se para um choque, ele puxou o lençol.

            O rosto de Danny estava pálido e sem vida.

            — Seu ladrão de corpos idiota! — Girando o corpo, Tom agarrou Grayson pelo colarinho e o jogou contra a parede. — O que você quer com meu sobrinho?

            Grayson deu um sorriso amarelo para o agente irritado. Seus olhos brilhavam de fervor. — O Grande Passo para Adiante ainda não está completo. Danny Farrell ainda tem um papel a cumprir neste grande plano, apesar de sua morte infortunada.

            — Que merda você quer dizer com isto? — Tom tentou tirar uma resposta do seu prisioneiro, sacudindo-o. — Fale, seu demônio desgraçado!

            — Calma, Tom! — Diana o aconselhou. — Eu sei que você está aborrecido, mas não faça nada de que possa se arrepender.

            Falarei com Bernard aqui, ele pensou. Ele é quem cometeu um grande erro aqui, mexendo com minha família. Tom não estava certo de que Diana estava usando a tática de “policial bonzinho/policial malvado”1 ou se ela realmente estava com medo de que ele perdesse o controle, mas de toda maneira ele não iria desistir enquanto o papa-defunto imprensado na parede não vomitasse a explicação para o que estava acontecendo ali. Está começando a parecer que Dennis estava na pista certa.

            Mas antes que Grayson pudesse abrir o jogo, Tom percebeu indícios de movimentação pelo canto de seus olhos. Para sua surpresa, um jovem de jaleco pulou de detrás da porta ao pé da escada. Tom se repreendeu mentalmente por não verificar completamente o porão antes de começar a revista; ele deixara sua ligação pessoal com o caso prejudicar sua disciplina.

— Diana, cuidado!

            O aviso veio tarde demais. O empregado anônimo pegou uma bandeja de aço de um dos balcões e arremessou contra a cabeça de Diana. A arma improvisada a atingiu com um impacto estridente. Diana desmaiou de cara no chão de ladrilhos. Ela gemeu, cheia de dor.

            — Diana! — Ele não conseguia saber se ela estava inconsciente ou não. Soltando Grayson, correu para confrontar o agressor dela. Sacou a arma no coldre lateral. — Mãos ao alto! Não mova um músculo!

            O adolescente magricela deu uma risadinha ao ver a arma de Tom, revelando uma boca repleta de ganchos metálicos. A acne marcara sua face rude. Mechas loiras e engorduradas balançavam diante de seus olhos. Calças jeans azuis contrastavam com seu jaleco branco e manchado. Ignorando a ordem de Tom, ele correu para a mesa de embalsamento e pegou um trocáter ameaçador de um kit de instrumentos na ponta da mesa. A agulha de metal reluzente cintilou sob as luzes do teto. Ele o brandiu na frente de Tom como uma espada.

*N. do T: “Good cop/bad cop” – estratégia de abordagem do criminoso, efetuada em dupla por policiais, na qual o primeiro o interroga de maneira agressiva e incisiva, preparando o terreno para que o segundo, utilizando uma aproximação mais tranquila, pareça simpático e tenha melhores chances de obter uma confissão, por exemplo.

            — Largue isto — rosnou Tom. Elevou sua arma até a cabeça do garoto. — Agora.

            — Vá em frente — provocou ‘Ganchos’. — Puxe o gatilho. — Ele olhou para Grayson, atrás de Tom. “Bernie, saia daqui. Eu tomo conta desses storm troopers**!

            O papa-defunto correu de volta para a escada.

— E quanto a você? — perguntou ao parceiro de crime.

            — Você é mais importante — insistiu Ganchos. — O futuro precisa de você. Vai!

            Diana gemeu fracamente no chão. Apesar de armado, Tom sentiu que a situação rapidamente saía de seu controle.

— Nenhum de vocês vai a lugar algum. Agora abaixe essa arma. — Ele engatilhou a Glock semiautomática. — É o meu último aviso.

            — Ah, é? — O adolescente brandia o trocáter. — Que tal este aviso: deixe Bernie ir ou sua parceira vai ficar espetada como churrasco!

            Ele aproximou-se ameaçadoramente de Diana. Tom puxou o gatilho.

            Nada aconteceu.

            — Qual o problema, garotão? — Ganchos deu tapinhas na cabeça dele com a mão livre. — Por acaso eu contei que posso neutralizar reações químicas apenas com a força de vontade? Muito útil no laboratório, e mais ainda em um tiroteio. Sua munição está estragada.

            Droga, pensou Tom. Ele ouviu Grayson correndo escadaria acima lá atrás. Em alguns minutos o criminoso diretor de funerária estaria longe, mas persegui-lo não era uma opção. Não havia como deixar Diana sozinha com aquele cara. O violento adolescente com certeza tinha planos.

            Tom nem tentou disparar sua arma novamente. Ao invés disso, arremessou o inútil pedaço de metal contra a cabeça de Ganchos. O adolescente abaixou-se para evitar o projétil e Tom aproveitou a oportunidade para atingi-lo com a cabeça. Ele jogou o oponente de costas na mesa de embalsamento, que se chocou contra o inofensivo cadáver atrás dele. Seus dedos agarraram o punho de Ganchos para manter a ponta afiada do trocáter longe dele. Os anos de treinamento no F.B.I. triunfaram quando ele torceu o punho de Ganchos selvagemmente.

*N. do T: Storm troopers – personagens da saga Star Wars, de George Lucas.

O instrumento cirúrgico afiado voou da mão do garoto e quicou pelo chão até o outro lado da mesa.

            — Desista! — resmungou Tom, com os dentes cerrados. Mesmo que tivessem perdido Grayson, talvez ainda pudessem conseguir respostas daquele cretino. Ele se sentiu um idiota por não ter checado os outros empregados; eles deveriam ter imaginado que Grayson não estava trabalhando sozinho. — Você vem com a gente!

            — É o que você pensa! — Ganchos cuspiu no rosto de Tom, cegando-o momentaneamente, depois golpeou a testa do agente com sua cabeça. Estrelas explodiram dentro do crânio de Tom e ele cambaleou para trás. Ganchos escapuliu de suas garras e rolou por cima da mesa de embalsamento, jogando o corpo do ancião no chão. A carne sem vida atingiu os ladrilhos como um saco de batatas. Um parafuso de plástico no abdômen do cadáver se abriu. Fluido de embalsamento jorrou da ferida aberta.

            Tom limpou o cuspe de seus olhos e saltou por sobre a mesa, atrás de seu oponente. Ganchos mergulhou para pegar o trocáter, mas o agente jogou-se sobre ele primeiro. Eles tombaram através de uma porta aberta para dentro da câmara de cremação. O laboratorista lutou de forma cruel, mordendo com força a orelha de Tom, enquanto eles se debatiam no chão, mas o experiente agente da NTAC logo levou vantagem. Um golpe nos rins fez Ganchos gritar, soltando a orelha de Tom, e ele jogou-se em cima do adolescente, imobilizando-o no chão. Ele levantou seu punho para desferir o golpe final.

            — Espere — grunhiu Ganchos. Ele jogou as mãos para cima, rendendo-se. — Me dê um segundo!

            — Para o quê? — exigiu Tom. Ele não tinha tempo a perder com aquele marginal. Eu preciso ver como está Diana.

            — Para me concentrar, seu idiota!

            O garoto fez uma careta e apertou os olhos fechados. Sua testa ferida se franziu em pensamentos… E uma repentina onda de fraqueza tomou conta de Tom. De uma só vez, seu punho parecia pesado como uma bola de boliche. Seus membros pareciam de borracha.

            Oh, droga, pensou Tom. O que ele está fazendo comigo?

            Ele tentou continuar o soco, mas o golpe aterrissou completamente sem força. Os nós de seus dedos rasparam, inofensivos, o queixo do rapaz. A cabeça de Tom balançou, molenga, sobre seus ombros. Ele sentiu-se tonto, confuso.

Ganchos afastou Tom com rudeza e se colocou de pé. Tom permanecia ajoelhado e instável no chão. Tudo o que podia fazer era continuar assim. Ele nunca havia se sentido tão exausto em toda a sua vida.

— O que… O que está acontecendo comigo?

            — Está tendo uma pequena crise energética? — Ganchos zombou dele. — Isso sou eu diminuindo seu metabolismo. As reações catabólicas que dão força aos seus músculos estão se reduzindo a um rastejar. Como a pior hiperglicemia do mundo. — Ele riu do agente aflito. — Tira um pouco a concentração, mas realmente elimina o vento das suas velas. Vamos relembrar a biologia do Ensino Médio.

            Tom tentou reagir rápido, mas seu cérebro se recusou a cooperar. Ele mal podia concatenar duas ideias ao mesmo tempo. Apoiou os dois braços no chão para evitar escorregar no chão de ladrilhos. Seus olhos turvos observaram Ganchos acender o crematório. O propano se incendiou dentro do destilador à prova de fogo. O embalsamador ferido abriu a porta superior para revelar o inferno laranja brilhante lá dentro. Tijolos refratários alinhavam-se no interior do forno. O calor das chamas atingiu Tom como um sopro de fornalha. Ganchos ligou a maca motorizada. Uma esteira rolante esperava para despejar uma carga na boca do forno.

            — Não — arfou Tom. Apesar do calor, um arrepio desceu sua espinha quando ele adivinhou o que o adolescente tinha em mente. — Você não pode…

            — Desculpe, cara, mas você pediu isto. — Ele veio por trás de Tom e o agarrou por debaixo dos braços. O agente, esgotado, estava fraco demais para reagir. Grunhindo de esforço, Ganchos colocou Tom de pé e começou a arrastá-lo para a esteira rolante. — Você poderia muito bem ter escapado sozinho.

            Os joelhos de Tom se arrastaram no chão. As chamas crepitavam mais alto do que o ronco contínuo do motor. O calor do forno aumentava a cada passo.

— Espere — ofegou ele. — Você não tem que fazer isto. Deixe-nos aqui.

            — Sem chance — disse Ganchos. — Vocês já viram demais. Eu preciso realocar todo este equipamento antes que algum outro idiota do governo venha procurar vocês. — Ele girou Tom até colocá-lo de frente para a esteira. O inferno flamejante chamuscou o rosto de Tom. A ponta da esteira encostou em sua cintura. Ele travou os joelhos com o que lhe sobrava de energia.

            — Por favor — Tom suplicou. — Não… Isto é loucura…

            — Você e seus colegas estão loucos se pensam que podem impedir o futuro. — Ganchos continuou falando, talvez para se distrair do que estava para fazer. — Normalmente, eu colocaria você em uma caixa de papelão primeiro, e me certificaria de remover todos os seus objetos pessoais, mas acho que isto tem que ser feito rápido. — Ele tentou empurrar Tom para a esteira rolante, enquanto tagarelava sem parar. As mãos dele pressionaram as costas de Tom. — Que pena que você não verá o Paraíso na Terra, companheiro. Mas pense nisto como uma prévia do Inferno…

            Ele segurou, sem forças, as laterais da esteira. Sentiu seus pés perdendo contato com o chão. Acabou-se, ele temeu. Talvez eu devesse ter tomado aquela maldita injeção, afinal de contas...

            Entretanto, no mesmo instante em que ele pensou que estava tudo acabado, Ganchos gritou de dor. Largando Tom, ele cambaleou para trás, praguejando de forma obscena. O trocáter que estava jogado no chão havia sido enfiado em seu ombro por Diana, que estava em pé atrás do pretenso assassino de Tom, com uma expressão decidida no rosto. Preocupado em evitar a própria cremação, Tom nem a ouvira entrar no crematório.

            Aparentemente, nem Ganchos.

            O sangue escorria pelas costas do laboratorista. Sua concentração falhou, e Tom sentiu a energia voltando. Alívio e adrenalina inundavam suas veias. Seu cérebro confuso voltou a funcionar. Ele pulou para longe da esteira e do forno.

— Diana — ele arfou —, essa foi por pouco.

            — Nem me fale. — Ela mantinha o olhar fixo em Ganchos, que estava acuado pelos dois agentes. O garoto se balançava todo, as pernas tremiam. — Você está bem, Tom?

            — Acho que sim. — Ele estava feliz por ver sua parceira de volta à ação. — Obrigado por me salvar. E você?

            Ela massageou sua cabeça contundida.

— Nada que um Tylenol não cure. — Ela puxou o celular do bolso e chamou reforços. — Está certo. Traga Garrity aqui – ambos, o mais rápido que puder, e alguém da equipe de Marco, também. — Ela guardou o telefone e acenou com a cabeça para Tom. — A ajuda está a caminho.

            — Você ouviu, né, seu bosta? — Tom sacudia os punhos, enquanto bloqueava a saída. Ele sentiu que ainda poderia devorar um filé enquanto isso, mas seu vigor estava definitivamente voltando, à medida que seu corpo trabalhava além da conta para recarregar as baterias. — Se eu fosse você, começaria a falar agora mesmo.

            Ganchos engoliu em seco. Seu rosto cheio de acne se contorcia de dor, enquanto ele se esforçava para tirar o trocáter de seu ombro. Um jorro rubro esguichou da ferida aberta. Ele olhou de um lado para o outro entre os agentes, como se avaliando as chances que teria contra os dois. O sangue pingava da ponta da arma. Seu braço se sacudia como uma antena de carro numa rodovia. O hematoma em sua testa era uma feia mancha roxa.

            — Nem pense nisso. — Tom o advertiu. —Olhe para si mesmo. Você está perdendo sangue rápido. Não há meio de você passar por nós.

            O garoto lambeu os lábios nervosamente. Seu braço tremulante começou a se abaixar.

            — Você acabou de tentar incinerar um agente federal — Diana lembrou a ele. — Nem mesmo Jordan Collier pode salvá-lo desta.

            Os olhos selvagens e avermelhados lembraram a Tom um animal acuado.

— Eu jamais trairei o Movimento — jurou o adolescente. — Vocês não vão conseguir me fazer falar.

            — Isto é o que você pensa — disse Tom, sombriamente.

            — Não, não… — O olhar do garoto lançou-se na direção do crematório. Ele respirou fundo. Um misterioso ar de tranquilidade tomou conta dele. — Eu não vou lhes dar a chance de me dobrar.

            Tom entendeu tarde demais o que o embalsamador acuado tinha em mente.

— Não! — ele gritou, se projetando para frente, mas Ganchos já havia se atirado de bruços na esteira. Esta jogou o jovem suicida direto na boca aberta do crematório. Uma explosão de calor se derramou do forno quando as chamas engoliram o corpo flagelado do adolescente. Carne e roupas escureceram e queimaram. A pele chiou e estalou. Seus gritos de morte foram misericordiosamente breves.

            — Oh, meu Deus! — exclamou Diana. Ela tapou a boca com a mão, horrorizada. — Que tipo de fanatismo inspira um sacrifício como este?

            — Pergunte a Jordan Collier — respondeu Tom, amargamente. Querendo abafar o cheiro de carne humana queimando, ele bateu a porta do forno, para que eles não vissem ou sentissem mais nada. A cremação autoinflingida do adolescente o sacudira até o âmago. Kyle seria capaz de fazer o mesmo para proteger seu adorado Movimento? Tom não queria nem pensar naquilo.

            Virando as costas para o crematório, eles caminharam, entorpecidos, de volta para a sala de preparação. A visão do corpo de Danny na maca atingiu Tom como um soco no estômago. Ele passou por cima do cadáver rasgado no chão. O ar fresco rescendia a produtos químicos e sangue. A morte parecia se aproximar de todos os lados.

            Diana caminhou para as redomas.

— Bem, ao menos encontramos Danny.

            — Mais conhecido como Número Onze — disse Tom, de modo severo.

            Diana lançou um olhar enigmático para os outros compartimentos.

— Imagino quem serão os outros espécimes. — Curiosa, ela abriu a redoma diretamente acima da de Danny e puxou a gaveta. Outro corpo coberto por um lençol saudou seus olhos. — Vamos ver quem temos aqui.

            Ela retirou o lençol, então pulou para trás, surpresa. Tom soltou um grito entrecortado.

            O segundo corpo também era de Danny Farrell.

 

Capa “Breno – O anel” e novidade sobre “Breno – O Legado”

Postado em Uncategorized em 22 22UTC janeiro 22UTC 2010 por brenooficial

Pessoal, vou colocar neste post a capa do primeiro em tamanho maior para quem ainda não viu. E para os que já viram também..rsrs… Bom, essa capa foi desenhada pelo meu primo e eu editei um pouco com o Photoshop e o CorelDraw. Vejam e foto e digam o que acham.

 

Ahh, e uma outra novidade é sobre o terceiro e último (obviamente) livro da trilogia, “Breno – O Legado”. Essa semana eu finalmente coloquei o último ponto final … lol … Agora só vou passar tudo para o computador (Sim, eu escrevi tudo a mão, eu gosto…rsrs) e aí sim a trilogia com o Breno vai se encerrar definitivamente. Fiquem ligados no blog para saber mais novidades sobre meus livros (tenho outros projetos em andamento) e para lerem a tradução de “The 4400 – Welcome to Promise City”.

Até a próxima!

 

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 5 traduzido)

Postado em Uncategorized em 16 16UTC janeiro 16UTC 2010 por brenooficial

Aí vai o capítulo dessa semana de The 4400. Não esqueçam dos comentários! =D

Bom, antes disso, gostaria de convidá-los a conhecerem um pouco do livro que eu escrevi. Vou deixar o link do prólogo e, quem ler, comente postando sua opinião. Podem elogiar, criticar, o que quiserem…hehehe.

http://brenooficial.wordpress.com/2009/07/07/prologo-breno-o-anel/

CINCO

 

Num dia comum, o cemitério Emerald Harbor era uma ilha de serenidade em meio ao resto da Terra Prometida. Estátuas de mármore cravejavam a encosta gramada. Anjos esculpidos assistiam sobre a grama cortada. Salgueiros ofereciam sombras no verão. Uma cerca moldada de ferro geralmente matinha a correria e o tumulto do mundo exterior longe dali.

            Mas não hoje.

            Uma retroescavadeira ruidosamente retirava a terra em frente à lápide de Danny Farrel. A inscrição no granito simplesmente dizia “IRMÃO E MARIDO AMADO”. Uma outra lápide, carregando o nome completo de Danny, fora vandalizada de muitos modos. Muitas pessoas ainda culpavam o pobre Danny pela morte de seus entes queridos. O túmulo de sua mãe, adjacente ao dele, agora carregava apenas seu nome de solteira: Susan Baldwin.

            — Você não precisa ficar aqui para isso — disse Diana a Tom enquanto eles assistiam à enxada mecânica arranhar profundamente a terra. A sujeira espirrava no túmulo de sua irmã. O céu estava nublado e carregado. Um guindaste industrial estava ali perto para levantar o caixão quando ele fosse exposto. Diana falava suavemente com seu parceiro. — Meghan e eu podemos cuidar disso.

            Tom balançou a cabeça.

            — Não. Se alguém mexeu com os restos mortais de meu sobrinho, eu quero saber.

            — Bem, estamos aqui por você, Tom — disse Meghan Doyle. A diretora da sede noroeste da NTAC estava ao seu lado, mantendo sua mão aquecida. Cabelos loiros ondulados caíam por seus ombros. Olhos castanhos escuros brilhavam com compaixão. — Sabe disso.

            — Obrigado — disse ela às duas mulheres. — Eu aprecio isso.

            Além dos agentes da NTAC, o acompanhamento à exumação era composto por poucas pessoas: um legista, sem ligações com Jordan Collier ou com o Movimento, pelo que sabiam; o diretor do cemitério; e o time de exumação em si. Shawn se oferecera para ir, mas Tom lhe garantira que não era necessário. Ele não mencionara o desinteresse de Kyle, tampouco. Infelizmente, seu filho era muito próximo a Collier para ser confiado com essa informação. Tom só podia desejar que um dia não houvesse mais segredos entre eles.

            Talvez quando o futuro se concretizasse, de um jeito ou de outro.

            Uma cerca fora levantada ao redor para ocultar os procedimentos de vista. Eram apenas sete da manhã e Tom vira alguns visitantes caminhando pelo local quando chegara, e a cerca lhe parecia uma boa ideia. Ele imaginava se Simone Tanaka os estava observando de longe.

            Provavelmente.

            Quando o buraco já estava bem fundo, os escavadores começaram a trabalhar com pás. Os homens cuidadosamente tiraram o resto da terra para descobrirem o topo do caixão de Danny. Uma apreensão esmagadora tomou Tom quando o guindaste começou a puxar o caixão da cova. Agora que o momento estava bem diante deles, ele não sabia se podia continuar com aquilo. Lembranças de Danny criança e com um rosto puro invadiram seu cérebro; Danny estava feliz e saudável na última vez que Tom o vira vivo. Ele engoliu em seco.

            Meghan deu um aperto tranquilizador em sua mão.

            — Vai terminar logo.

            Tom queria poder acreditar naquilo. Seria tudo um falso alarme, ou eles estavam ali para uma surpresa desagradável?

            O guindaste elevou o caixão até uma lona. Lama escorria pelos lados do objeto de mogno, que perdera muito de seu brilho polido depois de dois meses abaixo da terra. Uma van esperava do lado de fora da cerca para levar os restos ao necrotério privado da NTAC. O legista deu um passo à frente para examinar o caixão. Stefan Vasco era um cirurgião cardíaco aposentado, que vinha atuando como médico inspetor desde antes de os 4400 retornarem.

            — Talvez — ele sugeriu. — seria melhor conduzir o resto da exumação em outro lugar.

            — Não — insistiu Tom. — Vamos terminar logo com isso.

            — Como quiser. — Vasco esfregou mentol abaixo de seu nariz. — Devo alertá-los de que isso não será prazeroso. Pode haver um forte odor.

            — Nós entendemos. — Diana o assegurou. Como agentes da NTAC, eles estavam mais familiarizados do que gostariam com efeitos de morte. Durante os últimos anos, haviam visto seres humanos eletrocutados, queimados vivos, e devorados pelos seus próprios animais de estimação. — Por favor, continue.

            Sem mais avisos, o legista destravou o caixão. As dobradiças enferrujadas rangeram enquanto ele levantava a tampa. Linhas esfarrapadas penduravam-se por ela como teias de aranha. Um fedor repugnante, como queijo estragado, emanava do caixão aberto. Tom franziu o rosto e colocou a mão na boca. O dono do cemitério e os escavadores se afastaram do caixão. Um dos homens parecia estar prestes a vomitar. Ele saiu correndo o mais rápido que conseguia.

            Tom mal notou sua saída apressada e soltou a mão de Meghan.

            — Permita-me — voluntariou-se Diana, mas Tom a deixou para trás para olhar dentro do caixão. Tom arfou alto.

            O corpo dentro do caixão havia se resumido a cabelos e ossos. A pouca carne que sobrara estava enrugada e azulada. Os lábios haviam se decomposto para deixar à mostra uma caveira. Buracos vazios olhavam sem expressão de um rosto murcho. O mofo incrustava um terno escuro desgastado. Mas foi a barba cinza que imediatamente chamou atenção de Tom. Seu sobrinho era um jovem bonito quando morrera.

            De quem quer que fosse o corpo no caixão, não era o de Danny Farrel.

           

            — Olá, Richard — disse Jordan Collier. — Bem-vindo de volta à Seattle.

            O auto-proclamado líder dos 4400 estava parado diante de uma enorme janela que com vista panorâmica do lago Washington. Cabelos negros e uma barba bem-feita com um bigode o assemelhavam nitidamente a um antigo messias com as mesmas iniciais, um visual que Richard suspeitava que Collier cultivava de propósito. O líder carismático do culto fora um bem-sucedido magnata de negócios antes de se tornar um revolucionário. Como Richard sabia por experiência própria, Jordan sempre tinha algum plano em mente.

            Imagino o que ele quer de mim agora, pensou Richard. Ele não ficara tão surpreso ao descobrir que Collier for a o responsável por seu resgate na prisão. Quem mais tinha os recursos, e a audácia, para preparar uma operação como aquela? Richard se aproximou do outro homem cautelosamente.

            — Não quer dizer Terra Prometida?

            — Vejo que se manteve informado sobre os acontecimentos recentes — disse Jordan, com um sorriso. Diferente do conjunto costurado de três peças que ele usara, sua vestimenta agora consistia em trajes folgados simples. Vestindo um sobretudo negro por cima de uma túnica branca de algodão, ele parecia mais um eremita ascético do que o ditador de Seattle em si. — Ótimo.

Ele gesticulou para uma poltrona ali perto.

— Por favor, fique à vontade.

            Depois de levarem Richard de volta a Seattle, a equipe de resgate o trouxera até aquela luxuosa casa de lago segura dentro dos limites da cidade. A mobília elegante era limpa e moderna. Uma madeira enfeitava o teto sala. Uma pintura Impressionista de um pôr-do-sol estava pendurada em uma parede perto do hall de entrada. Uma confortável poltrona de couro branca estava perto de uma mesinha de centro de aço e vidro. Um jarro de água gelada jazia na mesa. Um par de guarda-costas espreitava silenciosamente ao fundo. Eles examinaram Richard cuidadosamente enquanto ele se sentava na poltrona. Um conjunto de roupas limpas havia substituído o seu traje de prisão manchado de sangue. Seu rosto ainda estava machucado devido à surra que levara antes de ser resgatado. Suas costelas ainda latejavam de dor.

            — Sinto muito pelo seu homem, Sanchez — disse ele.

            — Obrigado — respondeu Jordan. Uma voz rouca mostrava seu pesar. — Essa foi, de fato, uma infeliz tragédia. Hector era um homem bom e um soldado leal. Construir um novo mundo requer sacrifício, no entanto. Ele não foi o primeiro a dar a vida pela nossa causa. Nem, receio, será o último.

            Ele se sentou em frente a Richard.

            — Mas todo esse sofrimento e tumulto valerão a pena quando o Movimento cumprir seu destino e trazer paz e prosperidade universal à Terra.

            Certo, Richard pensou, duvidosamente. Ele tentou conciliar a retórica sublime de Jordan com o homem de negócios sem compaixão que ele conhecera quatro anos antes. Os dois homens tinham um relacionamento longo e problemático. Embora tivessem trabalhado juntos em uma ocasião, Collier frequentemente interferira na vida de Richard, e até tentara colocar Lily contra ele uma vez. Richard sentava-se rígido na borda da poltrona, esperando Collier ir direto ao assunto.

            — O que você quer, Jordan?

            — Apenas dividir algumas informações com você. — Ele olhou em volta o elegante interior da casa de lago. — Para ser honesto, escolhi esse local por uma razão.

            Seu rosto assumiu uma expressão grave.

            — Foi aqui que sua filha morreu.

            A revelação pegou Richard como uma granada. Ele fora informado na prisão que sua filha morrera, mas, apesar de seus apelos, nunca soubera os detalhes de sua morte. Aparentemente, essa informação era “classificada”. Durante os dois últimos meses, passara horas e mais horas imaginando e se preocupando com o que acontecera a Isabelle no final. Ele nem mesmo pudera ir ao funeral dela!

            — Como? — perguntou ele, roucamente. — Quem?

            Collier encheu um copo de água para Richard.

            — Me deixe lhe falar sobre os Marcados…

            A história que ele contou, sobre conspiradores viajantes do tempo se escondendo nos corpos de homens e mulheres atuais, teria soado inacreditável para Richard quatro anos antes. Mas depois de ter sua própria vida manipulada por uma facção diferente do futuro, e ter sido fisicamente transportado dos anos 1950 para o século 21 e uma bola de luz, a história fazia sentido, pelo menos por enquanto. Mas o que isso tinha a ver com sua filha?

            — Os Marcados tentaram coagir Isabelle para que ela traísse o Movimento — explicou Jordan. — Quando ela se rebelou, eles a mataram. — Ele soltou um longo suspiro. — Ela sacrificou a vida para salvar a mim e a Tom Baldwin. Devia ficar muito orgulhoso dela.

            — Foi isso mesmo que aconteceu? — perguntou Richard. Concebida no futuro, e posta na vida adulta do dia para a noite, Isabelle se tornara uma jovem perigosa e volátil com habilidades extraordinárias. Embora ele sempre a tivesse amado, lutara para que ela superasse seus impulsos obscuros. Agora queria desesperadamente acreditar no que Jordan estava lhe contando, que sua linda filha encontrara a redenção no fim. — Ela fez a coisa certa?

            — Sua filha morreu como uma heroína — insistiu Jordan. — Eu estava lá. Eu vi com meus próprios olhos.

            Richard estava tomado pela emoção. Ele secou as lágrimas dos olhos.

            — Ela sofreu?

            Jordan balançou a cabeça.

            — Não por muito tempo. Terminou logo.

            Eles ficaram sentados em silêncio por vários momentos enquanto Richard processava o que acabara de ouvir. Ele lamentava a morte de sua filha, mas encontrava algum conforto no fato que ela realmente mudara sua vida, primeiro. Para ser honesto, ele temia que Isabelle ficasse ruim outra vez e fosse morta pelas autoridades em algum tipo de extermínio, mas aparentemente esse não era o caso. Ele queria poder contar a Lily que a filha deles ficara bem, mas então percebeu que provavelmente ela já sabia disso. Se houvesse alguma justiça nos cosmos, sua mulher e filha estariam juntas mais uma vez.

            Um pensamento sombrio lhe ocorreu. Seus olhos secaram-se e seu rosto ficou rígido. Ele levantou o olhar.

            — E os Marcados…?

            Jordan acenou com a cabeça, antecipando a resposta para a pergunta de Richard. Ele pegou um pedaço de papel do bolso em seu peito.

            — Três dos Marcados foram erradicados. Essa lista contém as identidades atuais dos sete Marcados que sobraram.

            Ele entregou o papel a Richard, que se espantara com os nomes na lista, que incluíam um assessor do presidente, um oficial de alto cargo no Vaticano, um grande produtor de Hollywood, um Shake Árabe rico, um general cinco estrelas, um burocrata chinês, e um tibetano mundialmente conhecido. Todos extremamente poderosos individualmente. Essas eram as pessoas responsáveis pela morte de Isabelle?

            — Onde você conseguiu isso?

            A resposta de Jordan o surpreendeu.

            — Tom Baldwin. Dada as conexões política dos Marcados, ele ficou de mãos atadas, então ele me passou a lista para que eu cuidasse desse problema para ele.

            Cuidasse? Richard começava a entender.

            — Quer que eu me livre dos Marcados. Usando minhas habilidades.

            — Não estou pedindo que faça coisa qualquer — declarou Jordan, cautelosamente mantendo o grau de negação. — Como um amigo, me senti impelido a lhe informar sobre as circunstâncias que dizem respeito à morte de sua filha e lhe passar as informações que dizem respeito aos assassinos dela.

            Ele olhou diretamente nos olhos de Richard.

            — Você é um ex-soldado. Tem uma habilidade impressionante, e todos os motivos para odiar os Marcados tanto quanto eu. Você é um homem livre. Sempre foi.

            Ele se levantou da poltrona.

            — Vou voltar para minha sede no centro da cidade. Por favor, sinta-se livre para permanecer nessa casa de lago o quanto achar necessário.

            Ele deixou a lista para trás.

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 4 traduzido)

Postado em Uncategorized em 9 09UTC janeiro 09UTC 2010 por brenooficial

Para quem estava ansioso, aí vai o capítulo 4 do livro! =D

Só não esqueçam de comentar!

E, aproveitando, gostaria de convidá-los para conhecer um pouco do livro que eu escrevi. Naveguem pelo blog que vocês vão achar os cápítulos iniciais e mais alguns trechos. ^^

Comentem lá também!

E aguardem, porque eu breve sai mais um capítulo de The 4400.

QUATRO

 

Richard Tyler não conseguia dormir.

            Deitado na cama, o prisioneiro encarava o teto de sua cela vazia. Luzes fluorescentes entravam pelas barras de aço verticais do corredor vazio do lado de fora. Um homem negro esguio com trinta e poucos anos, ele não usava nada além de um macacão de prisão laranja há meses. Sua cabeça raspada descansava em um travesseiro amassado. Seu cavanhaque estava impecavelmente aparado. Embora o toque de recolher tivesse sido dado há horas, ele ainda permanecia acordado, ouvindo aos sons noturnos daquele bloco de celas. Soluços e roncos abafados vinham das celas próximas; parecia que a cada dia que passava mais e mais positivos eram trazidos para a prisão de alta segurança. Havia rumores de que Collier e o Centro 4400 vinham lutando arduamente para a libertação de Richard e de seus companheiros “prisioneiros políticos”, mas sem muito sucesso. Richard nem mesmo vira um advogado desde que fora apreendido em Seattle meses atrás. Pelo que parecia, ele ia apodrecer naquela cela pelo resto da vida.

            É isso o que eu ganho por brigar com governo dos Estados Unidos, pensou ele. Mesmo que não me deram muita escolha.

            Não pela primeira vez, ele imaginou como teria sido sua vida se ele não tivesse sido abduzido pelo futuro em 1951. Quando partiu para a Coréia, certamente não imaginara terminar atrás das grades no século 21. Boa parte dele desejava que aqueles intrometidos viajantes do tempo o tivessem deixado em paz. Mas se ele não tivesse sido levado de sua época, nunca teria conhecido Lily.

            Seu olhar virou-se para algo pendurado na parede. A foto colorida retratava uma linda mulher loira segurando uma criança sorridente em seu colo. A pele escura da garota parecia com a do pai. A mãe e a filha sorriam alegremente.

            Lily. Isabelle.

            A garganta de Richard se encolheu quando ele se lembrou de quando tirou aquela foto na cabine, antes de Lily morrer e tudo se tornar um inferno. Havia sido um dia bonito de verão nas montanhas. Céu azul. Pássaros cantando nas árvores. A fotografia era seu bem mais precioso e mais querido. A sagrada foto era uma lembrança de que uma vez ele não fora apenas mais um habitante, mas sim um pai e um marido amado. Por um breve período, eles haviam sido felizes.

            A luz turva tornava difícil ver os rostos de suas amadas. Sentindo uma necessidade súbita de ver sua família mais de perto, ele levantou a mão e estendeu-a na direção da foto. Sua mente instintivamente alcançou-a…

            Nada aconteceu. A fotografia continuou pendurada na parede a vários passos de distância. Nem mesmo tremera.

            Ah, sim. Ele sorriu tristemente. Engraçado o quão rápido você pode se habituar a mover as coisas com a mente. E o quanto você sentia a eficiência disso quando não mais podia fazê-lo. Doses diárias do inibidor haviam diminuído sua telecinese. Onde antes ele podia arremessar pesados objetos só pensando, agora ele não podia levantar uma pluma, a não ser que o fizesse do jeito antigo… usando seus próprios dedos.

            Suspirando cansado, ele levantou-se da cama e começou a andar pela cela. O piso de cimento estava frio sob seus pés descalços. Aparentemente, o administrador não queria investir em aquecimento. A julgar pela qualidade recente das refeições, houvera um corte de custos na cozinha também. Ele nem queria imaginar o tipo de carne que havia no ensopado da noite anterior.

            Estava na metade do caminho para a parede quando passos pesados ecoaram pelo corredor. Eles pararam bem em frente a sua cela.

            — Você aí! — desafiou uma voz áspera. — O que está fazendo acordado, Tyler? Não sabe que já passou da hora de dormir?

            Richard grunhiu para si mesmo quando reconheceu a voz. Virando-se para a porta, ele viu um par de guardas uniformizados parado do outro lado das barras. E não os seus guardas favoritos. Que sorte a minha, ele pensou. Grogan e Keech.

            Ele não tinha nada contra a maioria dos guardas ali. Só estavam fazendo seus trabalhos. Mas Grogan e seu comparsa eram diferentes. Eles se moviam sadicamente tocando o terror e dificultando para os presos. Ditadores insignificantes com ódio dos 4400. Eram a última coisa que Richard precisava essa noite.

            — Só estou esticando as pernas. — Ele voltou para sua cama. Esperançosamente isso seria suficiente para espantar os guardas.

            Não era.

            — É mesmo? — disse Grogan, com sarcasmo. Ele tinha um pescoço grosso como o de um boi e uma barriga de cerveja grande e flácida. Um bigode cobria seu lábio superior. Um corte escovinha mal cobria sua cabeça. Uma pistola Colt estava pendurada em um lado da cintura. Um cassetete do outro. Ele observou Richard suspeitosamente. — Como vou saber que você não estava aprontando, Tyler? Planejando uma fuga tarde da noite?

            Queria, Richard pensou.

            — Não vou a lugar nenhum.

            — É claro que não vai! — Ele riu da própria piada, então olhou para o seu parceiro. — Acredita na ousadia desse cara? Pensa que pode nos enganar.

            Com um rosto pálido, magro e semelhante ao de um roedor, Keech era como Laurel e Grogan como Hardy, de o gordo e o magro,só que nenhum dos dois era engraçado.

            — Muita ousadia — ele concordou, amargamente.

            — Ei! — Grogan fingiu se alarmar. — Sentiu isso?

            — Senti o quê? — perguntou Keech.

            — Essa pressão. — Grogan tirou um cartão magnético de seu bolso da camisa. Ele rodou entre seus dedos carnudos quando fingia não conseguir segurá-lo. — Ele está atraindo o cartão com a mente. Está tentando nos puxar para mais perto.

            Que engraçado, Richard pensou, sem achar graça na palhaçada do guarda. Claro que ele não estava fazendo nada do tipo.

            — Ah, sim — concordou Keech, entrando no jogo. — Agora eu sinto.

            Ele caiu na direção na porta, como que empurrado por uma força invisível. Um sorriso malicioso torceu seus lábios.

            — Filho da puta arrogante.

            Grogan tirou o cassetete do cinto.

            — Acho que temos de ensiná-lo uma lição. — Sorrindo, ele passou o cartão por um escâner ao lado da porta. A fechadura eletrônica soltou um clique e a porta deslizou para o lado. Grogan entrou na sala, brandindo o cassetete, batendo-o contra a palma de sua mão. — Não podemos deixar essas aberrações pensarem que podem usar seus truques contra pessoas decentes.

            — É isso mesmo — disse Keech. Ele acompanhou Grogan até a cela.

            Sentado na ponta de sua cama, Richard ficou tenso enquanto os guardas se aproximavam. Sua memória voltou até aquela época na Coréia, antes de ele ser abduzido, quando vários de seus colegas da Força Aérea o surraram por ousar namorar uma mulher branca… A avó de Lily, na verdade. Essa cena parecia tão familiar.

            Ele levantou as mãos.

            — Olha, não quero nenhuma confusão.

            — Quem se importa com o que você quer, sua aberração terrorista? — Grogan bateu ainda mais forte. — Desde que o seu tipinho voltou sabe-se lá de onde, ninguém no país esteve em segurança. Acha que esquecemos o 50/50? Nove mil americanos estão mortos por culpa de pessoas como você e Jordan Collier!

            Richard considerou avisar que ele nada tinha a ver com o desastre, que ele estivera trancafiado naquela mesma cela quando o surto devastou Seattle, mas percebeu que seria uma perda de tempo. Grogan não estava interessado em ouvir a razão.

            Richard segurou-se. Valeria a pena revidar? Ele estava em menor número e desarmado.

            Grogan olhou para a foto de sua família a parede.

            — Que coisa mais bonita. — Ele arrancou a foto do seu lugar e segurou no alto para que Keech pudesse ver. — Dá uma olhada na Sra. 4400 aqui. Tenho que admitir, Tyler. Você pode ser um radical inútil, mas tem bom gosto para filés. — Ele olhou para a foto de Lily. — Não me importaria em ter um pedaço desse.

            — Nós dois. — Keech lambeu os lábios. — Aposto que ela também gostaria. Nós dois — ele repetiu, caso alguém não tivesse escutado a insinuação óbvia. — Ao mesmo tempo.

            Richard olhou para os homens. Só de ver a foto de Lily nas mãos sujas de Grogan faziam seu sangue ferver.

            — Largue isso.

            — Ou o quê? — Grogan o desafiou. — Vai contar ao Jordan Collier?

            Ele rasgou a preciosa fotografia em duas e jogou os pedaços ao chão.

            — É uma pena que ela está a sete palmos abaixo da terra.

            Caipira idiota! A raiva o tomou e ele pulou na direção de Grogan. Deu apenas dois passos antes de Keech o acertar com o cassetete ao lado da cabeça. Richard caiu ao chão, sua cabeça zunindo. Sua visão ficou borrada momentaneamente. Sentiu o gosto de sangue em sua boca.

            — Você viu isso! — exclamou Grogan. — O maluco pulou em mim.

            Ele chutou Richard violentamente nas costelas.

            — Gosta disso, aberração idiota? Sinta o gostinho de legítima defesa!

            Tossindo com dor, Richard tentou se postar de pé, mas Grogan o socou no rosto forte o suficiente para quebrar um dente. O sangue jorrou de seus lábios. Keech o golpeou nas costas, nocauteando-o de barriga para baixo no chão. A sala girou em volta dele.

            — Ei! — uma voz irritada gritou do outro lado do corredor. Levantando a cabeça, Richard viu outro prisioneiro parado atrás das portas de uma das celas opostas. Um hispânico musculoso com a cabeça raspada segurava as barras de sua jaula. — Deixem-no em paz! Ele não merece isso!

            O preso protestante era novo naquele bloco, fora preso um pouco mais cedo naquele mesmo dia. Qual era o nome dele mesmo? Sanchez?

            — Vá cuidar da sua vida! — rosnou Keech, mas a atenção parecia fazê-lo sentir-se inconfortável. Saindo da cela, ele deu uma olhada pelo corredor. Agitou-se com seu cassetete. — Certo, chega de brincadeiras. — Ele disse a Grogan. — Vamos terminar logo com isso.

            Grogan agiu como se seu amigo tivesse perdido o juízo.

            — Está brincando? Só estou me aquecendo!

            — Não subestime nossa sorte. — Keech olhou em volta furtivamente. Secou a palma suada nas calças. — Acabe com ele logo, certo?

            As palavras sinistras do guarda penetraram o crânio zonzo e dolorido de Richard. O terror se misturou com a dor. Não era só uma surra, ele percebeu. Eles querem me matar!

            E não havia nada que ele pudesse fazer para impedi-los…

            — Tudo bem, tudo bem — disse Grogan, de má vontade. — Não perca o controle. — Ele virou-se para Richard, visivelmente infeliz por sua diversão ter sido cortada. — Hora de dizer adeus, Tyler.

            Ele pisou nos pedaços da fotografia no chão e tirou a pistola do coldre.

            — Dê um beijo na loirona por mim quando a encontrar no inferno.

            Ele ergueu a arma.

            Richard imaginava se Lily estaria mesmo esperando por ele do Outro Lado. Já cruzamos o tempo para nos encontrarmos…

            — Já chega! — gritou Sanchez de sua cela. Ele chacoalhou os pulsos na direção dos guardas. — Esses cabróns pediram por isso!

            Ele deu um soco na própria mandíbula… muito forte. Seu comportamento bizarro distraiu os guardas brevemente de sua missão assassina.

            — Mas que diabos? — murmurou Grogan. — Ficou loco, Sanchez?

            Ignorando a pergunta do guarda, Sanchez enfiou os dedos na boca e tirou um molar solto de sua gengiva. Ele jogou o dente sangrento pelas barras de sua cela. Caiu ruidosamente no chão do corredor antes de ele se quebrar com um som peculiar que mais parecia porcelana do que esmalte se quebrando.

            Não é um dente de verdade, percebeu Richard. É um implante.

            O dente se quebrou em dois para revelar uma pequena bola de energia, mais ou menos do tamanho de uma ervilha, que inchou com um brilho sobrenatural. Havia algo de estranho no brilho emanando da bola, que parecia com as luzes num negativo de fotografia, jogando sombras ao invés de luz nos rostos pasmos dos guardas. Eles olhavam boquiabertos aquela pequena esfera cintilante de luz. Richard piscou confuso.

            Não entendo, pensou ele. O que está acontecendo?

            Então a luz se abriu como uma flor florescendo em movimentos rápidos. A textura era tão real que parecia se dobrar e se contorcer diante dos olhos de Richard. Um flash que cegava iluminou o corredor, forçando-o a desviar o olhar. Ele fechou as pálpebras contra o clarão repentino. Grogan praguejou obscenidades.

            — Puta que pariu! — exclamou Keech.

            O clarão sumiu num instante. Mas quando Richard abriu os olhos novamente, ficou surpreso ao ver quatro estranhos parados no corredor no lugar onde o orbe estivera há apenas alguns segundos. Todos os quatro—dois homens, uma mulher e um garoto—estavam vestidos de preto, como gatunos ou espiões. Máscaras de esqui ocultavam seus rostos. Um dos homens respirava com dificuldade, como se tivesse acabado de correr uma maratona. A mulher esticava as pernas, como se tivesse ficado confinada num lugar apertado por muito tempo.

            — Graças a Deus! — disse ela. — Não estava mais aguentando.

            — O quê? — perguntou o homem cansado. — Muito confortável para você?

            — Calados! — gritou Grogan. Deixando o choque de lado, os guardas apontaram as armas para os invasores. Não sei quem são vocês, ou de onde vêm, mas não movam um músculo!

            O segundo homem, um perceptível afro americano, olhou para as armas.

            — Cuidado com isso. — Ele não pareceu preocupado com as pistolas apontadas para ele. — Estão brincando com fogo.

            — O qu…? — guinchou Grogan. A arma de metal se tornou vermelha em sua mão. A carne chiou. Berrando, os guardas soltaram os revólveres. As armas derretidas caíram ao chão. Grogan apertou sua mão queimada e Keech chupou seus próprios dedos. Os dois choramingavam pateticamente.

            O negro virou-se para a mulher.

            — Sua vez.

            Ela forçou seu pescoço a virar-se ruidosamente. A princípio, Richard pensou que ela estava se aquecendo, mas então os guardas viraram seus próprios pescoços em resposta. Sues rostos se contorceram em choque. Eles caíram moles ao piso. Grogan caiu a apenas alguns centímetros de Richard. Somente sua respiração irregular assegurou Richard de que o guarda inconsciente ainda estava vivo.

            Sanchez acenou em satisfação. Ele cuspiu sangue no chão da cela. Olhou para o garoto, que parecia ter mais de doze anos.

            — Billy?

            — Estou nessa — disse o garoto. Ele usava óculos por cima da máscara de esqui. Andou um pouco e procurou no corpo de Keech até que achou o cartão magnético. — Bingo!

            Correndo até a cela de Sanchez para libertá-lo, ele teve que ficar se estivar um pouco para alcançar o escâner.

            — Aposto que está ansioso para sair daqui!

            — Não faz ideia. — O prisioneiro saiu da cela. Deu um tapinha amigável nas costas do garoto. — E espero que nunca faça.

            Enquanto isso, a mulher deslizou para a cela de Richard. Passando pelo corpo estatelado de Grogan, ela ajudou Richard a se levantar.

            — Está bem, Sr. Tyler?

            — Eu… Eu acho que sim. — Seu cérebro confuso, que quase morrera há alguns momentos atrás, lutava para entender o que estava acontecendo. — Quem são vocês?

            — Seus anjos da guarda — respondeu a mulher. — Desculpe-nos por chegarmos em cima da hora. Ficamos sabendo há pouco tempo que corria perigo.

            Ela tirou um pequeno estojo de sua roupa. O objeto se abriu para revelar uma seringa com um líquido verde-amarelado.

            Promicina.

            Ela desencapou a ponta da seringa e esguichou um pequeno jato do líquido.

            — Espere um segundo — disse Richard. — O que vocês…?

            Antes que ele pudesse terminar, a mulher impulsionou a seringa contra seu braço. A dor aguda tirou a tontura de Richard. Ele agarrou o braço ferido quando ela retirou a injeção.

            — Para que isso? Eu já sou um p-positivo!

            — Só um empurrãozinho — explicou ela, jogando o recipiente vazio para o lado. — Para ajudar a tirar o efeito do inibidor.

            Isso era possível? Talvez, penou ele, lembrando-se de como uma dose parecida acordara Shawn Farrel de um coma ano passado. Era só imaginação dele ou já podia sentir um formigamento no fundo de seu cérebro, como um membro adormecido começando a ser usado depois de muito tempo inativo? Seus olhos ofuscados captaram as metades da foto rasgada ao chão, e ele tentou levantá-las com a mente. Mais uma vez, nada aconteceu, mas a sensação de formigamento crescia cada vez mais. Curvando-se, ele pegou os pedaços com os dedos.

            Ainda estava tentando descobrir de onde haviam vindo seus salvadores.

            — Como…? O que foi isso com o dente?

            Sanchez gesticulou na direção de um dos homens.

            — O Adams aqui consegue dobrar o espaço de maneiras engenhosas, o suficiente para colocar quatro pessoas em algo pequeno demais para aguentá-las. Como uma cabine dentária, talvez. — Ele massageou a mandíbula machucada. — Pense nisso como um dente troiano.

            Isso era possível? Richard estava ficando confuso ao se recompor com a ideia de que toda a equipe de resgate estivera se escondendo dentro do dente de Sanchez. Então, novamente, quando se pensa nisso, quantas coisas estranhas ele já não testemunhara nos últimos anos? Como Isabelle se transformando de um bebê em uma mulher adulta da noite para o dia. Ou Jordan Collier voltando dos mortos.

            — Lembre-me de não fazer isso novamente — queixou-se a mulher. — Nunca mais vou reclamar do meu apartamento apertado.

            — Chega de conversa — disse Sanchez, assumindo a liderança. Ele puxou Richard para fora da cela. — Precisamos tirá-lo daqui rápido.

            Agora o bloco todo estava um alvoroço. O som de sirene invadiu os ouvidos de Richard. Todas as luzes se acenderam. Acordados pelo distúrbio, todos os outros prisioneiros correram para as portas das celas, pedindo para serem libertados também. Eles se apertavam contra as barras, desesperados para chamar atenção dos invasores.

            — Por favor! — chamou Orson Bailey. O empresário de meia-idade fora um dos primeiros 4400 a ser detido contra sua vontade. — Me levem com vocês!

            Os choros inquietantes tocaram o coração de Richard.

            — E eles?

            Sanchez balançou a cabeça.

            — Outra hora. Estamos aqui hoje apenas por você. Não está a salvo aqui… obviamente.

            Richard não podia debater isso. Sua cabeça e costelas latejantes mostravam a verdade nas palavras de Sanchez. Tentando ignorar as tristes súplicas de seus companheiros de prisão, ele se postou atrás da equipe de resgate enquanto eles andavam pelo corredor. A adrenalina estimulava suas pernas, apesar da surra recente. Uma pesada porta de aço, com uma inquebrável janela de vidro embutida, bloqueava o caminho. Sanchez tentou o cartão magnético de Keech, mas não deu certo.

            — Que droga! — exclamou ele. — O alarme nos trancou.

            Olhou para Adams, que parecia ter se recuperado de seu cansaço.

            — Pode fazer isso, cara?

            — Posso tentar — voluntariou-se o outro lutador da liberdade. Ele deu um passo à frente e encostou as mãos contra a porta de aço. Um grunhido escapou de seus lábios enquanto ele concentrava sua habilidade na barreira firme, que no mesmo momento tomou aquele mesmo efeito de negativo de fotografia. O aço sólido pareceu virar-se do avesso, soltando-se das dobradiças, enquanto a porta se compactava numa bolinha de gude luminosa, deixando o caminho diante deles livre. Adams pegou a bolinha. Ele respirava com dificuldade. — Abre-te, Sésamo.

            Porém ainda não haviam saído. Um esquadrão inteiro de guardas veio na direção deles, carregando rifles automáticos.

            — Parados! — ordenou um policial uniformizado. — Para o chão com as mãos na cabeça!

            — Não atirem! — gritou Billy, por cima do alarme. Ele se postou diante da equipe. — Sou apenas uma criança!

            Os guardas hesitaram, relutantes em atirar em uma criança, o que foi todo o tempo que Billy precisou. Sua mandíbula se abriu e um som agudo escapou de sua boca. Os guardas recuaram, segurando seus ouvidos. Os rifles começaram a atirar. Os tiros abafavam seus gritos, mas Richard podia ver como o grito inumano os estava afetando. Eles cambalearam em agonia. Mesmo postado atrás de Billy, com as ondas sonoras indo para o lado contrário, Richard sentiu o que os guardas estavam enfrentando; os ecos se impulsionavam contra seus tímpanos. Colocou as mãos para tampar os ouvidos.

            Os outros membros da equipe se juntaram ao ataque.  Os guardas que conseguiam levantar suas armas para atirar de repente ficaram quentes como carvões em brasa. A mulher estalou o pescoço novamente e uma massa de guardas caiu ao chão, como marionetes cujos barbantes fossem cortados. Adams arremessou a bolinha brilhante nos guardas cambaleantes. Outro clarão de luz de cegar os olhos precedeu-se ao súbito reaparecimento da massiva porta de aço enquanto ela caía ao chão entre os fugitivos e os perseguidores. A porta arrancada formava uma barricada improvisada no corredor estreito.

            Essas pessoas são boas, percebeu Richard, impressionado pelas suas técnicas de trabalho em equipe. Os guardas não souberam o que os atingiu.

            Para o alívio de seus ouvidos, o grito supersônico de Billy cessou. O garoto virou-se para seus colegas de equipe. Seu orgulho e excitamento eram visíveis através da máscara de esqui.

            — Viram isso? O que eu fiz com eles.

            — Muito bem, Billy. — Sanchez o encorajou. O líder do grupo ainda não havia mostrado a sua habilidade; sem dúvida havia sido dosado com o inibidor, também. Ele apontou para um corredor à direita. — Andando agora, todo mundo!

            Eles correram pela prisão, passando a lavanderia e as academias. Sanchez parecia mesmo saber aonde estava indo, o que fez Richard acreditar que toda a sua tentativa de fuga fora planejada detalhadamente. Mas mesmo com os notáveis dons de seus aliados, ele não sabia como sairiam da prisão. Alarmes os seguiram pelos corredores. Luzes de emergência se acendiam. Agora, percebeu Richard, todos os guardas do turno haviam se mobilizado, com reforços já a caminho. Se eles não saíssem logo, ele voltaria para sua cela em pouco tempo.

            Se eu não levar um tiro antes…

            Para a surpresa dele, eles não seguiram para os portões de entrada, mas para a parte de trás da prisão. Ainda grogue por causa da surra, ele perdeu a noção de onde estavam até que Adams fez outra porta trancada desaparecer. Uma brisa fria de inverno atingiu seu rosto enquanto eles saíam no enorme pátio de exercício da prisão. Altos muros de concreto, com arame farpado em seus topos, cercavam o espaço aberto. Torres de vigília observavam a cena do alto. O chão irregular o fez desejar ter colocado os sapatos antes de sair de sua cela. O que estamos fazendo aqui? Ele conhecia cada centímetro do pátio de cor. Não havia saída a não ser para cima.

            Holofotes iluminaram os fugitivos. Richard levantou as mãos para cobrir seus olhos.

            — E agora? — perguntou ele a Sanchez.

            — Espere.

            A mulher fez seu truque do pescoço novamente e as sentinelas nos muros desmaiaram. Exausta, ela se se encostou ao muro mais perto. O resto da equipe de resgate parecia cansado também. Billy gritou para as torres de vigília, mas seu grito soou mais rouco do que antes. Richard imaginava qual era seu limite.

            — Olhem! — gritou Sanchez. — Bem na hora!

            Um lustroso helicóptero negro descia do céu. Richard estava surpreso de como eram silenciosos a hélice e o motor da aeronave, e pela total ausência de faróis. Ele escondera helicópteros na Coréia, mas esse tipo de tecnologia sigilosa o surpreendia, mesmo sendo do século 21. Se não estivesse vendo, ele não saberia que a aeronave se aproximava.

            Quem são essas pessoas? Imaginou ele, novamente. E no que eu estou me metendo exatamente?

            As hélices girando levantavam poeira e provocavam uma ventania enquanto o helicóptero pousava no meio do pátio. Uma porta automática abriu-se, revelando o compartimento dos passageiros, que parecia grande o suficiente para transportar toda a equipe e Richard. Ele entendia agora porque libertar os outros prisioneiros não era uma opção. Eles precisariam de uma frota de helicópteros para resgatar todos os presos.

            — Nosso voo está partindo! — gritou Sanchez. — Subam!

            Ele empurrou Richard à sua frente.

            — Estamos ficando sem…

            Um tiro o impediu de terminar a frase. Seus olhos se arregalaram e ele caiu ao chão. Sangue jorrou no rosto e no peito de Richard quando ele viu o atirador parado na porta atrás de onde Sanchez estivera há pouco. O guarda levantou o rifle na direção de Richard.

            Agindo por instinto, ele levantou o braço como se conduzisse uma orquestra. Uma onda de telecinese atingiu o homem armado, jogando-o ao chão e quebrando-lhe um osso com o impacto. Richard viu mais guardas entrando no pátio vindo de dentro da prisão. Ele os derrubou com mais uma onda de energia psíquica. De uma só vez, sentiu-se como se fosse ele mesmo novamente.

            Mas e Sanchez? O sangue formava uma poça ao redor da cabeça do líder da equipe enquanto ele permanecia deitado imóvel no chão. Richard moveu-se para olhá-lo, mas a mulher o puxou.

            — É tarde demais — disse ela apertando se braço, urgentemente. Olhos violetas piscaram marejados de lágrimas. — Ele se foi…

            Ela tinha razão, droga. Por mais que odiasse deixar Sanchez para trás, ele deixou a mulher arrastá-lo na direção do helicóptero. Poeira e cascalho voavam em seus olhos enquanto ele subia no compartimento de passageiros e colocava o cinto e o resto do time entrava depois dele. A porta da aeronave se fechou.

            — Todos prontos? — O piloto olhou para trás por cima dos ombros. Ele franziu a testa. — Cadê o Sanchez?

            Richard se sobressaltou ao ver que os olhos do homem eram encobertos com cataratas brancas como leite. As pupilas eram firmes e não se moviam. Espere um pouco, pensou ele. O piloto é cego?

            — Perdemos o Sanchez! — gritou a mulher. — Decole… Agora!

            Tiros e passos apressados do lado de fora dera mais ênfase ao pedido dela. Sem argumentar, o piloto virou-se para o painel de controle. O motor soltou um zumbido gentil. O assento de Richard foi impulsionado para trás quando a aeronave levantou-se, sem produzir som algum, do pátio da prisão. Ela sobrevoou por cima do muro. Ele se inclinou ansioso enquanto, não muito longe dele, o homem com a habilidade termocinética tentava confortar o pequeno Billy, que parecia estar sofrendo pela morte de Sanchez. Lágrimas pingavam por trás dos óculos do garoto enquanto ele soluçava alto. Uma noite cheia de nuvens os recebia, oferecendo a promessa de liberdade.

            Não acredito, pensou Richard. Nós vamos conseguir.

            Balas ricocheteavam os lados do helicóptero. Olhando pela janela, ele viu labaredas chamejando pelas janelas mais altas da prisão. O ronco do motor parou abruptamente. O helicóptero mergulhou alarmantemente.

            — Perdemos potência! — gritou o piloto. — Vamos cair!

            Não, pensou Richard. Visualizando o motor em sua mente, ele o imaginou rodando rápido o suficiente para funcionar. Instantaneamente, a aeronave nivelou-se e ganhou altitude. O piloto e os membros vivos da equipe exclamaram aliviados. A mulher tirou sua máscara de esqui, revelando o rosto de uma gótica. Kohl pintava seus olhos negros. Seus cabelos escuros e ondulados tinham uma mecha azul. Ela sinalizou para ele com o polegar erguido.

            O Ra-ta-tá das armas de fogo automáticas diminuíam enquanto o helicóptero elevava-se acima das torres de vigília e sumia entre as nuvens. Encostando-se no seu assento, Richard fechou os olhos e concentrou-se em manter a aeronave negra no ar.

            Esperava que não fosse um voo longo.

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 3 traduzido)

Postado em Uncategorized em 2 02UTC janeiro 02UTC 2010 por brenooficial

Aí vai o terceiro capítulo traduzido. Para quem ainda não leu os outros…

Capítulo 1: http://brenooficial.wordpress.com/2009/12/18/the-4400-welcome-to-promise-city-capitulo-1-traduzido/

Capítulo 2: http://brenooficial.wordpress.com/2009/12/26/the-4400-welcome-to-promise-city-capitulo-2-traduzido/

Comentem, pessoal! Enquanto tiver comentários, eu vou postando mais capítulos! xD

TRÊS 

O prisioneiro geme no chão da cela. Sangue escorre de um lábio inchado. Ele segura o lado da cabeça. Um guarda robusto se posta sobre o prisioneiro. Ele zomba do homem no chão, então chuta fortemente suas costelas.

            — Gosta disso, aberração idiota? — berra ele.

            Outro guarda aparece do lado de fora da cela. Ninguém percebe a garotinha pálida assistindo de um canto. Seus olhos arregalados de horror.

            O prisioneiro, um negro usando um macacão laranja, tenta se pôr de pé, mas o guarda grande dá um soco em seu rosto. Ele o golpeia nas costas com um cassetete de metal, nocauteando-o de barriga para baixo no duro chão de concreto.

            — Esperem! — a garota grita, mas ninguém a escuta. Ela é só uma observadora aqui. Como um fantasma.

            O guarda saca uma arma de um coldre. Ele mira o prisioneiro indefeso.

            — Hora de dizer adeus, Tyler.

            — Pare! — a garota grita. — Você vai matá-lo!

            Maia Skouris acordou subitamente. Desorientada pelo pesadelo, demorou um pouco para que a adolescente percebesse que estava a salvo em sua cama. Seus grandes olhos castanhos absorveram o cenário familiar. Seu cabelo liso e loiro estava partido ao meio. Um pôster de Frank Sinatra estava pregado a uma parede. Roupas sujas se espalhavam pelo chão. Livros didáticos e lições de casa estavam empilhados sobre uma mesa, ao lado do globo mundial. Seu diário descansava em uma mesinha de canto ao lado de sua cama. A luz da lua era filtrada através das cortinas na janela. Um relógio digital a informava que eram 03h20min da manhã.

            Meu Deus, ela pensou. Parecia tão real.

            — Maia? Você está bem? — A porta do quarto se abriu e sua mãe entrou apressada. Diana Skouris ligou as luzes quando entrou. Seus cabelos castanho-avermelhados estavam desalinhados por causa da cama. Uma camisola azul de algodão cobria seu corpo atlético. — Eu a ouvi chorando.

            — Está tudo bem, mãe — respondeu Maia, embaraçada com a confusão. — Só um pesadelo.

            Diana sentou na ponta da cama. Olhos castanhos preocupados examinaram o rosto da filha.

            — Só um sonho comum… Ou uma visão?

            Maia sabia o que sua mãe queria dizer. Desde que ela voltara com o resto dos 4400 há cinco anos, havia sido abençoada—ou amaldiçoada—com ocasionais relances do futuro. Às vezes as visões a pegavam quando ela estava acordada; outras vezes vinham em forma de vívidos sonhos perturbadores. Mas elas sempre se realizavam.

            — É o Richard — ela disse. — Richard Tyler. — Assim como ela, Tyler era um dos 4400 originais. Da última vez que ela ouvira, ele havia sido preso pelo governo. — Eu o vi na prisão. Um dos guardas estava tentando matá-lo.

            — Ah, não — murmurou Diana. Ela não questionava as visões de Maia. Experiências passadas ensinaram as duas a levar as predições da garota a sério. — Dava para ver quando isso vai acontecer?

            — Não tenho certeza. — Maia admitiu. — Em breve, talvez. — Ela esperava que não fosse tarde demais. — Temos que salvá-lo!

            Sua mãe franziu o rosto.

            — Pode ser mais difícil do que parece. Vou avisar na NTAC agora mesmo, mas a Homeland Security o tem numa prisão de alta segurança em Virginia. Isso está longe de minha jurisdição. Para falar a verdade, não temos acesso ao Richard há meses.

            Maia frustrou-se com a resposta da mãe. O que havia de bom em ter uma agente da NTAC como mãe se ela não podia usar seu distintivo para salvar a vida de um homem? Maia não conhecia Richard muito bem, além do fato de que sua filha maluca uma vez tentara matá-la, mas os 4400 tinham que zelar um pelo outro. Era isso o que Jordan sempre dizia, e Maia achava que concordava com ele cada vez mais à medida que ficava mais velha. Mesmo que sua mãe ainda tinha dúvidas com relação a Jordan.

            — Mas, mãe, você tem que tirá-lo da cadeia. Ele não está a salvo lá!

            — Queria que fosse fácil assim, querida. — Ela fechou sua camisola. — Mas, goste ou não, Richard atacou soldados americanos e agentes da NTAC no passado, então o governo o tem como um terrorista perigoso. Eu vou passar o seu aviso para agências relevantes, mas ainda acredito que está fora do meu alcance.

            Diana tentou dar à sua filha um abraço reconfortante, mas Maia se afastou dela.

            — Jordan não desistiria assim do Richard — disse ela, mal-humorada.

            — Não estou desistindo dele. — Sua mãe protestou. Um tom de exasperação saiu em sua voz. — E nem pense em contar ao Jordan sobre sua visão. Já conversamos sobre isso antes. Não quero que se envolva com Collier e seu culto. É perigoso demais.

            Maia fez uma careta e cruzou os braços sobre o peito. Por que sua mãe não entendia que Jordan Collier estava certo sobre os 4400 e os outros positivos? Nós temos que mudar o mundo para melhor. Por isso estamos aqui.

            — Não sou mais uma garotinha — disse ela, desafiadoramente. — Posso tomar minhas próprias decisões.

            Diana balançou a cabeça.

            — Não sobre isso. Isso é assunto sério de gente grande.

            — Na verdade, eu sou mais velha que você — assinalou Maia. —, se você olhar no calendário.

            Nascida em 1938, Maia fora abduzida pelo futuro quando tinha oito anos de idade, então voltara com o resto dos 4400 em 2004. Tecnicamente, isso a fazia velha o suficiente para a Segurança Social, mesmo que não tivesse envelhecido um dia enquanto estava sumida.

            — Não faça isso comigo — disse Diana. Ela adotara a garota órfã pouco depois de seu retorno. — Emocional e fisicamente, você ainda tem treze anos. E isso é muito jovem para se envolver em coisas como essa.

            — Mas já estou envolvida — argumentou Maia. — Sou uma dos 4400 e não posso ignorar o que vejo.

            — Eu sei — disse sua mãe, tristemente. Sua voz e expressão suavizaram. — Olhe, não quero brigar por causa de Jordan Collier de novo. — Ela se levantou e esfregou os olhos. — Prometo que farei o que puder sobre o Richard, mas devíamos tentar voltar a dormir. Amanhã tem aula.

            Se inclinando, ela deitou Maia e a beijou no topo de sua cabeça.

            — Te vejo de manhã. Bons sonhos.

            Ela apagou as luzes enquanto saía.

            Maia esperou até ouvir sua mãe entrando no seu próprio quarto, então contou até cem só por segurança. Assumindo que a mulher estava dormindo, ela saiu da cama e pegou seu BlackBerry de cima da cômoda. Sentiu uma pontada de culpa por se esconder assim—o smartphone rosa choque fora um presente de sua mãe—, mas a vida de Richard estava em jogo.

            O brilho da tela BlackBerry iluminou seu rosto preocupado enquanto ela mandava uma mensagem de texto apressada para sua melhor amiga, Lindsey Howard. Também uma dos 4400, Lindsey havia se envolvido com o Movimento desde o começo. Maia sabia que podia contar com ela para passar a mensagem a Jordan Collier.

            Alguém tinha que fazer algo para ajudar Richard!

 

            O Centro 4400 fora criado por Jordan Collier antes que ele se tornasse um revolucionário em seu próprio estilo e um messias. O Centro agora era comandado pelo sobrinho de Tom, Shawn Farrel. Um dos 4400 originais, ele ficou sumido por três anos antes de retornar.

            — Olá, Diana. Tio Tommy. — Shawn cumprimentou os dois agentes quando eles entraram no seu enorme escritório, que fazia o escritório de Tom na sede parecer um guarda-roupa. Um jovem atraente na casa dos vinte anos, Shawn estava usando um terno Armani costurado que ficava bem na sua silhueta bem construída. Seu curto cabelo loiro estava impecavelmente aparado. Tom tinha orgulho do homem confiante e de atitude que ele se tornara. Não podia evitar desejar que Kyle tivesse se tornado um pouco mais parecido com seu primo. Embora Shawn houvesse brevemente caído sob o feitiço de Collier, ele era um homem independente agora.

            — É bom ver você — disse Tom. Embora eles estivessem ali a trabalho, ele abraçou seu sobrinho amigavelmente. Shawn havia perdido a mãe e o irmão para a praga, então Tom queria que o jovem soubesse que ele não estava sozinho, que ele ainda tinha uma família que se importava com ele. — Obrigado por nos colocar na sua agenda.

            Shawn riu ironicamente.

            — Acredite, não é mais tão difícil quanto antes. Agora que minha carreira política se encerrou, eu tenho muito mais tempo sobrando.

            Aposto que sim, Tom pensou. 50/50 havia acabado com o cargo de Shawn na assembleia da cidade. A cidade estava muito dividida entre positivos e negativos para apoiar um candidato que tentava unir os dois lados, sem contar que ele era o irmão do homem que desencadeara a praga, para começo de conversa.

            — Pelo menos ainda tem o Centro — disse Tom.

            — Acho que sim. — Shawn apontou para uma caixa vazia. — Embora seja no Movimento de Jordan que a ação está, nós providenciamos ajuda e serviços para os positivos que se sentem inconfortáveis com os planos radicais de Jordan. A maioria é pessoas que se infectaram durante o surto, mas, para ser honesto, parece não haver muita audiência como antes. Não tenho certeza se o Centro ainda é influente hoje em dia.

            — Não desanime — disse Diana. Seu cabelo castanho-avermelhado estava preso num rabo-de-cavalo. Ela vestia um colete de couro preto sobre uma blusa laranja de gola alta. — Você é a principal cara dos 4400, e uma alternativa sã para Jordan Collier. Isso é mais importante do que nunca.

            — Talvez. — Shawn não parecia convencido. — Sobretudo, estive me concentrando em praticar minha cura, que o Jordan só tolera porque é bom para os 4400.

            — Isso é importante, também — lembrou-o Tom. A notável habilidade do sobrinho de curar todos os tipos de ferimentos e doenças salvara muitas pessoas, incluindo o próprio Tom. Shawn desempenhara um importante papel ao libertar Tom dos Marcados. E havia acordado Kyle de um coma aparentemente sem fim. — Nunca se esqueça disso.

            O sorriso de Tom retornou.

            — Obrigado pela confiança. Eu aprecio isso. — Ele sentou atrás de sua mesa organizada. Uma pintura a óleo na parede atrás dele retratava a brilhante bola de luza branca que trouxera os 4400 do futuro. — Como posso ajudá-los hoje?

            Tom hesitou. Isso ia ser embaraçoso.

            — Danny — disse ele, por fim.

            — Danny? — Uma expressão de dor trespassou o rosto de Shawn. Ele fora obrigado tirar as forças do irmão para impedir que a praga se espalhasse. Tom podia imaginar como isso fora difícil para ele. — O que tem ele?

            Diana poupou Tom de ter que soltar tudo de uma vez.

            — Gostaríamos de sua permissão para exumar o corpo de Danny.

            — O quê? — Shawn ficara visivelmente chocado com o pedido. — Por quê?

            — Temos razões para suspeitar de que alguém possa tentar replicar uma versão da promicina transportada pelo ar que Danny soltou depois que tomou a dose — explicou Tom. Ele não mencionou que Ryland era a fonte de tal rumor; Shawn não tinha razões para confiar num homem que tentara matá-lo. — Pode não ser nada, mas temos que nos certificarmos.

            Shawn afundou-se nas costas de sua cadeira.

            — Não sei — ele disse. Olhos sofridos e úmidos brilharam. Sua voz ficou rouca de emoção. — Não podemos simplesmente deixá-lo descansar em paz, ao lado da mamãe?

            Danny fora enterrado no Cemitério Emerald Harbors, ao lado da irmã de Tom.

            — Queria que pudéssemos — disse Tom. Ele sentia-se péssimo por envolver Shawn nisso logo depois de ele ter perdido sua família. — De verdade. — Se necessário, eles podiam conseguir um mandato para exumar o corpo, mas ele preferia o consentimento de Shawn ao invés disso. Além do que, qualquer procedimento legal com certeza alertaria Collier de suas intenções; muitos dos juízes e advogados de Seattle se reportavam diretamente com ele. Tom tirou um documento de dentro de sua jaqueta e o arrastou pela mesa na direção de Shawn. — Mas não podemos correr o risco. Ninguém quer outro 50/50.

            Shawn balançou a cabeça, aceitando a verdade relutantemente. Procurou por uma caneta.

 

            Diana saiu do escritório para deixar Tom consolar seu sobrinho a sós. Ela sabia como a discussão fora difícil para os dois, mas estava aliviada por terem conseguido o consentimento de Shawn para a exumação. Antes de entrar para a NTAC, ela trabalhara por pouco tempo no Centro de Controle de Doenças em Atlanta; se fosse por ela, os restos mortais de Danny teriam sido cremados imediatamente após sua morte, mas, no caos que se seguiu ao desastre, isso não aconteceu.

            Espero que não tenha sido um grande erro, ela pensou.

            Enquanto seu parceiro estava ocupado com Shawn, ela foi atrás de outra ponta solta. Uma breve caminhada a levou até a enfermaria do Centro, onde ela encontrou o Dr. Kevin Burkhoff trabalhando arduamente num laboratório interligado. O cientista renegado estava agachado sobre um microscópio quando ela entrou no laboratório. Concentrado na sua tarefa, ele não ouviu quando ela se postou atrás dele. Um saco aberto contendo sementes de girassóis descansava no balcão ao lado do microscópio. Escâneres de cérebros estavam pendurados em um quadro brilhante. Um zumbido de centrifugação ao fundo. Um cheiro de medicina permeava o ar.

            — Dr. Burkhoff? Kevin?

            Assustado e surpreso, ele virou-se. Nesse momento, cortou o dedo na ponta de um tubo de ensaio. Uma linha vermelha apareceu brevemente no dedo machucado, então foi refreada por sua habilidade de cura acelerada e voltou para dentro.  Sua expressão alarmada relaxou quando ele reconheceu a visitante.

            — Oh, Diana! — Ele apertou o peito, onde o coração devia estar batendo rápido. Secou o sangue no balcão. — Não te ouvi entrando. Me deu um belo susto.

            Quando Diana encontrara Kevin pela primeira vez há três anos, ele estava confinado em um hospício. Embora tivesse recuperado sua sanidade com a ajuda dos 4400, ele continuava sendo agitado e cheio de energia. Seu fino cabelo liso e negro estava precisando ser penteado. Uma franja oleosa caía por sua testa enrugada. Queimaduras de ácido estragavam seu jaleco branco de laboratório. Reagentes químicos manchavam as pontas de seus dedos.

            — Sinto muito. — Ela apontou para o microscópio. — Alguma coisa interessante?

            Ele olhou em volta furtivamente, como se tivesse medo de ser ouvido.

            — Não diga a ninguém — disse. —, mas estou tentando aperfeiçoar o meu teste de compatibilidade à promicina.

            — Certo. — Diana lembrava-se de Shawn apoiando as tentativas de Burkhoff de tornar a dose de promicina menos perigosa e fatal, a ideia de desenvolver um teste que determinaria com antecedência se a promicina daria ou não uma habilidade a quem tomasse. Antes do 50/50, Shawn alertara o público para parar de tomar a promicina até que o teste estivesse pronto, mas Diana não ouvira mais nada sobre o teste desde então. — Como está indo?

            Burkhoff afastou as sementes de girassóis do balcão; lanchinhos sem sal eram seu vício.

            — Está indo, mas poderia ter progredido muito mais se tivesse suporte das autoridades. Nem Collier e nem o governo quer que eu continue meu trabalho, por suas próprias razões, e sei que eles têm pressionado Shawn para me fazer desistir. — Ele despejou várias sementes em sua palma. — Eu tenho que ficar me ocultando durante a noite como um ladrão para que possa fazer meu trabalho.

            — Isso é ruim — disse Diana, entendendo a frustração do cientista. Ela não se surpreendera ao ouvir que seu trabalho não agradava a todos. Certamente, o governo não ficaria feliz com qualquer teste que tiraria o risco de tomar promicina; isso só traria mais positivos à ativa. Collier, no entanto, queria que o mundo todo tomasse a dose; ele queria o sacrifício de metade da humanidade no altar do seu novo bravo mundo. — Imagino se o teste tornaria a decisão mais fácil para as pessoas. Mesmo se soubesse que sobreviveria, você não saberia que habilidade iria ganhar. E, francamente, algumas delas não são muito bonitas.

            Diana estivera lidando com positivos há anos, e vira como ganhar uma habilidade podia destruir a vida de uma pessoa. Para cada indivíduo que adquiria um novo bom talento, como a habilidade de curar os doentes, havia alguém como Danny Farrel que era amaldiçoado com uma aflição que fugia ao seu controle. Ou Jean Delynn Baker, que havia se tornado involuntariamente o receptáculo de um vírus mortal como o Ebola. Enquanto isso acontecia, Diana tinha uma imunidade à promicina, mas ela não sabia se tomaria uma dose mesmo que isso fosse uma opção. E se eu acabar como Danny ou qualquer um dos outros?

            — Bem pensado. — Burkhoff concedeu. — Mas muitas pessoas estão se arriscando todo dia. E muitas delas estão morrendo porque meu trabalho está sendo suprimido!

            — Kevin? — chamou uma voz da enfermaria. — Está tudo bem?

            Uma jovem magra adentrou o laboratório. Olhos castanhos obcecados davam graça às suas feições delicadas. Cabelos ondulados de um castanho-claro caíam pelos seus ombros. Uma blusa de caxemira e uma saia de tamanho médio a davam uma aparência sem época definida. Demorou um momento para que ela percebesse que Burkhoff não estava sozinho. Um olhar preocupado surgiu em sua cara de duende.

            — Diana?

            — Olá, Tess — disse Diana, firmemente. Ela tentou conciliar seu desconforto com a presença da outra mulher. Uma dos 4400 originais, Tess Doerner possuía a inquietante habilidade de forçar as pessoas a fazerem o que ela pedisse. A própria Diana fora controlada por ela anteriormente. Não era uma experiência que ela queria reviver tão cedo. — Kevin e eu estávamos apenas conversando.

            Suas palavras pareceram não convencer Tess, que se postou protetoramente entre Diana e Burkhoff. O cientista de meia-idade e a mulher muito mais jovem eram um casal estranho, que haviam se conhecido quando eram pacientes no Hospital Psiquiátrico Abendson, mas eram inquestionavelmente devotados um ao outro. Diana não duvidava que Tess faria qualquer coisa para defender Kevin da NTAC ou de qualquer outra pessoa que quisesse tirar vantagem de sua inteligência.

            — O que está fazendo aqui, Diana?

            A agente foi direto ao assunto.

            — Você cuidou de Danny Farrel nos seus últimos momentos. Quero saber o que aconteceu a qualquer amostra de sangue ou de tecido que você tirou dele.

            Burkhoff desviou o olhar dela. Agitou-se nervosamente com seu saco de sementes.

            — Shawn pediu-me para destruir todas as amostras depois que Danny morreu.

            Diana conhecia o cientista muito bem para acreditar nisso. Burkhoff nunca deixara algo atrapalhar sua curiosidade científica.

            — Sim, mas o que você realmente fez com elas?

            — Não sei o que quer dizer — fingiu. Dando as costas a ela, ele voltou-se ao microscópio outra vez. — Já não respondi a sua pergunta?

            — Deixa disso, Kevin — ela o pressionou. — Você descobriu a promicina. Quer mesmo que eu acredite que você não ficou intrigado por um espécime que transpirava a coisa pelos poros?

            Burkhoff suspirou e deu as costas ao balcão.

            — Bem, posso ter ficado com algumas amostras para pesquisa, mas elas estão perfeitamente e segurança.  Segui cada protocolo para guardá-las.

            Agora estamos chegando a alguma coisa, Diana pensou.

            — Preciso ver com meus próprios olhos.

            — Certo — concordou ele. — Siga-me.

            Tess foi atrás quando ele levou Diana na direção de uma porta metálica fechada com um aviso. Uma placa de risco biológico estava afixada nela. Um teclado estava posicionado acima da maçaneta. Burkhoff tampou o teclado com seu corpo enquanto digitava um sequência de quinze dígitos.

            — Sou a única pessoa que conhece a combinação — ele insistiu. —, ou que pode lembrar-se dela. Nem mesmo Tess conhece.

            A não ser que ela peça, pensou Diana. A controladora de mentes estava parada perto quando Burkhoff abriu a porta. Uma lufada de ar gelado saiu pela câmara refrigerada quando o tranca da porta se abriu. Passando pela soleira, Diana avistou um gabinete biológico Classe Três implantado no fundo da limitada sala de contenção. Um ventilador cantarolava no topo da sala de aço impecável. Filtros HEPA mantinham qualquer bactéria ou vírus do lado de fora. Luvas de borracha penduradas em ganchos permitiam a manipulação dos materiais fechados. Uma pequena camada de gelo cobria a vista transparente da janela.

            — Vê? — disse Burkhoff, defensivamente. — Tomei toda precaução razoável.

            Até aqui tudo bem, Diana admitiu, convencida pela vista do equipamento. Burkhoff parecia não ter economizado dinheiro para proteger as amostras. Devíamos confiscá-la de qualquer jeito. As amostras precisavam ficar sob os cuidados de autoridades responsáveis, não alguém tão excêntrico como Kevin Burkhoff, que tinha boas intenções, mas geralmente deixava sua paixão pela ciência interferir na sua sanidade, como na vez em que usara Diana como cobaia contra sua vontade.

            Ela estava imaginando como ia pegar as amostras de Kevin, apesar da habilidade de Tess, quando ele deu um passo à frente para limpar o gelo da janela. Talvez devêssemos voltar quando Tess não estiver por perto.

            Um grito assustado escapou dos lábios de Kevin.

            — Não! — sobressaltou-se ele, praticamente apertando o nariz contra o vidro. — Não é possível!

            Diana ficou tensa, alarmada pelo som ansioso de sua voz.

            — O que foi?

            Ele se virou para encará-la. A expressão arrasada no seu rosto era a última coisa que ela queria ver. Ele estava pálido como um fantasma.

            — As amostras — proferiu ele. — Elas sumiram!

 

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 2 – traduzido)

Postado em Uncategorized em 26 26UTC dezembro 26UTC 2009 por brenooficial

Aí vai o capítulo dois do livro “The 4400 – Welcome to Promise City”. Para quem ainda não conhece, abaixo está o link do primeiro capítulo e um breve resumo de sobre o que se trata a história.

Capítulo 1:  http://brenooficial.wordpress.com/2009/12/18/the-4400-welcome-to-promise-city-capitulo-1-traduzido/

Confiram agora o segundo capítulo, mas não deixem de comentar, pois só vou continuar postanto enquanto tiver comentários.

DOIS

 

O ex-chefe de Tom era magro, tinha cabelos negros e era mais ou menos vinte anos mais velho que ele. Um casaco de lã cinza cobria sua figura magra. Astutos olhos castanhos surgiam em seu rosto traiçoeiro. Depois de ter sido expulso da NTAC por causa de um grande escândalo há três anos, Ryland acabou na Corporação Haspel, uma firma privada de segurança que geralmente trabalhada lado a lado com os federais quando dizia respeito a destruir 4400 e outros p-positivos. Se duvidasse, Ryland até tinha mais poder do que antes—e menos supervisão. Isso o fazia um homem perigoso. Muito perigoso, até onde Tom sabia.

            — Olá, Dennis — disse ele, friamente. Sua mão se afastou da arma.

            Ryland olhou para um caro relógio de pulso Rolex. A vida num setor privado claramente tinha seus benefícios.

            — Estava começando a pensar que tinha desistido.

            — Pensei nisso — confessou Tom. Ele e Dennis haviam sido amigos uma vez, mas havia pouca amizade sobrando entre eles atualmente. Tom ainda julgava p-positivos como pessoas; Ryland os via apenas como ameaças a serem neutralizadas e preferencialmente eliminadas. A amizade deles não tinha sobrevivido a esse confronto de pontos de vista. — É melhor que isso valha a viagem.

            Um sorriso seguiu-se ao tom hostil de Tom.

            — Desculpe te fazer vir até aqui — disse Ryland —, mas, como você sabe, eu não sou mais bem-vindo em Seattle.

            — Imagino — disse Tom. Entre outras coisas, Ryland estivera por trás de um complô para envenenar os 4400 originais com uma droga experimental que quase matou todos os retornados, inclusive o próprio sobrinho de Tom. Embora Ryland tivesse recebido apenas uma leve punição devido ao infame Escândalo do Inibidor, Collier e seus seguidores se referiam a ele como “criminoso de guerra”. Banir Haspelcorp de Seattle era apenas um dos primeiros itens na agenda de Collier. Da última vez que Tom ouvira, a empresa estava localizada fora de Tacoma, o que ainda era perto demais para conforto.

            Ryland observou o tom sarcástico de Tom. Ele gesticulou na direção de sua acompanhante: um jovem asiática vestindo um sobretudo branco com cinto. Seu cabelo era de um corte curto e bagunçado. Apesar disso, um elegante par de óculos escuros ocultavam seus olhos.

            — Você deve se lembrar de minha sócia, a senhorita Simone Tanaka.

            — Como poderia esquecer? — disse Tom, ironicamente. Ele e sua parceira haviam prendido Tanaka pessoalmente mais de um ano e meio atrás, depois de expô-la como parte de um extinto grupo conhecido como “Nova Group”. Ele perdera o rastro dela depois que a National Securtity a levou sob custódia, e ficou pouco surpreso de encontrá-la trabalhando com Ryland. Filosoficamente, Nova Group e Haspelcorp estavam em lados opostos; Nova Group até mesmo tentara assassinar Ryland há algum tempo. — Uma empresa um pouco estranha, não é? Para uma ex-radical, quero dizer.

            Ela deu de ombros.

            — Os tempos mudam. Dada a escolha entre passar o resto de minha vida trancada numa solitária, dopada pelo inibidor, ou emprestar meus talentos especiais para as autoridades em troca de certos privilégios… Bem, você ficaria surpreso como a opinião de alguém pode mudar.

            Talvez para algumas pessoas, pensou Tom. Ainda assim, ele estava relutante em julgar Tanaka tão cruelmente. Quem sabia o tipo de pressão que Ryland e seus comparsas exerciam sobre ela para sua cooperação? Sem mencionar o fato de que a linha entre os mocinhos e os bandidos estava ficando realmente borrada. Tanaka não era a única cujas alianças haviam mudado com o tempo. Às vezes, até mesmo Tom não sabia de que lado estava.

            — Dispensando as formalidades — disse Ryland. — Vamos nos focar no trabalho?

            Tom balançou a cabeça.

            — Ainda não. — Ele encarou os dois suspeitosamente. — Me deixe checar a parte de trás de suas orelhas.

            — Acha que estou Marcado? — Ryland bufou com a ideia. — Está ficando paranoico, Tom.

            — Tenho razões para estar. — Tom não estava surpreso que Ryland sabia sobre os Marcados; sem dúvida seus contatos no Comitê de Inteligência haviam lhe contado sobre os conspiradores ladrões de corpos. Ele se postou atrás de Ryland e de Tanaka. — Se não se importam.

            Ryland suspirou cansado.

            — Se isso te deixar mais tranquilo. — Ele deixou que Tom olhasse atrás de sua orelha. Para o alívio do agente, a pele sob o lóbulo não continha uma cicatriz no formato de um X.

— Percebe que isso é uma perda de tempo, não percebe? — objetou Ryland. — Dificilmente eu precisaria ser possuído por uma sinistra entidade do futuro para querer salvar o país dos 4400 e do movimento revolucionário de Collier.

Ele tem razão nisso, admitiu Tom. Marcar Ryland seria redundante; o homem já era obcecado em destruir os 4400.

— Acho que você e os Marcados estão na mesma página.

— Sabe o que dizem — Ryland respondeu. — O inimigo do meu inimigo, etc.

Tom não gostou de como aquilo soou. Era apenas um blefe ou ele estava mesmo tomando lados com os Marcados? Deus sabe que eles tinham planos parecidos e andavam no mesmo imponente círculo industrial-militar. Isso poderia trazer grandes problemas.

Convencido de que o preconceito de Ryland vinha dele mesmo, e que não fora implantado por algum dos Marcados, Tom se moveu na direção de Tanaka. Havia mais alguma outra coisa nela que interessava Ryland?

— Com licença — disse ele enquanto se postava atrás dela. — Seus óculos.

— Vá em frente. — Ryland a instruiu.

De costas para Tom, ela removeu os óculos. Dedos delicados tiraram o cabelo de sua orelha. Uma lufada de perfume fez cócegas nas narinas de Tom.

— Faz isso com toda garota que conhece?

Faria se eu fosse solteiro, pensou Tom. Ele estivera se envolvendo com sua chefe, Meghan Doyle, havia meses. E, para dizer a verdade, às vezes ele checava por trás da orelha quando estavam fazendo amor ou no chuveiro. Ele tentava ser sutil com isso, mas suspeitava de que Meghan sabia o que ele fazia, mesmo que ela nunca houvesse dito alguma coisa. Meghan entendia o que os Marcados haviam feito com ele. Ela fora umas das primeiras que enxergara através do falso Tom.

— Isso não é da sua conta — replicou ele. A pele da mulher provou estar igualmente sem marcas e ele se distanciou dela. Ela colocou os óculos.

            — Satisfeito? — Ryland perguntou a ele.

            — Por enquanto. — Tom virou-se para encarar o casal. — No entanto, parte de mim meio que deseja que tivesse encontrado uma Marca em você. Isso explicaria o que aconteceu com o homem que eu conhecia.

            — Eu nunca mudei — insistiu Ryland. — É você quem deixa seu apego sentimental a essas ameaças fazer com que não enxergue o que precisa ser feito. Falando nisso, ouvi que você e que a Diretora Regional Doyle estão gozando de uma íntima relação incomum no trabalho. — Ele balançou a cabeça, desaprovando. — Primeiro a Mareva e agora mais uma aberração p-positiva?

            Junto com outros funcionários da NTAC, Meghan havia sido involuntariamente infectada por promicina durante o 50/50. E como os outros sobreviventes, ela desenvolvera uma habilidade 4400. Isso impusera um dilema para a NTAC, que ainda estava encarregada de continuar a luta contra promicina. Como resultado, a agência havia adotado uma política “não pergunte, não conte” envolvendo todos os funcionários que haviam ganhado habilidades contra suas vontades. Todos sabiam o que havia acontecido com eles, mas deviam ser discretos quanto a isso… ou enfrentar um extermínio imediato.

            — Cuidado com o que diz. — Tom o alertou. Ele ficou tentado a socar Ryland no nariz, mas escolheu não ceder. Afinal de contas, ele ainda não sabia por quê o homem pedira este encontro. — O que você quer, Dennis?

            — A mesma coisa de sempre — declarou Ryland, indo direto ao assunto. — Evitar que os 4400 e os outros positivos destruam nosso modo de vida e coloquem em risco nossa segurança nacional. Hoje, isso significa destruir Collier e seu Movimento.

            Ele levantou um frasco de plástico e colocou dois comprimidos marrons em sua palma antes de jogar as pílulas na boca. Tom reconheceu os comprimidos como ubiquinona, um suplemento nutricional comum que, em dosagem suficiente, podia dar imunidade temporária à promicina. As autoridades vinham estocando “U-pills” há meses, apesar do esforço de Collier de sabotar a iniciativa através de suspeitos terremotos cirúrgicos e tornados. Todos o agentes p-negativos da NTAC recebiam rotineiramente doses de emergência quando estavam e missão. A de Tom estava guardada no seu bolso traseiro.

            — Infelizmente — continuou Ryland. —, como mencionei antes, meu pessoal não é bem-vindo em Seattle, o que significa que são você e seus colegas quem devem destronar Collier, mesmo que isso signifique tirar vantagem da conexão de seu filho com Collier.

            — Kyle? — Tom se arrepiou com a ideia. — Quer que eu explore meu próprio filho?

            Ryland não negou.

            — Como confidente e braço direito de Collier, ele é o único meio que seríamos burros se não utilizássemos. Entendo que isso que te coloque em uma posição difícil, mas seu dever com o país é maior do que sua obrigação familiar. — O tom severo lembrou Tom de como Ryland liderava o escritório noroeste da NTAC. — Você ainda é um agente federal, Tom. Não me diga que aprova Collier transformando Seattle em seu próprio feudo?

            — Claro que não. — Tom não confiava nem um pouco em Collier, mesmo que eles tivessem sido forçados a trabalharem juntos em uma ocasião. De fato, NTAC já estava fazendo o melhor para ficar de olho em Collier e em sua organização, dada a situação atual. Mas ele não gostava de receber ordens de gente como Ryland. — Deixe o Kyle fora disso.

            — Queria poder deixar — disse Ryland. — Eu costumava ir às festas de aniversário dele, se lembra? Pelo que me recordo, ele gostou muito daquele kit de química que dei quando fez onze anos. — Sua voz assumiu um tom de pena. — Mas o Kyle fez seu próprio jogo quando decidiu se juntar a Collier. — Ele não resistia tocar um pouco na ferida. — Você já pensou que você é um mau exemplo por dormir com o inimigo?

            Tom franziu o rosto.

            — Você não vai ganhar aqui, Dennis. Por que deveria te ajudar?

            — Os nomes Curtis Peck e Warren Trask te lembram algo? — O rosto magro de Ryland se tornou rígido. Tom recuou à menção do nome do homem que ele assassinara enquanto estava Marcado. — Odiaria vê-lo pagar por crimes que cometeu quando estava fora de si, mas não posso evitar que suas atividades extracurriculares me dão certo poder.

            Simone Tanaka deu um sorriso amargo.          

            — Nossa, isso me soa familiar.

            — Não tente me ameaçar. — Tom não tinha certeza se o outro homem estava ou não blefando. Agora que começara, usaria o melhor que pudesse. — Não sou o único com roupas sujas. Você quer que o mundo saiba que a promicina que Collier usou para impulsionar seu Movimento foi criada pela Haspelcorp durante sua direção? Pelo que eu saiba, isso o torna indiretamente responsável por tudo o que aconteceu desde então. Incluindo o 50/50.

            Ryland ficou carrancudo, incapaz de contradizer as acusações de Tom. Collier havia roubado a promicina feita pela Haspelcorp bem debaixo de seu nariz há dois anos. A droga seria usada para criar um exército reforçado de soldados para combater os 4400, mas Collier encontrara outro uso para ela, ou seja, oferecera para o mundo todo.

            — Touché — disse Ryland, recuando. Tentou outra carta. — Suponha que eu te diga que Collier está tentando usar promicina como arma para recriar uma versão do vírus lançado no ar por Danny Farrel há alguns meses.

            Tom estremeceu a menção do nome de seu sobrinho. Danny não queria machucar ninguém quando se injetou promicina. Só quis ganhar uma habilidade como seu irmão mais velho, Shawn, um dos 4400 originais. Mas, para seu terror, e o maior arrependimento do mundo, ele adquirira a medonha habilidade de infectar qualquer um em volta dele com uma alta forma contagiosa de promicina. Como uma Typhoid Mary moderna*, ele espalhou a praga por Seattle antes mesmo de perceber o que estava acontecendo. A própria mãe de Danny—a irmã de Tom—fora a primeira a morrer.

            — Eu vi os laudos — disse Tom, ceticamente. — Muitas evidências médicas apontavam para os Marcados e seus amigos em grande parte. Eles estão tentando provocar as autoridades lançando essa jogada contra Collier.

 

 

*N. do T.: Uma lenda de espíritos local. Conta a lenda que Typoid Mary infectou grande parte da cidade onde vivia, Irondequoit, uma cidadezinha em Monroe Country, New York. O termo hoje é usado para descrever pessoas com algum tipo de doença altamente contagiosa.

 

           

— Aposta mesmo nisso? — Ryland o desafiou. — Além disso, tenho minhas próprias fontes de informação.

            — Quais?

            Ryland olhou para Tanaka. A mulher removeu os óculos para revelar um par de penetrantes olhos castanhos. As íris de um bronze escuro tinham uma fina auréola dourada em volta delas, dando aos olhos um estranho brilho sobrenatural. Tom recordou-se de que Tanaka era capaz de ver a longas distâncias, e através de objetos sólidos, com seus chamados “olhos-espiões”. O Nova Group havia usado sua espiã durante o “Vesuvius Affair”. Ryland e seus capangas com certeza haviam usado seus dons oculares também.

            — Também posso ler lábios — ela o lembrou.

            Isso está mesmo acontecendo?, pensou Tom. A habilidade Tanaka era valiosa, mas ele estava prestes a fazê-los abrirem a boca. Ela estava interessada em contar a Tom tudo o que seus novos chefes queriam que ela fizesse, e Ryland havia mentido antes para ele.

            — Se não acredita em mim — disse Ryland. —, veja por si mesmo.

            Tom curvou-se e tirou um bloco de notas de seu bolso.

            — Como?

            Ryland sorriu astutamente.

            — Aqui está uma pergunta para você: o que aconteceu com os restos mortais de Danny Farrel?

The 4400 – Welcome to Promise City (Capítulo 1 traduzido)

Postado em Uncategorized em 18 18UTC dezembro 18UTC 2009 por brenooficial

Como muitos já devem saber, a série de TV “The 4400″ foi cancelada depois de quatro temporadas, mas para não deixar o fãs sem um final, foroam lançados dois livros, que seriam respectivamente a quinta e sexta temporada. “Welcome to Promise City”, de Geg Cox e “Promises Broken”, de David Mack são os nomes dos livros. Até agora, só saiu a versão em inglês e eu resolvi postar capítulo por capítulo traduzidos aqui no bog. Vou tentar postar semanalmente, pois traduzir não é um trabalho fácil…hahah =D… mas não garanto, talvez demore um pouco mais do que uma semana para postar.

Ah, e para quem não conhece a série, abaixo há dois vídeos, um é a música de abertura e o outro é  um pequeno resumo de sobre o que se trata a história.

Durante os últimos 60 anos, 4400 pessoas vieram desaparendo…

Todas reapareceram de uma vez…

Sem se lembrarem de onde estiveram…

Elas não envelheram um dia…

E algumas retornaram com novas habilidades…

Todas estão tentando se reconectar…

…com uma vida interrompida.

“Não somos uma ameaça. Somos a salvação. O mundo terá que lidar conosco”.

 

E agora, confiram o primeiro capítulo abaixo e não esqueçam de deixar o comentário!

UM

 

É a hora, pai disse Kyle.

                   Ele entregou ao pai uma seringa contendo um luminoso líquido âmbar. Tom Baldwin girou a seringa entre os dedos enquanto contemplava a dose de promicina em suas mãos. Para muitas pessoas, a injeção ilegal oferecia chances de 50% de ganhar uma notável habilidade sobrenatural – ou de morrer de uma maneira horrível. Mas Tom estava destinado a sobreviver à dose, ou pelo menos fora o que tinham lhe contado. De acordo com seu filho, o futuro queria que ele desenvolvesse uma habilidade própria.

                        Talvez hoje…?

 

            ― Sua identidade, senhor?

            A voz arrancou Tom de sua lembrança, trazendo-o de volta ao presente. Batidas na janela do lado do motorista de seu sedan Chrysler azul. Ele baixou o vidro e entregou a identidade a uma dos guardas da fronteira postada na barricada. Uma brisa úmida de janeiro invadiu o carro, assim como o odor de cansaço. Dúzias de veículos formavam uma fila na I-5 enquanto aguardavam permissão para deixarem Seattle. A julgar pelas caixas e malas pressas aos tetos dos carros, e pelos grandes trailers U-Haul, muitos deles estavam saindo de vez.

            Menos de dois meses haviam se passado desde que um surto de promicina que se espalhava pelo ar assolou Seattle, matando mais de 9000 pessoas, e a cidade ainda não tinha se recuperado do desastre. O fato de que outras nove mil pessoas, mais as que haviam sido dotadas com habilidades sobrenaturais contra suas vontades, apenas contribuía para essa instabilidade. Sem espanto, milhares de sobreviventes, especialmente pessoas normais sem habilidades especiais, escolheram procurar pastos mais seguros em outro lugar. Mais de quatro milhões de pessoas viviam em Seattle; e quase três quartos desse número haviam diminuído.

            Tom não podia culpá-los. Seattle era um lugar perigoso atualmente.

            E fica mais ainda a cada momento, ele pensou.

            A guarda examinou as credenciais de Tom. Um uniforme de colarinho alto, cor de pinho e em ótimas condições a identificavam como uma das voluntárias Policiais da Paz de Jordan Collier. “NTAC, é?”, a voz da mulher se tornou áspera. O Comando Nacional de Avaliação à Ameaças (National Threat Assessment Command, em inglês) não era exatamente popular entre os seguidores de Jordan Collier, o incontroverso líder do Movimento Promicina-Positiva, que havia tomado, em grande parte, Seattle, conhecida em alguns círculos, agora, como “A Terra Prometida”. Durante o desastre, seu povo, que era imune à praga (tendo se exposto à promicina anteriormente), havia dado um passo à frente para manter a ordem – e fazer Seattle se render às autoridades. Embora Collier ainda não tivesse declarado oficialmente a independência da cidade, e tivesse impedido-a de tomar qualquer título ou posição formal, ele e seus companheiros estavam no controle do governo e da infra-estrutura da cidade. Até onde movimento sabia, NTAC, um divisão da Segurança Doméstica, era parte da velha opressão a qual eles haviam usurpado – e jogado-a nos lixos da história.

            — Isso mesmo — disse Tom. Ele não conseguia evitar pensar qual o tipo de habilidade que a guarda possuía; todo o povo de Collier havia sido mudado por promicina de um jeito ou de outro, e acreditava que tinha um destino sagrado de mudar o mundo. Até o nome do desastre era controverso. Collier e seus seguidores de referiam a ele como “O Grande Passo Adiante”. A maioria do resto o chamava de “50/50”.       

            Ele manteve a voz neutra, sem querer provocá-la. A guarda não parecia estar armada, mas isso pouco importava no que dizia respeito aos p-positivos. Pelo que Tom sabia, essa mulher podia matá-lo com um pensamento.

            — Acho que vai ver que meus papéis estão em ordem.

            A guarda olhou de soslaio para sua identidade.

            — Acho que sim — concordou ela, com rancor. — No entanto, se eu fosse você, continuaria andando e nunca mais voltaria.

            Ela jogou os papéis de volta para ele.

            — Seu tipo não pertence mais a este lugar.

            Tom sentiu-se tentado a deixar claro que ele nascera e crescera em Seattle e que tinha muito mais direito de viver ali do que qualquer outra pessoa, mas segurou sua língua. Tinha assuntos mais importantes com os quais lidar hoje, desde que ele conseguisse sair da cidade.

            — Te vejo mais tarde — disse ele, simplesmente. — No meu caminho de volta.

            A guarda franziu as sobrancelhas, mas acenou mandando-o continuar. Um portão de alumínio automático elevou-se e o deixou passar. Um par de cones metálicos laranjas cercava a estrada. Embora estivessem desativados agora, os cones eram capazes de gerar ondas de dores intensas quando ativados. Eram a primeira linha de defesa da Terra Prometida.

            Tom não se importou em fechar a janela antes de se dirigir para o norte, já que tinha apenas meio quilômetro antes de parar em um segundo bloqueio. Este era formado por imponentes soldados empunhando armas automáticas. Seus uniformes e insígnias os identificavam como membros do exército americano. Um guarda se aproximou do lado do motorista do carro.

            Lá vamos nós de novo, pensou Tom.

            Um impasse difícil existia entre o governo federal e a Terra Prometida, os federais dificilmente ficariam felizes em entregarem uma grande cidade americana a um traficante messiânico com um culto de perseguidores, mas as habilidades extraordinárias de Jordan Collier e seu povo, assim como a tecnologia futurística em seu comando, faziam a retomada de Seattle exigir grande empenho. Mesmo antes da praga, a comunidades de revolucionários p-positivos conseguira evitar qualquer tentativa do governo de levá-los sob custódia. Agora, com seu exército literalmente ganhando milhares de novos recrutas, Collier era muito conhecido – e não somente em Seattle. Sabia-se que ele possuía agentes; capazes de gerar tornados, furacões e Deus sabia o que mais, posicionados pelo país inteiro, prontos para causar destruição se os Federais tentassem enviar tropas para retomar Seattle.

            O que serão obrigados a fazer eventualmente, pensou Tom. Todos sabiam que um confronto maior era inevitável, mas ninguém queria uma nova versão de Waco na cidade, então as forças de ambos os lados estavam aproveitando seu tempo e segurando suas respirações. Como o resto de nós.

            Ele mostrou sua identidade ao soldado, um rapaz jovem aparentemente da mesma idade de Kyle. O guarda relaxou um pouco quando viu as credenciais da NTAC de Tom. Seus parceiros armados se postavam cautelosamente, segurando firmemente seus rifles de assalto M16. Ele não culpava os guardas por serem tão cautelosos; eles estavam na fronteira de uma evolucionária guerra civil.

            — Por favor, saia do veículo — pediu o jovem guarda. Ele deu um passo para longe da porta.

            Tom suspirou impaciente, mas não tentou desobedecer. Saiu do carro. Uma jaqueta escura, uma camiseta pólo de gola aberta e calças escuras o distinguiam dos outros. Cabelos loiros arenosos coroavam suas feições enrugadas. Os exaustos olhos azuis entregavam as situações que ele passara nos últimos quatro anos. Abriu o blusão para revelar o coldre pendurado em seu quadril. O guarda olhou desconfiadamente para a arma, mas nada fez. Tom ficou parado enquanto o jovem soldado digitava seu nome em um PDA, comparando com uma enorme lista dos conhecidos como “terroristas” p-positivos. Cães Pastores Alemão checaram o Chrysler para certificarem-se que Tom não estava contrabandeando promicina para fora da cidade.

            Embora fosse distribuído abertamente em alguns bairros de Seattle, o neurotransmissor artificial continuava sendo estritamente ilegal no resto do mundo. A mera possessão de promicina trazia um mandato de prisão, o que não fez Collier e seus discípulos pararem de tentar dar a droga para quem a quisesse, de graça. E segundo ocorrências que Tom havia visto, Collier estava conseguindo atingir seus objetivos, exceto com as tais medidas rigorosas que Tom experimentava neste momento.

            Depois de feita uma boa busca no carro, os cães se aproximaram e também farejaram Tom, no caso de ele estar carregando a promicina no próprio corpo. Ele tentou recuar quando os caninos suspeitos invadiram seus espaços pessoais.

            Que bom que deixei aquela seringa em casa…

 

            Tom estava sentado no sofá de sua sala de estar, com a seringa nas mãos. O estranho brilho amarelo da promicina causava arrepios em sua espinha. Ele havia testemunhado de perto o efeito causado naqueles que não tiveram sorte suficiente para fazer história com o 50/50, vendo o sangue brilhoso jorrar de seus olhos e narizes como convulsões violentas que consumiam os últimos momentos de suas vidas. Tomar a dose era como brincar de roleta russa, mas com os piores acidentes. Sua própria irmã havia sido morta pela promicina menos de uma semana antes, junto com milhares de vítimas inocentes.

            Não acredito que estou mesmo considerando isso, ele pensou.

            — Vá em frente, pai. — Kyle o instigou. Seu filho, um jovem magro com cabelo castanho curto, estava sentado ao seu lado no sofá. Ele estava vestido casualmente, com uma camiseta branca listrada e calças jeans. Uma mochila de ombro, contendo um livro de profecias místicas, estava amarrada ao seu peito. Kyle já tomara a dose, contra a vontade de Tom, há muitos meses e abandonara a faculdade para se tornar o braço direito de Jordan Collier. Tom não entendia muito bom como funcionava a habilidade de seu filho, mas sabia que ele havia adquirido algum tipo de dom pré-cognitivo que o havia levado até um livro misterioso que parecia profetizar a ascensão de Collier e do eventual “Paraíso na Terra”. Tal livro também listava diversos indivíduos que estavam destinados a desempenhar importantes papéis na salvação do mundo.

            O nome de Tom estava nessa lista.

            Alguns anos antes, ele não teria levado a sério essa conversa sobre profecias e destino. Havia sido um agente federal cético com curta paciência para papo furado sobre ficção científica. Mas isso fora antes de 4400 pessoas desaparecidas aparecerem repentinamente nas cercanias de Seattle com estranhas habilidades e sem memórias de onde haviam estado. Os 4400 viraram o mundo de Tom de cabeça para baixo, mesmo antes de ele descobrir que o retorno deles fora providenciado por agentes do tempo do futuro, como parte de um plano elaborado para impedir uma catástrofe eventualmente. No começo, somente os 4400 “retornados” possuíam habilidades sobrenaturais, mas uma vez que o neurotransmissor responsável pelos seus dons fora isolado e replicado—por uma iniciativa patrocinada pelo governo, ironicamente—o gênio da promicina saíra da garrafa. Agora, Tom não sabia no que acreditar. Nesse cruel mundo novo de viagens no tempo, telepatia, projeção astral, e qualquer outro caso de esquisitice, por que um livro mofado não podia predizer seu futuro? Especialmente se ele tivesse sido implantado no passado por agentes do futuro.

            Mas com que propósito?

            — Vai dar tudo certo, pai. — Kyle insistiu. Convicção, e um fervor religioso, brilharam em seus gentis olhos castanhos. Diferentemente do pai, ele tinha fé total em Collier e na sua visão do futuro. — O livro diz que você vai sobreviver.

— Não sei — replicou Tom, balançando a cabeça. — Não tenho certeza se estou pronto para isso. Não depois de tudo pelo que passei recentemente.

            Sua mão foi até sua orelha esquerda, onde os dedos encontraram uma marca em forma de X escondida atrás do lóbulo. A intrigante cicatriz era um lembrete de que, há menos de uma semana, Tom havia sido Marcado por conspiradores do futuro, que haviam tomado mentes e corpos de homens e mulheres proeminentes numa tentativa traiçoeira para impedir que Collier e seus seguidores mudassem o futuro. Os Marcados, que pertenciam a uma facção rival aos viajantes do tempo que haviam retornado os 4400 ao presente, haviam injetado máquinas microscópicas—nanômetros—em Tom que haviam substituído sua personalidade por a de um impostor sem piedade que faria de tudo, até mesmo assassinato, para cumprir a sinistra agenda dos Marcados.

            Os assassinatos ainda assombravam a memória de Tom, como um pesadelo do qual não se podia acordar. Ele olhou de relance para mesinha de centro em frente ao sofá. Os rostos de Curtis Peck e de Warren Trask o encaravam. Ele se lembrava de ter matado os dois.

            A culpa o invadiu. Embora ele soubesse que intelectualmente não havia sido o responsável pelas mortes dos homens, que havia sido literalmente possuído por outra entidade quando cometera os assassinatos, ainda assim não sabia se podia viver com as lembranças.

            Kyle achava que tomar a dose faria tudo melhorar. Isso justificaria toda a dor e sofrimento que Tom vinha enfrentando e abriria uma porta para um futuro melhor para toda a raça humana. Tom não tinha tanta certeza…

            — Acabei de voltar a mim, Kyle. Acabei de… tirar essas coisas do meu cérebro — Ele colocou a seringa na mesinha, ao lado das fotos acusadoras. Olhou para o filho, esperando que Kyle entendesse. — Não estou pronto para injetar outra poção do futuro no meu corpo. Mesmo que isso não me mate, não quero mais mudar. Quero ser o simples, comum, Tom Baldwin novamente.

            — Mas… — Desapontamento tomava o rosto longo de Kyle. Ele vinha “empurrando” a dose para o pai há meses. — A profecia, o Paraíso na Terra… Você tem que tomar a dose. O futuro depende disso.

            — Talvez — disse Tom. Ele odiava ter que desapontar Kyle desse jeito. O recém-formado comitê de seu filho para a causa de Collier se punha com frequência entre eles. Ainda assim, ele colocou a seringa numa malinha almofadada e fechou a trava. — Mas não hoje.

 

            — Certo — informou o guarda. — Está limpo.

            Tom entrou novamente no carro e passou pelo bloqueio. Deixando a Terra Prometida para trás, pelo menos por algum tempo, ele dirigiu para o norte na Interestadual 5. O trânsito era intenso para uma tarde de domingo, mas diminuiu assim que ele entrou na 526. Uma curta travessia o levou das docas em Mukilteo para o sudeste de Whidbley Island. De onde estava, era apenas um curto trajeto através da ilha para seu destino: o Parque Estadual Fort Casey.

            Localizado no topo de íngremes abismos, sobrepondo-se sobre o litoral de Juan de Fuca, Fort Casey fora construído por volta de 1890 para guardar a entrada de Puget Sound de ataques marítimos. Embora tivesse sido um presente antigo pelo advento de poder aéreo depois da Primeira Guerra Mundial, a posição imponente da fortaleza fora preservada como um monumento histórico. Colunas massivas de concretos encaravam as ondas abaixo. Artilharia antiga estava montada em carruagens ocultas no topo das paredes cinza encharcadas. Torres de vigilância afluíam das colunas. Escadarias e passarelas dilapidadas haviam servido, antes, para tropas que passavam por ali. Um farol branco alto fora construído um pouco mais acima da margem, apenas a uma pequena caminhada da fortaleza. Sua aparência pálida e aconchegante entrava em contraste com as ameaçadoras ruínas militares.

            Tom se lembrava ter levado Kyle ali anos atrás. Uma nostalgia angustiante trespassou seu coração enquanto ele se recordava de como o garoto havia gostado de explorar a velha fortaleza. Juntos, eles haviam empunhado as armas anciãs e fingido atirarem em navios de guerra imaginários. A vida parecia muito mais simples antes. Agora Kyle era um homem crescido, empenhado nas perigosas ambições de Jordan Collier, e os verdadeiros invasores vieram através do tempo, não do mar. Fort Casey era mais obsoleto do que sempre.

            Um campo gramado separava o estacionamento das colunas. Em dias mais ensolarados, o campo geralmente atraía pessoas que gostavam de empinar pipa que enchiam o céu com elaboradas construções aéreas, mas o inverno desanimador havia espantado os visitantes. Uma névoa úmida cobria o chão. Uma forte garoa caía de um céu nublado. Havia somente mais um carro parado ali perto: um Lincoln Town com placa de Washington.

            Parece que temos o lugar só para nós, pensou Tom. Provavelmente também, sobre o que quer que o encontro secreto fosse, não era de interesse público. Por que escolher um ponto de encontro tão heterodoxo?

            A curiosidade, assim como a chuva incessante, o levou através do campo. Ele fez caretas quando a água gelada escorreu pela sua nuca; como muitos nativos de Seattle, ele não seria visto carregando um guarda-chuva. Uma rápida corrida o levou até uma passagem em forma de arco na base da coluna mais próxima. Uma porta de ferro flanqueava a soleira. Ele entrou nos confins de um tenebroso armazém de tiros e pólvoras. A sala escura estava vazia com uma cela de prisão. Algas verdes se esticavam pelas paredes de concretos. Uma haste vazia de elevador conectava o armazém de pólvoras com as armas amontoadas um nível acima. A água da chuva entrava pela porta, molhando o chão de pedra rígida.

            Tom balançou a água do cabelo e olhou em volta da sala. A princípio, não viu ninguém e imaginou que talvez houvesse entrado no armazém errado. A velha fortaleza era cheia de cantos isolados, o que contribuía para o local ser escolhido para o encontro. As densas paredes de concreto desencorajavam qualquer vigilância eletrônica.

            Sem chance alguma, como posso ver.

            Ele estava prestes a sair na chuva quando ouviu um ruído de locomoção às suas costas. Sua mão foi instintivamente para o coldre enquanto ele se virava para ver duas figuras emergindo de um dos armazéns interligados. Uma era masculina, a outra feminina. O primeiro não era alguém que ele estivesse ansioso para ver.

            — Já era hora de chegar aqui — disse Dennis Ryland. — Você está atrasado.